Listas de empresas ‘que apoiam o PT’ circulam na internet em Goiás com incentivo a boicote
MPT-GO já recebeu 57 denúncias de assédio eleitoral relacionadas às eleições de 2026
Ir direto pra matéria
Postagens que incentivam empresários a não contratarem pessoas que votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ameaças de demissão de trabalhadores por posicionamento político, além de listas de boicote a empresas associadas à esquerda, passaram a circular nas redes sociais após o segundo turno das eleições presidenciais. Em Goiás, o Ministério Público do Trabalho (MPT-GO) recebeu 15 denúncias de assédio eleitoral após a votação, realizada no domingo (25). Antes do segundo turno, outras 42 haviam sido formalizadas.
Os números foram informados pelo MPT-GO ao Mais Goiás. Segundo o órgão, a maioria absoluta das denúncias está sob sigilo, a pedido dos próprios denunciantes. Por isso, não é possível detalhar o conteúdo das queixas, embora todas tenham sido classificadas como assédio eleitoral.
O volume de registros aumentou ao longo do ano eleitoral. Até 15 de agosto, véspera do início da campanha, o órgão havia recebido duas denúncias desse tipo. Em todo o ano de 2025, não houve registros.
A nível nacional, o MPT aponta mais de 240 registros em menos de 24 horas após o fim dos segundo turno. “A eleição acabou, mas o assédio eleitoral não”, afirmou o procurador-geral do Trabalho, Glaucio Araújo de Oliveira, em vídeo publicado nesta terça-feira (27).
Listas de empresas petistas em Goiânia
Em Goiânia, uma lista com nomes de estabelecimentos de diferentes segmentos comerciais começou a circular em grupos de mensagens e chegou a influenciadores digitais.
A influenciadora Mayra Bittar publicou uma lista desse tipo e, posteriormente, retirou o conteúdo do ar. Em vídeos nos stories, ela explicou que fez a publicação após receber pedidos de seguidores interessados em conhecer empresas associadas à esquerda.
Mayra, que não mora em Goiânia, reconheceu ter cometido um erro ao incluir o nome de uma empresa de doces da capital. Segundo ela, a informação recebida era de que uma pessoa ligada ao estabelecimento seria sócia do negócio, mas estava equivocada. A influenciadora pediu desculpas publicamente.
Ela disse ainda que decidiu retirar a lista por não ter tempo suficiente para verificar todas as informações. Como alternativa, anunciou que pretende divulgar empresas de pessoas identificadas com a direita que desejarem apresentar seus negócios.
Psicóloga gravou vídeo sobre contratação de petistas
Um dos episódios que também ganhou repercussão envolve a psicóloga Mara Suassuna, que atua na área de recursos humanos. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, ela afirma ter recebido ligações e mensagens de empresários interessados em contratar colaboradores cujo critério de seleção seria não ser petista.
Na gravação, a profissional argumenta que a contratação de funcionários deve levar em consideração o alinhamento de valores entre trabalhadores e empresas. Ela cita princípios como honestidade e respeito à vida e às relações humanas para justificar a posição.
A declaração provocou reação do Conselho Regional de Psicologia da 9ª Região (CRP-09), que publicou uma nota de repúdio à adoção de critérios político-partidários na seleção de trabalhadores.
O conselho afirmou que a discriminação no acesso ao trabalho por convicção política é vedada pela Constituição Federal, pela Convenção nº 111 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Lei nº 9.029/1995.
A nota também destaca que processos de recrutamento e seleção conduzidos por profissionais da Psicologia devem se basear em critérios técnicos relacionados às exigências do cargo, e não na orientação política ou ideológica dos candidatos.
O CRP-09 informou que adotará providências para apurar a conduta da profissional, conforme o Código de Processamento Disciplinar. Os procedimentos tramitam sob sigilo, com garantia do contraditório e da ampla defesa.
