Sexta-feira, 24 de Julho de 2026
PÂMELLA DANDARA

Campeã mundial, goiana conta que não gostava de capoeira: “Minha mãe me obrigou”

Pâmella Dandara conta como fez da capoeira um estilo de vida e se tornou inspiração para a família e para outras atletas

Johann Germano
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Pâmella Dandara

Goiás estará representado no Pelourinho, em Salvador, no próximo dia 29 de agosto. A capoeirista e professora da modalidade Pâmella Donadon T. Caixeta Santos, a Pâmella Dandara, estará no Red Bull Paranauê. É o maior desafio de capoeira do mundo que busca encontrar o capoeirista com maior conhecimento técnico e versatilidade nos estilos Angola, Regional e Contemporânea.

Pâmella conta que foi indicada para participar foi uma de suas mestras. A reação, quando soube, foi pensar a recorrer às orações. “Vou orar, porque se for da vontade de Deus eu vou ser chamada. Se não for, não vou ser chamada. No outro dia, eu senti queimar meu coração e falei para ela que podia me indicar. E aí o pessoal da Red Bull entrou em contato me falando que fui selecionada. ‘A gente tem te estudado, acompanhado suas redes sociais, a gente ficou muito empolgado e gostaria que você participasse’. E eu falei que estou pronta, aceitei a chamada e assinei o contrato nesta semana”, relata.

No entanto, quando tudo começou, não foi exatamente como ela esperava. Graças à mãe, Ivanilde. “Comecei na capoeira quando eu tinha apenas 8 anos de idade. Eu nem gostava da capoeira, para começo de conversa. Minha mãe meio que me obrigou, porque nós íamos a uma igreja procurar uma missa, e o professor me convidou para participar da capoeira, porque ele tinha um projeto social na época. E eu disse ‘mãe, eu não quero’. Ela falou assim ‘Você vai! Só porque você falou que não queria, na frente do professor, você vai’. E desde então eu não desgrudei da capoeira. E aí eu não sei se foi felicidade ou infelicidade para ela, porque ela tinha que me levar toda semana”, lembra.

À época, ela passou a integrar um projeto social em Aparecida de Goiânia em 2007, com Mestre Liliu, e frequentava as aulas três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas. E o gosto pela capoeira não demorou. “No primeiro dia eu fui forçada, mas no segundo em diante eu que obrigava minha mãe a me levar”, diz a atleta.

Desde então, passou não apenas a praticar, mas a competir. “Participei pela primeira vez e perdi, como qualquer atleta que participa pela primeira vez, não dei tanta sorte em ganhar”, afirma.

Passou por diversos grupos como o Capoeira Nagô, em Goiânia, até se identificar completamente com o Grupo Candeias, do fundador Mestre Suino. Dali em diante, conquistou os primeiros prêmio em Goiás até conquistar o mundo.

“Fui três vezes campeã do campeonato goiano, em 2022, e aí comecei a ter um desempenho melhor. Participei de um grupo mundialmente conhecido, e o nosso evento se chama Open Candeias, acontece a cada dois anos, e reúne capoeiristas de todo mundo. Esse evento acontece aqui em Goiânia. Pessoas de outros países vêm para o Brasil, dos Estados Unidos, da Europa, Colômbia, Peru, México vem para cá”, conta Pâmella.

Pâmella é bicampeã do Volta ao Mundo Bambas (Foto: Arquivo Pessoal/Instagram)

Além disso, Pâmela conquistou o bicampeonato do Volta ao Mundo Bambas, o VMB, maior liga internacional de capoeira de alto rendimento e o principal campeonato profissional da modalidade no mundo. O evento estrutura disputas de alta performance, unindo a tradição cultural da capoeira a um formato de espetáculo esportivo e midiático.

“A capoeira é uma luta disfarçada de dança, e as competições são muito complexas, até de explicar. Nela entram quedas, golpes traumatizantes, desequilibrantes, e entra também a malícia do jogador. É como se fosse xadrez, a gente joga a isca para o outro cair e a gente conseguir dar a volta por cima. Conta também com as acrobacias. A gente faz um jogo mais lento, às vezes mais pegado, mais agarrado, mais contundente, e vai depender também dos critérios que o campeonato vai pedir. Nós temos regras e critérios que devemos seguir como ritmo, objetividade, tenho que dominar o jogo, tenho que dar queda no meu adversário, tenho que não ser grosseira no momento certo, então a capoeira é muito completa”, descreve a campeã.

Foto: Arquivo Pessoal/Instagram

Além de competir, Pâmella, que é formada em Educação Física, é também personal trainer e mantém um projeto voltado à capoeira, o Capoeira Minha Identidade. A próxima edição acontece no dia 22 de agosto e está com inscrições abertas.

“Além de atleta, sou professora de capoeira, sou profissional de Educação Física, tenho um local onde dou aula, tenho alunos e um projeto com meus alunos. Eu faço um evento todo ano, e a cada ano fica um pouco maior. O Capoeira Minha Identidade é onde meus alunos vão pegar a primeira corda, outros vão trocar de corda, vou trazer alguns amigos do Rio de Janeiro, essas pessoas virão aqui prestigiar. É um evento para todo mundo, de pessoas que queiram agregar, estar em comunhão, jogar muita capoeira e conhecer pessoas”, afirma.

No dia 27 de agosto, Pâmella embarcará para Salvador, onde participará do Red Bull Paranauê, ao lado do marido, coach e preparador, Igor Rua, o contramestre Iguinho. “Ele acompanha o meu dia a dia como professora de capoeira, como atleta. Ele tem quase 30 anos de capoeira. Ele foi competidor, já foi ao Azerbaijão competir, e atualmente ele está como coach preparando os atletas. Ele é meu coach, é ele quem me prepara, que está do meu lado e, acima de tudo, é meu marido”, afirma.

Pâmella se recorda que encarou de frente o desafio da capoeira, e encoraja outras meninas a seguirem o caminho. “Eu fico até emocionada, porque aos 8 anos de idade eu comecei e o povo falava que capoeira era coisa de marginal. Me falavam para sair, para eu procurar outro esporte, que a capoeira não me levaria a nenhum lugar. Eu ouvi isso até perto de familiares, e hoje a capoeira tem ganhado o mundo. A capoeira é nossa, é brasileira, é nossa cultura, e o que eu diria é não desistir, porque nós mulheres, principalmente nós mulheres vamos ter muitos desafios. Desafios como esposas, como filhas, desafios por serem mulheres. Mas nós, tudo em que colocamos a mão, conseguimos fazer perfeitamente bem. Hoje temos grandes inspirações que vão permanecer na capoeira nos ajudando e nos incentivando. Eu tenho grandes mulheres capoeiristas, grandes mestras, que me incentivam até hoje. Mestra Iúna, Mestra Vivian, Mestra Amazonas, Mestra Dendê, e eu tenho sorte de ter elas no meu grupo”, enumera.

Aquela menina de 8 anos, que foi levada pela mãe para as primeiras experiências com a capoeira, e que hoje busca o mundo por meio da modalidade, agradece à dona Ivanilde Donadon. “Minha mãe é minha maior apoiadora. Quando eu falei que fui convidada para o Red Bull Paranauê, ela falou para mim ‘Pâmella, o céu é o limite para você’. Eu só quero agradecer à minha mãe, muitas vezes eu sou até falha como filha, mas ela nunca falhou em ser mãe”, finaliza.

Foto: Arquivo Pessoal/Pâmella Dandara/Instagram

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Esportes Luta
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Capoeira