Quinta-feira, 23 de Julho de 2026
PROJETO SOCIAL

Professora transforma a própria história em projeto para acolher crianças vítimas de violência em Quirinópolis

Após enfrentar abandono e abuso na infância, professora promove encontros, passeios e apoio às famílias para ajudar crianças a recuperarem a autoestima e voltarem a viver a infância

Por - Goiânia,GO
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O que começou como uma forma de ressignificar a própria dor se transformou em uma rede de acolhimento para crianças vítimas de violência em Quirinópolis, na região Sudoeste de Goiás. Professora há 22 anos, Cláudia Alessandra, conhecida na cidade como Tia Claudinha, dedica parte da rotina a visitar famílias, encaminhar vítimas para atendimento e organizar momentos de lazer para menores que passaram por situações de abuso e maus-tratos por meio do projeto Sintonia com Quirinópolis.

A iniciativa nasceu da própria história da educadora. Abandonada pela mãe biológica quando tinha apenas 20 dias de vida e vítima de abuso sexual aos oito anos, Cláudia afirma que decidiu transformar as experiências traumáticas em um propósito de vida. “Eu não quero ver nenhuma outra criança passar pelo que eu passei. Se eu puder fazer com que pelo menos uma delas sinta que não está sozinha, já vale a pena. Quero que cada criança se sinta amada, vista e importante. Que elas recuperem a esperança e saibam que existe um futuro cheio de carinho, longe da dor que viveram”, diz.

Acolhimento

Os casos chegam até Cláudia por indicação de moradores, da escola onde trabalha ou por meio das redes sociais, onde sua história ficou conhecida. Ao receber uma informação, ela procura a família, conversa com os responsáveis e busca conquistar a confiança da criança antes de qualquer outro passo.

“Eu ouço com calma, não pressiono ninguém. Estou ali para ajudar, sem julgar o que aconteceu. Ouvir, abraçar, deixar ela ser criança novamente. Depois, levo carinho, lanches, brinquedos e tento conectar a família com os serviços de que elas precisam, como ajuda profissional, sempre com muito respeito”, explica.

Após o primeiro contato, ela acompanha a família e, quando necessário, auxilia no encaminhamento ao Conselho Tutelar e à rede pública de atendimento psicológico e médico. Segundo a professora, o foco não é fazer a criança reviver o trauma, mas oferecer um ambiente seguro.

“Eu não faço perguntas difíceis e nem peço que contem o que aconteceu. Deixo que falem apenas se quiserem. O foco é mostrar que elas são muito maiores do que a dor que viveram”, afirma.

Brincadeiras para devolver a infância

Além do acompanhamento às famílias, Cláudia organiza encontros com brincadeiras, música, lanches, presentes e passeios em espaços públicos, como o bosque municipal de Quirinópolis, escolhido por ter parquinho infantil.

Antes de cada atividade, ela solicita autorização da prefeitura para utilizar o espaço. Parte dos alimentos, brinquedos e lembranças é comprada com recursos próprios. Para a professora, brincar faz parte do processo de recuperação emocional.

“Muitas dessas crianças esqueceram como é sorrir sem medo. Quando brincam, elas voltam a confiar, esquecem a tristeza por um momento e recuperam um pedaço da infância que quase lhes foi tirada”, conta.

Atualmente, os encontros acontecem uma vez por mês, já que o projeto ainda depende de doações e apoio da comunidade. O trabalho conta com a colaboração de comerciantes, moradores e voluntários da cidade. Empresas locais ajudam com alimentos e lanches, enquanto parceiros contribuem com presentes e atividades recreativas.

Os filhos de Cláudia, Karine e Matheus, além da nora Maria, também participam da organização dos encontros. Apesar da ajuda, a professora afirma que grande parte das despesas ainda sai do próprio bolso. “Recebo algumas doações, mas ainda não temos uma fonte fixa de recursos. Cada contribuição faz diferença para que possamos continuar”, explica.

História de dor virou propósito

Cláudia conta que foi criada por uma família que a acolheu após ser entregue pela mãe biológica ainda bebê. Ela nunca conheceu o pai e diz que encontrou na mãe de criação a principal referência de amor e proteção.

Aos 8 anos, porém, sofreu abuso cometido por um tio. Segundo ela, quando contou o que havia acontecido, não os familiares não acreditaram. Então, ela carregou por muitos anos o sentimento de culpa. Foi somente na vida adulta que decidiu transformar essa experiência em um projeto de acolhimento.

“Quando entendi que sobrevivi para segurar a mão de quem ainda está lutando, percebi que minha história podia dar força para outras pessoas”, afirma.

Hoje, o sonho da professora é ampliar a iniciativa e criar um espaço permanente para receber crianças vítimas de violência. “Quero que elas tenham um lugar seguro todos os dias, onde possam crescer felizes. Esse projeto não é meu, é delas. Enquanto eu puder, vou fazer tudo para que nenhuma criança se sinta sozinha”, conclui.

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