- Lula vence Flávio Bolsonaro em 41 municípios de Goiás; veja quais
- Daniel reconhece vitória de Lula e cobra governo de coalizão sem retaliações a Goiás
Boicote em Formosa
A influenciadora Lorena Gontijo também publicou um vídeo sobre uma lista semelhante à de Goiânia que circulou em Formosa, no Entorno do Distrito Federal. Ela criticou a iniciativa após descobrir que seu nome havia sido incluído em uma das relações.
Embora tenha afirmado que não está preocupada com possíveis prejuízos profissionais, Lorena classificou a situação como absurda e preocupante. Segundo ela, as marcas com as quais trabalha na cidade conhecem sua competência, e grande parte de suas parcerias atuais é com empresas nacionais, de fora de Formosa.
“Viver em uma democracia significa entender que tem pessoas que pensam diferente, defendem ideias diferentes e, ainda assim, elas merecem respeito”, afirmou.
A influenciadora disse que trabalha há anos tanto com pessoas de direita quanto de esquerda. Para ela, o posicionamento político não determina a qualidade de seu trabalho, seu profissionalismo ou sua capacidade de construir parcerias. Ela também destacou que mantém relações comerciais locais há vários anos.
Lorena considera preocupante a criação de listas com o objetivo de boicotar profissionais por suas convicções políticas. Para ela, a prática desrespeita a diversidade de opiniões em uma democracia.
Frigorífico Goiás
Durante o período eleitoral, o Ministério Público do Trabalho também acionou a Justiça em um caso envolvendo o Frigorífico Goiás e seu sócio-proprietário, Leandro Batista Nóbrega.
Em decisão de 24 de outubro, a Vara Plantonista do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região (TRT-18) concedeu tutela de urgência em uma ação civil pública ajuizada pelo MPT. O órgão alegou que o empresário havia divulgado uma viagem gratuita a Caldas Novas, com transporte, alimentação e bebidas pagos, destinada a apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no dia do segundo turno.
Segundo a ação, a iniciativa poderia afastar eleitores de suas residências durante a votação. No pedido apresentado à Justiça, o MPT sustentou que a conduta poderia configurar assédio eleitoral e comprometer o livre exercício do voto.
A Justiça determinou que o frigorífico e seu sócio-proprietário se abstivessem de realizar eventos que retirassem trabalhadores de seus domicílios eleitorais no dia do pleito. O descumprimento está sujeito a multa de R$ 100 mil por trabalhador encontrado nessa situação.
A decisão é uma tutela provisória de urgência, e não uma sentença definitiva sobre o mérito da ação civil pública. O processo ainda deve seguir seu trâmite na Justiça do Trabalho.
- ‘Ele teria matado meu esposo’: tio contém agressor de idoso após vitória de Lula em Goiânia
- Homem que agrediu idoso no Jardim Goiás estava “revoltado” com resultado das eleições, diz esposa da vítima
Como denunciar demissão por convicção política
A procuradora-chefe do MPT-GO, Milena Costa, explicou que a dispensa de um trabalhador por motivo político pode ser considerada discriminatória quando há provas da conduta.
“Essa dispensa pode ser anulada pela Justiça do Trabalho — em ação coletiva ajuizada pelo MPT ou em ações individuais ajuizadas pelos próprios trabalhadores”, afirmou.
Segundo a procuradora, com fundamento no artigo 4º da Lei nº 9.029/1995, o trabalhador pode pedir a reintegração ao emprego ou o pagamento em dobro da remuneração do período de afastamento, além de indenização por danos morais. O enquadramento depende da apuração dos fatos e das provas apresentadas em cada caso.
O MPT-GO orienta trabalhadores afetados por esse tipo de conduta a registrar denúncia pelo site prt18.mpt.mp.br. É possível solicitar sigilo da identidade ou realizar a denúncia de forma anônima.
O órgão recomenda que os denunciantes anexem elementos que possam fundamentar a investigação, como vídeos, capturas de tela de publicações, mensagens e áudios.
Leia também: