Nos EUA, Lula volta a chamar Trump de imperador e critica ataques à soberania
Presidente diz que Lei da Reciprocidade ainda pode ser aplicada se diálogo com Washington não solucionar tarifaço
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NOVA YORK (FOLHAPRESS) – O presidente Lula (PT) voltou a chamar seu homólogo americano, Donald Trump, de “imperador” e a afirmar que, caso não haja avanço na negociação das tarifas impostas por Washington, terá de aplicar a Lei da Reciprocidade e sobretaxar os americanos.
O brasileiro concedeu entrevista nesta segunda-feira (21) ao programa de Christiane Amanpour, da rede CNN, como faz com frequência quando viaja a Nova York para participar da Assembleia-Geral da ONU. Ele também criticou os ataques americanos à soberania nacional.
Lula afirmou que Trump “tem o direito de governar os Estados Unidos, mas não direito de governar outros países”. “[Trump] não tem direito de impor suas vontades, tem que ter vontade de negociar. Quero respeito e ser respeitado”, disse.
Afirmou, ainda, que pediu ao republicano que não interfira nos processos brasileiros. “Eu já disse: é muito importante que vocês não interfiram nas eleições internas do Brasil, assim como eu não interfiro nas eleições americanas.”
Questionado sobre qual foi a resposta de Trump, Lula afirmou que o americano “já disse a várias pessoas que não vai interferir nas eleições brasileiras”. “E é bom que faça isso”, afirmou, mencionando ainda sua preocupação com a proximidade entre o secretário de Estado, Marco Rubio, e a família Bolsonaro.
O assunto da soberania também surgiu quando Lula foi questionado sobre a situação na Venezuela, hoje tutelada pelo governo Trump após a captura do ditador Nicolás Maduro em operação americana.
“É grave o que os EUA fizeram à Venezuela. A soberania do país acabou. Isso não é bom para os dois países nem para a democracia. Desse modo os EUA são os chefes da Delcy [Rodríguez]”, afirmou ele, que por anos foi próximo ao chavismo, ainda que no último pleito, de 2024, não tenha reconhecido a vitória de Maduro.
A líder interina venezuelana, que era vice de Maduro, está em Nova York e se reúne com Trump na terça-feira (22). Com a ajuda do republicano, Caracas tem sido reabilitada em vários fóruns internacionais, da ONU aos debates sobre energia global. Não houve pedido de reunião de Delcy com Lula, segundo a reportagem apurou.
Sobre as tarifas impostas pelos EUA, Lula disse que, em vez de “chorar o leite derramado”, buscará novos parceiros comerciais, mas ressaltou suas críticas a Trump. “Ele age como um imperador. É um jeito de governar que eu não concordo. É um jeito de que ‘eu sou o mais forte, eu posso fazer tudo e os outros têm que obedecer'”, disse.
“Enquanto estamos na mesa de negociação, eu não tenho que aplicar a Lei de Reciprocidade, tenho que ser mais paciente, mas é importante para você saber que, se não tiver um acordo, teremos que aplicá-la.”
O Brasil voltou a ser alvo de tarifas adicionais dos EUA em julho deste ano. O governo americano impôs uma tarifa de 25% no âmbito de uma investigação sobre práticas brasileiras consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA e outra de 12,5% pela ausência, segundo Washington, de uma proibição efetiva à importação de produtos feitos com trabalho forçado. Com isso, determinados produtos brasileiros passaram a estar sujeitos a sobretaxas adicionais que somam 37,5%.
“Eu acho que as tarifas são baseadas em mentiras, o Brasil tem um déficit com os EUA”, afirmou. De fato, no início do chamado tarifaço, Washington argumentou que a balança comercial seria mais favorável ao Brasil do que aos EUA, o que era incorreto.
A âncora da CNN também perguntou ao presidente sobre a iniciativa que Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia lançaram recentemente, o P4M —Parceiros pelo Multilateralismo—, um grupo que pretende ampliar alianças internacionais na área, em um momento no qual não apenas o comércio internacional caminha na direção contrária, mas também o sistema ONU, baseado neste princípio, está em crise.
Lula disse que o multilateralismo é fundamental para manter o mundo em harmonia. “O presidente Trump tem uma forte tendencia pelo individualismo, e isso é muito perigoso. O comércio tem de ser balanceado para não haver grandes distorções e um pais ser mais favorecido do que outros.”
Às vésperas da eleição, Lula abordou na entrevista muitos dos temas que devem aparecer em seu discurso no púlpito da ONU nesta terça-feira —o Brasil é tradicionalmente o primeiro país a discursar. Também adotou tom eleitoreiro, em aceno à sua base diante de uma disputa páreo a páreo contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Ele disse que, ainda que preocupado, sabe que vencerá a eleição —as pesquisas não apontam nenhuma margem de vitória confortável. “Ninguém fez mais do que nós em políticas sociais. O que está em disputa no Brasil hoje não são partidos, mas entre ter democracia ou barbarismo. Conservar a natureza ou desmatar. Incluir as pessoas ou abandonar os pobres. Apoiar a cultura ou destruí-la.”
Lula também criticou o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. “Ele é um dos traidores da nossa pátria. Ele fugiu para os EUA contra o Brasil”, disse, em referência ao lobby exercido pelo filho do ex-presidente.
Sobre “Dark Horse”, o filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, Lula disse que “em breve” será esclarecido “o mistério do filme e como isso foi financiado”. Segundo mensagens divulgadas pela Polícia Federal, a produção da cinebiografia recebeu verba de Daniel Vorcaro, preso em decorrência dos escândalos do Banco Master.
Ainda nesta segunda-feira, Lula recebeu o prefeito de Nova York, o socialista democrata Zohran Mamdani, por quem foi chamado de “inspiração” e a quem deu uma camiseta do Corinthians, e o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, aliado com quem discutiu infraestrutura e comércio agrícola.
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