Saiba quem é Maria Machadão, a aniversariante mais famosa desta quinta-feira em Goiânia
Dona da Estância MM completa 69 anos e acumula trajetória marcada pela noite de Goiânia, festas tradicionais e passagem pela política
Ir direto pra matéria
Pergunte em Goiânia quem é Maria Machadão e até quem nunca colocou os pés na Estância MM provavelmente já ouviu esse nome. Aos 69 anos, Maria Nunes Perdigão transformou um apelido de novela em identidade e acumulou histórias que misturam noite, sertanejo, política e lendas urbanas. Nesta quinta-feira (13), ela comemora mais um aniversário mantendo uma festa que atravessa cerca de três décadas.
Em entrevista exclusiva ao Mais Goiás, Maria abriu o baú de memórias e contou como a menina que chegou à capital aos 6 anos se tornou uma personagem conhecida por diferentes gerações.
Antes da lenda, havia uma menina sob uma lona
Maria nasceu em Ceres, em 9 de agosto de 1957, e chegou a Goiânia aos 6 anos com a família. Eram dez irmãos, o pai estava doente e desempregado e a mãe trabalhava para sustentar a casa. Sem espaço na pequena residência de uma tia, Maria conta que a família se abrigou sob uma lona preta montada do lado de fora. “Passamos muita necessidade, muita fome. Eu sempre via aquilo e pensava: um dia isso vai acabar”, relembra.
Aos 13 anos, começou a trabalhar como doméstica e, aos 18, conseguiu emprego na Madeireira São Jorge. Foi nesse período que uma conhecida a convidou para conhecer a noite de Goiânia. Maria revela que trabalhou como profissional do sexo durante cinco dias, mas percebeu que aquela função não era para ela.
Nas casas noturnas, descobriu outra habilidade: liderar, organizar e resolver os problemas das mulheres e, pouco depois, passou a atuar como agenciadora.
Afinal, de onde veio Maria Machadão?

Maria Machadão não é o nome que aparece em sua certidão. O apelido surgiu na década de 1970, quando ela ainda trabalhava na madeireira, em referência à personagem de “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado. Maria não gostou da brincadeira no início, mas o nome pegou e atravessou décadas.
Depois veio a Estância MM e o apelido praticamente engoliu Maria Nunes Perdigão. A casa já aparecia na imprensa goiana na década de 1990 e tornou-se um dos estabelecimentos de entretenimento adulto mais conhecidos do Estado. Em 2022, Maria contou ao Mais Goiás que acumulava 43 anos de convivência com mulheres que trabalham no segmento.
A dimensão alcançada pelo nome é resumida por ela em poucas palavras: “Toda Goiânia me conhece. Onde eu chego é engraçado. Já ouviram falar”.
Uma festa que começou com Leandro e Leonardo

O aniversário também virou parte da lenda. Maria conta que as grandes comemorações começaram entre 1996 e 1997 e coloca Leandro e Leonardo no nascimento da tradição. “Leandro e Leonardo fizeram a festa para mim. Começou essa festa”, afirma. A partir daí, segundo ela, outros cantores começaram a aparecer e o evento cresceu ano após ano.
Maria afirma que Gusttavo Lima chegou a cantar em seu aniversário quando ainda estava no início da carreira. O relato encontra paralelo em entrevista publicada em 2024, na qual ela contou que o cantor se apresentou algumas vezes na Estância MM no começo da trajetória, assim como Bruno & Marrone.
Nesta quinta, a programação prevê 13 modelos em apresentações, segundo Maria. Ela afirma que cantores conhecidos também costumam aparecer de surpresa, mas não antecipa nomes.
Aniversário já virou tradição em agosto
A festa nem sempre acontece em 9 de agosto, data de nascimento de Maria. Há registro de uma comemoração marcada para 11 de agosto já em 2016. Em 2019, a festa aconteceu durante uma quinta-feira, 15 de agosto, e foi descrita à época como parte do calendário de eventos privados do Estado. Em 2021, outra edição foi anunciada para 19 de agosto, com previsão de atrações vindas do eixo Rio-São Paulo.
Maria diz que não consegue estimar quantas pessoas participarão da edição deste ano. A empresária explica que a comemoração não é um evento popular aberto indiscriminadamente ao público e que a realização envolve custos elevados. O formato, entretanto, preserva a característica que acompanha a festa há anos: apresentações e a possibilidade de convidados conhecidos aparecerem sem anúncio prévio.
Aos 69 anos, ela continua pessoalmente à frente da organização e da Estância MM.
O Martini que Leonardo “paga” até hoje
Entre as histórias que ajudam a explicar a proximidade de Maria com o sertanejo está uma conta que, na brincadeira, nunca terminou de ser paga. Ela conta que Leandro e Leonardo chegaram ao estabelecimento antes de uma apresentação e não tinham dinheiro para pagar um Martini. Como era uma época sem celular, funcionários precisaram telefonar até encontrá-la para resolver a situação. O episódio acabou virando um causo repetido durante décadas.
“Toda vez que encontro com o Leonardo, ele tira a maior nota. Quando era R$ 10, era R$ 10; quando foi R$ 20, R$ 20; agora é R$ 200. Eu falo: ‘sempre paga esse Martini’”, conta.
Maria afirma que foi muito próxima de Leandro e mantém amizade com Leonardo, embora atualmente os dois se encontrem menos. Ela também guarda histórias de outros artistas, entre eles Marrone, que diz ter conhecido antes da fama.
E a famosa “chibatinha”? Essa é verdade

