De vendedora de bombons a empresária: goiana que custeou a faculdade com doces hoje comanda instituto de ensino em saúde
Após vender doces para pagar a faculdade, Ana Claudia Camargo criou a ITH Educação e ampliou a formação de profissionais da saúde
Ir direto pra matéria
Antes de fundar uma instituição de ensino voltada à formação de profissionais da saúde, Ana Claudia Camargo precisou encontrar uma maneira de pagar a própria faculdade. Filha de uma comerciante que produzia doces e bolos para complementar a renda de casa, ela vendia bombons preparados pela mãe em feiras de Goiânia, no bairro onde morava e até dentro da faculdade de Biomedicina. Para chegar às aulas, caminhava mais de 10 km por dia. O objetivo era continuar estudando e realizar um sonho que também era dos pais: ver a filha conquistar um diploma.
Hoje, aos 47 anos, a biomédica e empresária está à frente da ITH Educação, instituição que começou com cursos livres na área da saúde e ampliou sua atuação para a pós-graduação e a graduação. Ao longo da trajetória, ela também construiu uma carreira acadêmica, atuou por cerca de 20 anos como professora universitária e concluiu doutorado em Medicina Tropical. Segundo Ana Claudia, a instituição já contribuiu para a formação de mais de 15 mil profissionais em diferentes regiões do país.
Em entrevista ao Mais Goiás, Ana Claudia relembra os desafios financeiros da juventude, a influência da mãe na decisão de empreender e as perdas familiares que marcaram sua relação com a saúde. Ela também conta como identificou uma lacuna na formação de profissionais do setor e decidiu criar uma instituição para aproximar o conhecimento acadêmico das exigências do mercado de trabalho.
“Minha primeira experiência como empreendedora não foi quando fundei a ITH, mas quando precisei encontrar uma maneira de continuar estudando”, afirma.
Bombons, longas caminhadas e o sonho da faculdade
A trajetória empreendedora de Ana Claudia começou antes de ela imaginar que comandaria uma instituição de ensino. Na época, pagar uma graduação exigia esforço e participação ativa no orçamento de casa. A mãe já produzia doces e bolos para complementar a renda familiar, e a venda de bombons se tornou uma alternativa para custear os estudos da filha.
A rotina envolvia caminhar mais de dez quilômetros por dia e aproveitar diferentes espaços para vender os produtos. As feiras de Goiânia, o próprio bairro e a faculdade estavam entre os locais onde ela oferecia os doces. Não havia um planejamento empresarial estruturado, mas uma necessidade imediata: conseguir dinheiro para pagar a mensalidade e permanecer na universidade.

