COMPORTAMENTO

Austrália: como os menores de 16 vivem sem poder acessar redes sociais

Austrália foi o 1º a banir redes sociais para crianças e adolescentes com menos de 16 anos; veto vai completar meio ano

Austrália: como os menores de 16 vivem sem poder acessar redes sociais (Foto: Pixabay)
Austrália: como os menores de 16 vivem sem poder acessar redes sociais (Foto: Pixabay)

(Folhapress) Faz quase seis meses que a Austrália se tornou pioneira mundialmente no banimento das redes sociais para menores de 16 anos. Brasileiros que moram no país relatam que o uso dessas plataformas diminuiu entre crianças e adolescentes, mas que ainda há muitas tentativas de se burlar as restrições.

“Conhecemos menores de 16 anos que continuam tendo acesso a redes sociais. A proibição não é tanto ‘preto no branco’. Tem várias nuances”, conta à Folha Carla Alzamora, que se mudou para a Austrália em 2018 com o filho, Caetano, hoje com 13 anos —a família mora na capital do país, Camberra.

Ela sempre supervisionou o uso de telas do filho, que chegou a usar redes sociais por um breve período. “Mas eu logo cortei, antes mesmo da restrição do governo.”

Caetano aprova a lei, acha “muito bom que crianças e adolescentes estejam menos no celular”. Mas conta que “a proibição funcionou em alguns lugares e, em outros, não”. “Algumas redes sociais ficaram mais difíceis de acessar, mas ainda é possível entrar, e outros aplicativos nem tentaram cumprir a regra.”

Verificação de idade nem sempre consegue ser efetiva na Austrália (Foto: Pixabay)

Apesar de cerca de 4,7 milhões de contas de usuários de até 16 anos terem sido removidas pelas plataformas na Austrália, a verificação de idade nem sempre é efetiva. As tentativas de se burlar as restrições costumam envolver o uso de contas de pessoas mais velhas, declarações falsas de idade, a utilização de VPNs (ferramentas que mascaram a localização do usuário) e a migração para plataformas menores, com checagem menos rigorosa.

“As redes sociais estão lidando com a restrição de formas diferentes. O Snapchat, pelo que eu escuto dos adolescentes, é mais difícil de burlar, porque tem reconhecimento facial, então muitos amigos do meu filho pararam de usar”, conta Carla.

“Em plataformas que não utilizam esse reconhecimento facial, é mais fácil criar contas”, afirma. “Mas, em geral, parece que o monitoramento está acontecendo. Recentemente, em uma viagem da turma da escola, soube que tentaram entrar no TikTok, mas a conta foi bloqueada.”

Caetano diz que uma parte de seus amigos ainda fica muito tempo nas redes sociais, e “é como se a proibição não tivesse funcionado”. “Mas também há alguns que passaram a usar menos”, o que ele vê com bons olhos.

Proibição não é 100% efetiva, mas jovens passaram a usar menos (Foto: Pixabay)

“As crianças e os adolescentes estão desenvolvendo uma identidade própria, sem ficar nas redes sociais tentando ser como outras pessoas”, afirma.

Ele aponta um porém. “[O veto] reduz a comunicação online, a forma como interagimos, e, se houver crianças e adolescentes que se sentiam mais confortáveis nas redes sociais, e não podem usá-las, isso pode afetá-los.”

Manoela Pace, que se mudou do Brasil para a Austrália há mais de 20 anos, conta que sua filha de 13 anos, Juana, está sentindo bastante as mudanças —a família mora em Sydney. “Quando houve o banimento, explicamos para ela que era uma determinação do governo, que não havia discussão. Foi difícil, porque ela já tinha redes sociais, principalmente TikTok e Snapchat. Até hoje ela reclama bastante.”

Juana diz ter “uma opinião meio dividida” sobre o banimento. “Obviamente eu entendo por que estão fazendo isso, mas eu não acho que esse seja o jeito certo”, afirma à Folha. “Em vez de tirarem as crianças e os adolescentes das redes sociais, deveriam tirar os predadores, o pessoal estranho da internet.”

“A proibição está realmente atrapalhando a minha vida, porque todos os meus amigos ainda têm [redes sociais], sou uma das únicas que não têm. Quando estão falando sobre algo da internet que não entendo, me sinto excluída”, reclama. “Nunca respondem às minhas mensagens de texto, e isso é muito difícil…”

Já Manoela, embora compreenda a insatisfação da filha, considera a proibição positiva, por achar que, na infância e na adolescência, eles não têm maturidade para lidar com os vários riscos das redes sociais. Ela menciona um deles: “Sempre me preocupei com o fato de a Juana, como muitas meninas da idade dela, ficar ligada demais em autoimagem, consumindo vídeos de maquiagem.”

A discussão sobre restrições das redes sociais na infância e na adolescência ganha espaço internacionalmente, inclusive no Brasil. Na Indonésia, por exemplo, o banimento já entrou em vigor, em março; na Malásia entrará em junho, e, na Grécia, em janeiro de 2027. As restrições também já começaram na Dinamarca, e os planos de proibição estão avançados na França e no Reino Unido, entre outros.

No Brasil, o ECA Digital, em vigor desde março, determina que, não somente as redes sociais, mas todos os produtos e serviços de tecnologia que atingem crianças e adolescentes utilizem configurações que evitem o uso compulsivo, que ofereçam ferramentas de controle parental (para que os pais supervisionem o uso dos filhos) e adotem mecanismos de verificação de idade para conteúdos impróprios. Apesar dessas regras, novos projetos de lei propõem o banimento das redes sociais a menores de 16 anos.

Na Austrália, após quase meio ano vivendo essa experiência (o banimento entrou em vigor 10 de dezembro de 2025), Carla conta que ainda há questionamentos sobre o quão realista é a restrição. Mas, diante disso, a brasileira diz sempre se lembrar de uma analogia feita pelo primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese: “É como a proibição do consumo de álcool para menores de 18 anos. Não é 100% efetiva, mas reduz muito o consumo e abre a oportunidade de haver mais conversas familiares sobre esse tema, sobre a importância da restrição.”