INVESTIGAÇÃO

Misantropia: PF descobre de onde saiu alerta falso da Defesa Civil para celulares

Documento enviado à Polícia Federal aponta que foram identificados ao menos dez alarmes indevidos

PF descobre de onde saiu alerta falso da Defesa Civil com palavra 'misantropia' para celulares do Brasil inteiro (Foto: Mais Goiás)
PF descobre de onde saiu alerta falso da Defesa Civil com palavra 'misantropia' para celulares do Brasil inteiro (Foto: Mais Goiás)

(O Globo) Duas contas vinculadas à Defesa Civil do Pará foram usadas para disparar dez alertas públicos falsos entre a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado. As mensagens foram classificadas como de nível extremo, o grau mais alto do sistema, e chegaram ou foram direcionadas a seis capitais, três estados e o Distrito Federal.

A informação consta de um documento do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional enviado à Polícia Federal e obtido pelo Globo. Segundo o material, houve “acesso indevido” à Interface de Divulgação de Alertas Públicos, a IDAP, plataforma usada para disseminar avisos oficiais à população em situações de risco. Os envios dos alertas ocorreram sem solicitação ou validação de autoridades reconhecidas de proteção e defesa civil, o que indica que se tratou de um ataque cibernético, segundo investigadores que acompanham o caso.

Os primeiros alertas foram registrados às 23h41 e 23h45 do dia 19 de junho. Após esses envios, a equipe técnica do ministério da Integração bloqueou a conta usada e vinculada a um agente de proteção e defesa civil do Pará. A medida, porém, não impediu uma nova sequência de disparos. Na madrugada do dia seguinte, entre 1h20 e 1h23, outra credencial da mesma instituição foi utilizada para novos alarmes.

“Um aspecto que agrava a ocorrência é que os dois usuários identificados nos registros possuem perfil estadual vinculado ao Estado do Pará, mas os alertas suspeitos foram direcionados para localidades e unidades federativas fora de sua área de autorização. Assim, além do possível uso indevido de credenciais, há indício de que o agente conseguiu operar a plataforma sem a devida restrição territorial, emitindo ou tentando emitir alertas para áreas nas quais os usuários não deveriam possuir permissão de envio”, diz documento do Ministério da Integração.

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Ao todo, foram identificados dez envios indevidos: nove pelo DCA, o Defesa Civil Alerta, sistema que envia alertas pelas antenas de telefonia a todos os celulares de uma área, e um por mensagem de texto. Todos foram cadastrados no nível “extremo”, classificação reservada a situações de maior gravidade, em que a população deve adotar medidas imediatas de proteção. No caso investigado, no entanto, as mensagens não correspondiam a nenhum desastre real nem seguiam o padrão técnico da Defesa Civil.

Os alertas falsos foram registrados em categorias como alagamentos, tornados e deslizamentos. As mensagens foram direcionadas a São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba e Rio Branco, além dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul e do Distrito Federal.

O conteúdo dos alertas também chamou a atenção dos técnicos. Em Belo Horizonte, o único comunicado enviado por mensagem de texto mencionava um suposto “ataque alienígena”. Nos demais disparos, apareciam expressões sem relação com ocorrências de defesa civil, como “misantropia”, “misantropo” e variações escritas com número no lugar de letra. Misantropia é aversão, desconfiança ou desprezo pelo convívio com pessoas.

“As mensagens registradas não apresentam conteúdo técnico, institucional ou compatível com os protocolos de Proteção e Defesa Civil. Ao contrário, contêm expressões ofensivas, incoerentes e sem relação com eventos reais, incluindo termos como ‘misantropia’, ‘misantropo e menção a ‘ATAQUE ALIENÍGENA’”, afirma o documento do Ministério da Integração.

Depois dos primeiros registros dos alertas falsos, a equipe responsável pela plataforma bloqueou as permissões usadas nos disparos e restringiu termos considerados indevidos no conteúdo das mensagens. O caso também foi comunicado à Diretoria de Tecnologia da Informação do ministério, que passou a discutir novas medidas de contenção. A Polícia Federal foi acionada e abriu uma investigação preliminar para apurar os fatos.