Dono do Quintal do Jajá faz 75 anos e declara amor por Goiânia: ‘devo muito a essa cidade’
Empresário chegou à capital em 1971 e acompanhou a transformação da vida noturna
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Antes de Goiânia se consolidar como uma das capitais do sertanejo, a cidade já tinha uma vida boêmia movimentada, com bares que reuniam músicos, jornalistas, estudantes e personagens da noite. O empresário Jair Onofre do Prado, conhecido como Jajá, acompanhou boa parte dessa transformação. Aos 75 anos, completados nesta quinta-feira (29), ele ajuda a contar as histórias, os lugares e os hábitos de uma capital que mudou de estilos musicais, endereços e gerações.
Em entrevista ao Mais Goiás, o proprietário do Quintal do Jajá, no Centro de Goiânia, e do Jajá Drinks, no Mercado Popular da 74, relembrou como era a vida noturna da capital entre as décadas de 1970 e 1980. Natural de Joviânia, no interior de Goiás, Jair chegou a Goiânia em 1971 e desde então mora no Centro, região onde construiu sua trajetória pessoal e profissional.
Na juventude, alguns dos pontos de encontro mais conhecidos eram o Chopp Bandeirantes, no Setor Aeroporto, e o Zero Bar, na Praça Universitária. Segundo Jajá, o segundo era especialmente frequentado por jovens e tocava Música Popular Brasileira (MPB) com apresentações de voz e violão.
Entre os nomes que circulavam pelo local estavam o cartunista Jorge Braga, o músico Fernando Perillo e o artista Bororó, ligado ao contrabaixo. O jornalista esportivo Evandro Gomes também fazia parte do grupo de conhecidos que frequentavam os ambientes da época.
“Naquela época, tocava muito MPB. Às vezes tinha samba, e eram os artistas goianos, como o Bororó e o Fernando Perillo. A gente sempre se encontrava por lá”, recorda.

Jajá explica que a noite goianiense mudou gradualmente, acompanhando o crescimento da própria capital. Se antes os estabelecimentos eram poucos e os frequentadores acabavam se encontrando nos mesmos lugares, hoje a quantidade de opções é tão grande que, segundo ele, fica até difícil conhecer todos os bares.
“A diferença é que hoje ficou mais misturado. Tem muito sertanejo, muito samba, pop e rock. Goiânia é uma cidade da música. Quase todos os bares têm som ao vivo. Naquela época, no Zero Bar, era mais MPB, música ambiente, voz e violão. Hoje são muitas bandas, o agito é maior”, compara.
Apesar da força do sertanejo, que ajudou a projetar Goiás nacionalmente, o empresário acredita que a diversidade musical também faz parte da identidade da capital. Para ele, a MPB dominava os primeiros anos da boemia, mas a abertura de novos estabelecimentos permitiu que outros ritmos conquistassem espaço.
“Naquela época, quem comandava era a MPB. Depois, com a chegada de outros bares, entrou o sertanejo, que foi crescendo. Mas Goiânia não é só sertanejo. É do rock também, tem todos os gostos e ritmos. Hoje temos de tudo”, afirma.
Histórias de uma Goiânia que cresceu
Uma das lembranças mais curiosas de Jajá aconteceu em uma festa no antigo Oásis, onde havia apresentações de seresta. Na ocasião, o cantor Altemar Dutra se apresentava no local. Depois de aproveitar a noite com os amigos, o empresário foi surpreendido quando tentou deixar a festa: o carro havia pegado fogo por causa de um problema na bateria.
Sem conseguir resolver a situação sozinho, ele pegou um táxi para buscar um mecânico. Enquanto isso, os amigos tentaram ajudar e empurraram o veículo. Quando Jajá voltou, porém, o carro não estava mais onde havia sido deixado.
“Eu cheguei e falei: ‘Roubaram meu carro’. Fui para casa e, umas 3h ou 4h da manhã, o pessoal empurrou o carro do Oásis até aqui no Bairro Popular, na Rua 63. Nunca esqueci essa história”, conta, aos risos.
