GRUPO C

‘Minha mãe escolhia entre comer ou nos alimentar’, diz atacante do Haiti na Copa

Principal referência ofensiva do Haiti, Frantzdy Pierrot teve infância marcada pela pobreza, violência e falta de comida

'Minha mãe escolhia entre comer ou nos alimentar', diz atacante do Haiti na Copa (Foto: Instagram)
'Minha mãe escolhia entre comer ou nos alimentar', diz atacante do Haiti na Copa (Foto: Instagram)

(O Globo) “Minha mãe tinha que escolher entre comer ou nos alimentar”. A frase de Frantzdy Pierrot resume a trajetória de um dos personagens mais marcantes desta Copa do Mundo. Principal referência ofensiva da seleção haitiana, adversária do Brasil no Grupo C, o atacante abriu as portas de sua história em entrevista ao jornal espanhol Marca e relembrou uma infância marcada pela fome, pela violência e pela falta de oportunidades.

Hoje, aos 31 anos, Pierrot disputa o maior torneio do futebol mundial. Mas o caminho até aqui esteve longe dos grandes centros esportivos. O atacante cresceu no Haiti em meio a dificuldades extremas.

Frantzdy Pierrot com a seleção do Haiti (Foto: Instagram)

— Cresci passando dias sem ter o que comer. Minha mãe tinha que escolher entre comer ela mesma naquele dia ou nos alimentar — contou.

As lembranças da infância vão além da falta de alimento. O jogador recorda que improvisava bolas para jogar futebol nas ruas, muitas vezes utilizando laranjas.

— Brincávamos na rua sem chuteiras. Usávamos laranjas para jogar porque eram pequenas. Às vezes havia cacos de vidro na rua que se cravavam nos nossos pés. Não tínhamos dinheiro para ir ao hospital, então precisávamos retirar os cacos nós mesmos — revelou.

Pierrot destacou que sua história não é uma exceção no Haiti. Segundo ele, milhares de crianças continuam enfrentando condições semelhantes no país, que convive há anos com crises políticas, econômicas e de segurança.

Para o atacante, o futebol representa muito mais do que um esporte para os haitianos. Durante a participação da seleção na Copa do Mundo, ele diz ter testemunhado algo raro: momentos de paz em um país frequentemente marcado pela violência.

— Antes da nossa primeira partida não houve tiros, nem brigas. Nada. Só futebol. Todo mundo estava focado exclusivamente na seleção haitiana — afirmou.

Segundo o jogador, a classificação para a Copa transformou a equipe nacional em símbolo de esperança para a população.

— As pessoas nos veem como esperança. Elas nos veem como felicidade — disse.

A experiência de vida também motivou Pierrot a criar uma fundação voltada para crianças e jovens haitianos. O objetivo é ampliar oportunidades educacionais e esportivas em um país onde, segundo ele, até treinadores precisam escolher entre investir na carreira ou alimentar a família.

— No Haiti, há treinadores que precisam escolher entre tirar a licença para trabalhar ou alimentar os filhos — relatou.

Aos 11 anos, Pierrot mudou-se para Massachusetts, nos Estados Unidos, onde conseguiu conciliar os estudos com o futebol. Incentivado pelos pais, formou-se em Criminologia e revelou um plano pouco comum entre jogadores profissionais: deseja trabalhar no FBI quando encerrar a carreira.

— Meus pais sempre deram muita importância à educação. Eles me ensinaram que o futebol pode acabar a qualquer momento. Se algo muito sério acontecesse amanhã, quem as pessoas chamariam? O FBI — afirmou.

Apesar da trajetória difícil, Pierrot garante que nunca deixou de acreditar. Nem quando faltava comida em casa, nem agora, às vésperas de enfrentar a seleção brasileira.