“Não existia um plano de negócios, mas a necessidade de encontrar uma solução”, resume.
As vendas nem sempre eram suficientes, e a incerteza sobre como pagaria as próximas mensalidades acompanhava a rotina. Ainda assim, Ana Claudia afirma que concluir a graduação era uma prioridade. Para ela, estudar representava a possibilidade de mudar de realidade e também uma maneira de honrar o esforço dos pais.
“Eu vendia bombons para ter acesso à educação. Anos depois, construiria uma empresa justamente para oferecer educação a outras pessoas”, destaca.
A experiência também reforçou o vínculo com a mãe, que trabalhava como comerciante e foi uma das principais referências na formação da empresária. Desde cedo, Ana Claudia observava como ela buscava alternativas para manter a renda familiar e enfrentar as dificuldades.
Segundo a biomédica, a convivência com a mãe ensinou que empreender envolve iniciativa, capacidade de resolver problemas e responsabilidade pelas próprias decisões. Mesmo sem ter acompanhado a criação da ITH Educação, a mãe permanece presente na forma como ela enxerga o trabalho e conduz os negócios.
“Minha mãe não pôde acompanhar a construção da ITH, mas existe muito dela na empresária que me tornei”, afirma.
Perdas familiares influenciaram a escolha pela saúde
A decisão de cursar Biomedicina também está ligada a experiências dolorosas da vida pessoal. Ana Claudia perdeu o pai e a mãe ainda jovem. Aos 27 anos, já havia perdido ambos. O pai foi vítima do acidente radiológico com o Césio-137, ocorrido em Goiânia, enquanto a mãe enfrentava uma doença autoimune crônica. De acordo com a empresária, os dois tiveram diagnósticos tardios.
As perdas influenciaram a maneira como ela passou a enxergar a assistência em saúde e o papel dos profissionais no atendimento aos pacientes. A experiência familiar se tornou uma das motivações para seguir na área e, posteriormente, trabalhar com formação profissional.
“Fiz Biomedicina para ressignificar minha história e ensinar aos profissionais de saúde aquilo que faltava, para que outras famílias não passassem pelo que eu vivi”, explica.
Para Ana Claudia, a atuação de um profissional da saúde vai além do conhecimento técnico. As decisões tomadas durante um atendimento podem afetar diretamente pacientes e familiares, especialmente em situações de vulnerabilidade. Essa percepção passou a integrar sua visão sobre a formação de quem trabalha no setor.
“Por trás de um profissional bem preparado existem pacientes, famílias e histórias que podem ser profundamente impactadas por suas decisões”, diz.
Depois de concluir a graduação, ela construiu uma carreira acadêmica e atuou por cerca de 20 anos na docência universitária. Foi nesse período que começou a perceber uma dificuldade recorrente entre os alunos: muitos concluíam a formação inicial, mas ainda procuravam cursos que os ajudassem a desenvolver habilidades mais próximas das exigências da prática profissional.
A observação despertou a ideia de criar uma instituição capaz de aproximar o ensino da realidade dos serviços de saúde. Inicialmente, Ana Claudia indicava outras instituições aos estudantes que buscavam especializações e capacitações. Com o tempo, passou a considerar a possibilidade de desenvolver uma estrutura própria.
“Não abandonei minha formação em saúde para me tornar empresária. Encontrei na educação uma maneira de ampliar meu impacto como profissional da saúde”, afirma.
De cursos de fim de semana a uma instituição de ensino
A ideia começou a ser testada em 2013 e 2014, com cursos livres realizados aos fins de semana. Em 2015, Ana Claudia decidiu transformar a iniciativa em um negócio. O Instituto Health começou em Goiânia, com cursos de curta duração oferecidos em espaços alugados, e depois ampliou a atuação para especializações.

Com o crescimento da operação, a instituição passou a ser conhecida como ITH Pós-graduação e, posteriormente, Faculdade ITH. Em 2026, a marca adota o nome ITH Educação, que representa a atual fase do negócio. A proposta, segundo a empresária, permanece centrada na formação de profissionais da saúde que precisam combinar conhecimento científico, habilidades práticas e segurança para tomar decisões.
O começo, porém, esteve longe de ser simples. Sem capital externo, Ana Claudia utilizou o próprio salário de professora para colocar o projeto em funcionamento. Ela chegou a convidar dois colegas para se tornarem sócios, mas ambos recusaram a proposta por considerarem o empreendimento arriscado.

A empresária conta que precisou assumir diferentes tarefas, desde a conquista de alunos e a contratação de professores até a organização dos cursos e o controle financeiro. Ao mesmo tempo em que construía a instituição, aprendia a administrar um negócio. A formação empreendedora também incluiu conhecimentos adquiridos no Sebrae.
“Empreender exige coragem para começar, mas ainda mais disciplina para continuar”, avalia.
A experiência como professora influenciou a maneira como a ITH Educação estruturou os cursos. Para Ana Claudia, dominar uma técnica não garante, por si só, que um profissional consiga administrar um consultório, liderar uma equipe ou desenvolver uma carreira sustentável. Por isso, a instituição passou a incorporar temas como empreendedorismo, marketing, gestão e liderança à formação na área da saúde.
A proposta também se relaciona à metodologia de aprendizagem ITH 4.0, que busca ampliar a preparação dos estudantes para as demandas do mercado. A ideia é combinar a formação técnica com competências necessárias à gestão e à adaptação a diferentes contextos profissionais.
“Na saúde, não basta acumular certificados, é preciso desenvolver conhecimento, habilidades e segurança para tomar decisões”, afirma.
Mais de 15 mil profissionais formados
Em pouco mais de uma década, a ITH Educação passou de cursos de curta duração em espaços alugados para uma operação de ensino que, segundo Ana Claudia, já ultrapassou a marca de 15 mil profissionais formados. Entre os momentos importantes da trajetória, ela cita a realização das primeiras turmas, a chegada de alunos de outras cidades, a expansão para o ensino digital e o credenciamento como faculdade.
O crescimento também exigiu mudanças na gestão. Com a ampliação da instituição, a empresária precisou trazer gestores experientes e aprender a dividir responsabilidades. Ela considera essa transição um dos sinais de amadurecimento do negócio, que deixou de depender exclusivamente de sua atuação direta.