Para ele, as lembranças também mostram como Goiânia era diferente. Quando chegou à capital, a cidade tinha cerca de 200 mil habitantes, segundo sua recordação. Hoje, com a expansão urbana e o crescimento populacional, a oferta de bares, restaurantes e atrações culturais é muito maior.
“Naquela época, eram poucos bares. A gente frequentava quase todos. Hoje, para sair à noite em Goiânia, é até difícil escolher, porque tem tanta opção que a gente se perde. Goiânia era uma menina e hoje é uma mulher feita”, comenta.
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Do mercado ao Quintal do Jajá
A história do empresário com os bares começou ainda no Mercado Popular da 74. Antes de chegar ao estabelecimento que leva seu nome atualmente, ele teve o Bar Para Todos e, posteriormente, outros negócios no local, como o Jajá Drinks.
A ideia de abrir o Quintal do Jajá surgiu em uma conversa com o sócio Ricardo Coutinho, que trabalhava como gerente do banco Itaú e procurava um espaço para montar um bar. Na época, os dois começaram a visitar diferentes imóveis em Goiânia, até encontrarem um sobrado próximo a uma praça no Centro.
“Eu falei: ‘É aqui’. Desde que cheguei a Goiânia, moro no Centro. Quando vi aquele lugar, parecia uma cidade do interior. Tinha muita coisa para fazer, mas eu gostei e decidimos que seria ali”, lembra.
O estabelecimento foi inaugurado em 2018, com uma proposta voltada ao samba de raiz e à gastronomia. A recepção do público foi positiva, mas o negócio enfrentou um dos períodos mais difíceis de sua história pouco tempo depois, com a chegada da pandemia de Covid-19.

Para manter as atividades, os sócios apostaram no serviço de delivery e na preparação de almoços. Com a retomada das atividades presenciais, o Quintal voltou a receber o público e se consolidou como um ponto de encontro para quem gosta de samba na capital.
“Foi um período difícil, um trabalho danado, mas vencemos essa etapa. Hoje o Quintal do Jajá é ponto de referência em Goiânia no samba e na gastronomia. Fico muito feliz com isso”, afirma.
Enquanto o Quintal mantém a tradição do samba de raiz, o Jajá Drinks, no Mercado Popular da 74, aposta em uma programação diversificada. Às terças-feiras, há sertanejo e pop rock; às quartas, samba, MPB e pagode; às quintas, pop rock; às sextas, sertanejo e forró; e, aos sábados e domingos, samba e pagode.
No Quintal, a proposta é preservar a identidade musical da casa, com apresentações de samba e artistas que também passeiam por outros ritmos, como o forró pé de serra.
O Centro como parte da própria história
A escolha de instalar o Quintal do Jajá no Centro não foi por acaso. O empresário diz que tem uma relação de afeto com a região, onde chegou há mais de cinco décadas e construiu sua vida. Para ele, o bairro representa o coração de Goiânia e precisa recuperar a movimentação que já teve no passado.
Jair cita a retomada da Rua do Lazer e a movimentação de novos estabelecimentos como sinais positivos. Na avaliação dele, o poder público precisa continuar incentivando iniciativas que atraiam moradores e visitantes para a região central.
“Eu devo muito a Goiânia. O Centro é tudo para mim. Foi onde cheguei, onde tudo começou e onde deu certo. Eu adoro o Centro e valorizo muito essa região. O poder público precisa incentivar para que volte a ser o que era antes”, afirma.
A ligação com a capital também se estende à família. Jair se casou em 1981 com Maria Aparecida Aires da Silva Prado, hoje professora aposentada. O casal tem dois filhos, Pedro Henrique e Paulo Alexandre, ambos advogados, e dois netos, João Pedro e Alice, que, segundo o empresário, são “os xodós do avô”.
Ao lembrar da história da cidade, ele também destaca as comemorações antigas do aniversário de Goiânia, especialmente os desfiles.
Para Jajá, acompanhar as mudanças da capital é também reconhecer a própria trajetória.
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