Sexta-feira, 30 de Outubro de 2026
CRIMES SEXUAIS

Ex-líder espírita usava ‘dívidas de outras vidas’ para coagir mulheres em Goiânia, diz advogada

Segundo a advogada Lívia Arcângelo, sua cliente acreditava que precisava sofrer para quitar uma dívida espiritual e que se casaria com o dirigente em outra vida

Rafael Oliveira
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Moacir Mendanha é investigado por supostos crimes sexuais contra fiéis em Goiânia (Foto: redes sociais)

O ex-presidente da Comunidade Espírita Eurípedes Barsanulfo, em Goiânia, Moacir Mendanha Castelo, de 75 anos, dizia a uma de suas vítimas que os dois eram “almas gêmeas” e que ela precisava sofrer para quitar uma “dívida de outra vida”, segundo a advogada Lívia Arcângelo, que representa a mulher. O relato se soma à investigação do Ministério Público de Goiás (MPGO), que apura suspeitas de crimes sexuais cometidos por Moacir Mendanha contra cinco frequentadoras, até o momento.

De acordo com Arcângelo, o homem contava à cliente que, em uma encarnação anterior, ela teria matado três mulheres com quem ele se relacionava, por ciúmes. Por isso, dizia que ela havia concordado em sofrer na vida atual.

“Ele também afirmava ser a reencarnação de Júlio César e prometia que os dois se casariam, teriam filhos e abririam uma casa juntos no interior de Goiás. Foi esse o ardil que ele usou contra a minha cliente”, afirmou a advogada. Segundo ela, a mulher se apaixonou pelo dirigente e passou a acreditar nas promessas.

“Ele fez com que a minha cliente se apaixonasse, daí a desculpa para não terem um relacionamento real era porque ele era casado e não podia cometer adultério, por isso conseguia as fotos delas”, explicou Lívia.

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Arcângelo disse que a cliente começou a perceber que ele se aproximava de mulheres que considerava atraentes durante atividades religiosas, como passes e correntes energéticas. Conforme o relato, ele as escolhia para atuar como médiuns e usava essa aproximação para enganá-las.

A advogada também afirma que o ex-líder divulgou fotos e vídeos íntimos da cliente depois de ser afastado da instituição. Ela diz que a mulher está aterrorizada porque ele não foi preso e teme novas retaliações após a investigação vir a público.

Fachada antiga do Centro Espírita - (Foto: divulgação/MP)
Fachada antiga do Centro Espírita – (Foto: divulgação/MP)

O MPGO informou que a apuração começou após uma notícia-crime apresentada por uma integrante da comunidade, cujo caso tramita sob sigilo. Segundo o órgão, há indícios de que o investigado usava a posição de autoridade religiosa e a fé das mulheres para submetê-las a violações sexuais. A investigação também apura a divulgação, sem consentimento, de imagens íntimas da vítima e o possível uso de cestas básicas para obter conteúdo sexual de pessoas atendidas pela instituição.

Em 27 de outubro, foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao investigado, incluindo a sede da comunidade. A Justiça determinou medidas cautelares: ele deve comparecer mensalmente em juízo e está proibido de acessar a sede e participar de atividades e eventos da entidade. O MP não informou o número total de possíveis vítimas nem o período em que os crimes teriam ocorrido.

O ex-líder foi destituído da presidência em julho, durante uma assembleia da comunidade. De acordo com o MPGO, a sede está temporariamente fechada e sob nova administração. O órgão também apurou informações de que o investigado estaria realizando atividades religiosas em Santa Helena de Goiás e planejando abrir outro centro espírita.

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