Antes do WhatsApp, sinos avisavam quando padre estava atrasado na antiga capital de Goiás; conheça história
Na antiga capital goiana, um sineiro criou toques para anunciar atrasos, desentendimentos e mortes; tradição atravessou gerações
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Benedito tinha outra habilidade que chamava a atenção dos moradores. Quando se desentendia com o padre, conseguia demonstrar sua insatisfação sem dizer uma palavra: anunciava a missa com um toque triste, arrastando o badalo, peça metálica que produz o som, pela parte interna do sino. Sua maneira de tocar era tão característica que as pessoas reconheciam quando ele estava na torre, mesmo sem enxergá-lo.
As histórias foram recuperadas por Clovis Carvalho Britto, da Universidade de Brasília (UnB), e Rafael Lino Rosa, pesquisador e sineiro da Cidade de Goiás, em um estudo acadêmico publicado em 2020. A pesquisa mostra que os sons faziam parte da rotina dos moradores e carregavam significados aprendidos ao longo da vida. Às vésperas do Dia de Finados, celebrado na próxima segunda-feira (2), essa tradição revela como uma cidade inteira podia receber notícias sem telefone, rádio ou internet.
O homem que fazia os sinos falar

Nascido em 1891, Benedito era filho de uma mulher que havia sido escravizada e aprendeu ainda criança a tocar os sinos. O conhecimento adquirido na infância se transformou em um ofício que exerceu por mais de seis décadas, principalmente na Igreja da Boa Morte. Com o passar dos anos, desenvolveu um estilo próprio, capaz de transmitir mensagens e expressar sentimentos por meio das badaladas.
O “escorrega-mingau” não era a única curiosidade do repertório dos sineiros da antiga capital. A pesquisa acadêmica também registra nomes como “Vira Mingau”, “Vaga-Lume Cai, Cai” e “Moacir”, associados a diferentes maneiras de executar os toques. Cada sequência exigia habilidade para controlar o ritmo, a força e os intervalos entre as batidas, o que ajuda a explicar por que nem todos conseguiam reproduzir os mesmos sons.
A história de Benedito também revela a participação de trabalhadores negros na formação das tradições religiosas brasileiras. Segundo reportagem científica publicada pela revista Pesquisa FAPESP, homens escravizados atuavam como sineiros em cidades do período colonial e incorporavam ritmos de origem africana aos sons das igrejas. Essa influência ajudou a formar maneiras diferentes de tocar, que variavam conforme a comunidade e a experiência de cada trabalhador. Revista Pesquisa Fapesp.
O sino também revelava quem havia morrido

Na tradição da Cidade de Goiás, nem todas as mortes eram anunciadas da mesma maneira. Quando morria um homem, o sino maior começava a tocar; no caso de uma mulher, os menores tinham prioridade. Para as crianças, chamadas de “anjinhos” no costume católico, eram utilizados apenas os sinos pequenos, em uma sequência diferente daquela destinada aos adultos.
O significado não dependia apenas do volume das badaladas, mas também da ordem e do ritmo dos sons. Quem conhecia os códigos conseguia identificar o tipo de acontecimento anunciado, mesmo sem receber a notícia diretamente. Essa forma de comunicação tinha importância em uma época na qual as informações circulavam principalmente pelas conversas entre moradores, pelas cerimônias religiosas e pelos avisos feitos em locais públicos.
A historiadora Ana Lúcia de Abreu Gomes, professora da Universidade de Brasília, comparou os sinos ao rádio ao explicar sua antiga função informativa à revista Pesquisa FAPESP. Os sons podiam anunciar missas, festas, funerais e até situações de perigo, como incêndios, dependendo da tradição de cada localidade. Na Cidade de Goiás, a ligação entre as badaladas e os falecimentos também aparece na memória literária de Cora Coralina, que registrou a presença dos sinos nas despedidas dos moradores. Revista Pesquisa FAPESP
Onde fica a igreja que guardou essa história?

A Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte fica na Rua Luiz do Couto, no Centro Histórico da Cidade de Goiás, em frente à Praça do Coreto. O município, conhecido também como Goiás ou antiga Vila Boa, fica no interior do estado, a aproximadamente 140 quilômetros de Goiânia. O templo foi concluído em 1779 pela Irmandade dos Homens Pardos e integra o conjunto histórico reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 2001. Cidade de Goiás+1
A construção tem uma história que vai além dos sinos. Durante parte dos séculos XIX e XX, funcionou como catedral da cidade, após problemas estruturais na antiga matriz de Sant’Ana. Em 1920, um incêndio danificou o telhado e elementos internos, posteriormente reconstruídos, e o edifício passou a abrigar o Museu de Arte Sacra da Boa Morte no fim da década de 1960. museusibramgoias.museus.gov.br
O museu reúne mais de 900 peças, segundo o cadastro oficial do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), incluindo imagens religiosas, objetos utilizados nas missas, prataria e obras do escultor goiano Veiga Valle. O prédio também é um dos pontos associados à Procissão do Fogaréu, realizada durante a Semana Santa, quando homens encapuzados percorrem as ruas históricas com tochas acesas. A celebração atrai milhares de visitantes e mantém a antiga capital entre os destinos de turismo religioso de Goiás. Museus Brasil+1
Quando os sinos se calaram, moradores sentiram falta

A importância das badaladas ficou evidente em 2017, quando os sinos daIgreja de Nossa Senhora do Rosário dos pretos,também na Cidade de Goiás, deixaram de anunciar as horas e os intervalos de 15 minutos. A interrupção ocorreu em meio a dificuldades de manutenção e de pessoal, conforme registros reunidos pelos pesquisadores Britto e Rosa. O silêncio provocou reclamações entre moradores acostumados a ouvir os sons durante o dia, e os toques voltaram em 2019.
O episódio ajuda a explicar por que preservar uma igreja não significa apenas conservar suas paredes, imagens e objetos antigos. O conhecimento dos sineiros também faz parte dessa história, pois cada toque precisa ser aprendido e executado de acordo com a ocasião. Sem pessoas que conheçam os códigos, os sinos podem continuar nas torres, mas parte das mensagens deixa de ser compreendida. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)biográfica
Com a chegada dos celulares, dos relógios digitais e dos sistemas eletrônicos, a função dos sinos mudou em diferentes cidades brasileiras. Alguns toques permanecem associados às celebrações religiosas, enquanto outros sobrevivem principalmente em pesquisas, documentos e lembranças dos moradores. Na Cidade de Goiás, a história de Benedito mostra que, antes de alguém escrever uma mensagem avisando que a missa iria atrasar, já existia um homem capaz de dar a notícia com algumas badaladas.