Toda lenda urbana precisa de histórias que, depois de repetidas durante anos, deixam dúvida sobre onde termina a verdade e começa o exagero. Uma das mais conhecidas sobre Maria diz que ela circulava com uma pequena chibata. A empresária confirma: o objeto existia. O que ela nega é que fosse utilizado para agredir as mulheres.
“Eu tinha chicotinho. Usava de brincadeira”, explica. Maria conta que também recorria ao objeto para impor ordem diante de excessos no estabelecimento, mas rejeita as histórias de agressões. Depois de décadas sendo repetido, o episódio entrou para o conjunto de causos que cercam seu nome.
Até criança sabe quem é Maria Machadão
Talvez a melhor medida da transformação de empresária em personagem seja o fato de Maria ser reconhecida por pessoas que nunca tiveram qualquer relação com a Estância MM. Ela conta que até crianças já perguntaram por ela ao cantor Leonardo. “Toda [Goiânia] me conhece”, diz, ao lembrar que frequentemente é reconhecida em diferentes lugares. O apelido recebido ainda jovem, portanto, ultrapassou o próprio negócio.
A popularidade chegou também às urnas. Em 2022, Maria concorreu a deputada federal pelo Avante e recebeu 2.938 votos. Na campanha, disse ao Mais Goiás que pretendia defender principalmente pautas relacionadas às mulheres. A experiência, porém, não terá continuação: aos 69 anos, ela descarta disputar outra eleição.
Aposentadoria? “Enquanto estiver respirando”
Se a política ficou para trás, a Estância MM não. Maria continua à frente do negócio e afirma que não pretende parar enquanto tiver condições físicas para trabalhar. “Enquanto estiver respirando, vou estar trabalhando. Vou dar continuidade porque eu gosto”, afirma.
Um dos quatro filhos conhece a administração e pode assumir o empreendimento no futuro, embora ela diga que não preparou formalmente um sucessor.
Machadão também defende a regulamentação da atividade das profissionais do sexo, tema que já discutia publicamente em 2017. Para ela, regras específicas podem dar mais segurança às mulheres que vivem da atividade, muitas delas mães e responsáveis pelo sustento da família.
Aos 69 anos, continua dizendo que pretende ajudar enquanto puder. “Sou uma pessoa que sofreu muito para sobreviver, de muita humildade, muito carinho, muito carisma e vontade de vencer na vida e de fazer as pessoas terem também.”
A menina que chegou a Goiânia aos 6 anos atende pelo nome de Maria Nunes Perdigão. A empresária construiu a Estância MM, viu artistas desconhecidos virarem estrelas, entrou para a política e transformou o próprio aniversário em tradição. Entre histórias verdadeiras, exageros e causos que só quem viveu pode contar, acabou conquistando algo que não aparece em documentos ou registros empresariais: um lugar no imaginário da cidade. Maria Nunes Perdigão é o nome de batismo; Maria Machadão é a personagem que Goiânia conhece.