Em 2023, Ana Claudia foi selecionada para o programa Winning Women Brazil, da EY, voltado a empreendedoras. Ela também participou de experiências de mentoria e teve contato com empresários e lideranças do mercado, oportunidades que, segundo ela, ampliaram sua visão sobre gestão e expansão.
A presença da trajetória da ITH em veículos de comunicação também marcou a empresária. Para ela, a visibilidade representa o reconhecimento de uma iniciativa criada em Goiânia sem investidores externos, sustentada inicialmente pelo trabalho e pelo reinvestimento dos próprios resultados.
Apesar dos números, Ana Claudia afirma que o impacto da instituição não se resume à quantidade de alunos. Acompanhar ex-estudantes assumindo posições de liderança, abrindo negócios e conquistando espaço no setor é uma das partes mais significativas do trabalho.
“Crescer é quando o sonho deixa de depender apenas de você e passa a ser construído por pessoas que acreditam nele tanto quanto você”, afirma.
Novos caminhos para a ITH Educação
Depois de superar a meta de formar 10 mil alunos, estabelecida para 2025, a instituição entrou em uma nova fase. Em 2026, segundo Ana Claudia, a ITH avançou em Brasília e integrou a operação de graduação à UNIUBE. A mudança permitiu concentrar esforços na pós-graduação em saúde, área que permanece no centro da atuação da empresa.

Para 2027, a empresária prevê novas turmas em São Paulo e planeja ampliar a oferta de pós-graduação voltada aos médicos. A expansão, segundo ela, precisa ocorrer sem comprometer a qualidade da formação nem a proximidade com as necessidades dos profissionais.
O objetivo é crescer mantendo o foco na área em que a instituição construiu sua experiência. Para Ana Claudia, reconhecer os próprios limites e concentrar esforços no que a empresa faz melhor também faz parte do amadurecimento de um negócio.
A trajetória, no entanto, não apagou as dificuldades enfrentadas no início. Ao lembrar da jovem que caminhava longas distâncias para estudar e vendia bombons para pagar a mensalidade, a empresária afirma que não imaginava a dimensão que sua iniciativa alcançaria. Ela também não descreve o caminho como uma sequência linear de conquistas: as perdas familiares, as decisões difíceis e a necessidade de recomeçar fizeram parte do percurso.
“Eu não imaginava que um dia estaria à frente de uma instituição de ensino de nível nacional”, diz.
Conselho para quem deseja empreender
Ao falar com mulheres que desejam abrir um negócio, especialmente aquelas que enfrentam dificuldades financeiras, Ana Claudia faz uma ressalva: a falta de recursos não deve ser romantizada. Empreender sem dinheiro envolve riscos, sacrifícios e uma rotina que pode acumular responsabilidades profissionais, familiares e domésticas.
Ela também aponta o preconceito e a desconfiança que mulheres podem enfrentar ao assumir posições de liderança. Por isso, recomenda começar com o conhecimento disponível, identificar um problema real que possa ser resolvido e aprender a lidar com vendas, números e gestão.
A empresária não defende esperar por condições perfeitas, mas ressalta que dar o primeiro passo exige planejamento e disposição para aprender. A experiência de quem começou vendendo doces para conseguir estudar tornou-se, para ela, uma referência sobre como pequenas iniciativas podem abrir caminhos inesperados.
“Não tenham vergonha de começar pequeno. Eu comecei vendendo bombons para pagar a faculdade”, afirma.
Ao olhar para a própria trajetória, Ana Claudia diz que gostaria de abraçar a jovem que enfrentava a incerteza de conseguir pagar a próxima mensalidade. Não prometeria uma vida sem dificuldades, mas diria que o esforço abriria possibilidades que, naquele momento, pareciam distantes.
“A gente não precisa enxergar todo o caminho para ter coragem de dar o primeiro passo”, conclui.
LEIA TAMBÉM:
- Médica de Goiânia vence câncer de mama e transforma experiência em incentivo à prevenção: ‘Aceitar cuidado torna tudo mais leve’
- Após câncer na infância, mulher decidiu amputar perna aos 14 anos: ‘Me redescobri’
- Pecuarista goiana entra na lista das 100 Mulheres Poderosas do Agro da Forbes; saiba quem é