Terça-feira, 25 de Agosto de 2026
FLORADA DO CERRADO

Entenda por que boa parte dos 50 mil ipês de Goiânia florescem em plena seca

Pesquisadora da UEG explica por que os ipês perdem as folhas, florescem durante a estiagem e podem pertencer a espécies diferentes mesmo quando têm a mesma cor

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em: • Atualizado em:
Ipê-amarelo floresce durante o período seco em Goiás (Foto: Josana de Castro Peixoto)

Goiânia tem cerca de 50 mil ipês, segundo estimativa da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), e parte deles floresce justamente quando a capital atravessa os meses mais secos do ano. A quantidade inclui árvores de diferentes cores e espécies distribuídas por ruas, parques, praças e canteiros, como mostrou reportagem do Mais Goiás sobre a florada dos ipês-brancos no Granville.

Em entrevista ao Mais Goiás, a professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Goiás (UEG) Josana de Castro Peixoto explica que o cenário observado em agosto resulta de processos ligados à fisiologia, à reprodução e à evolução das plantas. A primeira chave para compreender o fenômeno é abandonar uma ideia comum: ipê não é uma única espécie.

A florada ocorre em um mês marcado por calor e baixa umidade no Centro-Oeste, mas a seca não funciona como um botão que simplesmente “liga” as flores. O Inmet prevê temperaturas acima da média climatológica em parte de Goiás em agosto de 2026, enquanto estações do órgão registraram umidade mínima de 13% em Goiânia no dia 10. A possibilidade de chuvas pontuais no fim de agosto, já noticiada pelo Mais Goiás, não representa necessariamente o encerramento da estiagem. Josana afirma que temperatura, disponibilidade de água, precipitação e duração do dia atuam em conjunto sobre o calendário de cada espécie.

Ipê não é uma única espécie

Quando uma árvore é chamada de ipê-amarelo, ipê-roxo, ipê-rosa ou ipê-branco, o nome usado no cotidiano não corresponde necessariamente à classificação científica. Josana explica que “ipê” é um nome popular aplicado a diferentes espécies da família Bignoniaceae, principalmente dos gêneros Handroanthus e Tabebuia. A classificação mudou após estudos moleculares mostrarem que plantas antes agrupadas de maneira ampla como Tabebuia pertenciam a linhagens evolutivas distintas. O banco internacional Plants of the World Online, do Royal Botanic Gardens, Kew, reúne atualmente diferentes espécies reconhecidas no gênero Handroanthus.


No Cerrado estão presentes espécies como Handroanthus ochraceus, Tabebuia aurea, Tabebuia roseoalba, Handroanthus serratifolius e Handroanthus impetiginosus. Algumas não se restringem ao bioma nem ao território brasileiro, o que impede falar em um único “ipê do Cerrado”. O Kew registra Handroanthus ochraceus desde a América Central até o noroeste da Argentina, com ocorrência natural também no Centro-Oeste brasileiro. Segundo Josana, características como folhas, flores, frutos, sementes, madeira, habitat e distribuição geográfica ajudam a diferenciar as espécies.

Essa distribuição continental aparece também entre espécies associadas à paisagem brasileira. O Handroanthus impetiginosus, conhecido em diferentes regiões como ipê-roxo ou ipê-rosa, ocorre naturalmente do México à América do Sul tropical. O banco do Kew registra a espécie em países como Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Paraguai, Peru e Venezuela, além do Brasil. A presença em diferentes países mostra que a história evolutiva dos ipês ultrapassa as fronteiras políticas atuais.

Nem todo ipê-amarelo é a mesma espécie

Ipê-amarelo apresenta floração intensa enquanto perde parte das folhas na estação seca (Foto: Josana de Castro Peixoto)
Ipê-amarelo apresenta floração intensa enquanto perde parte das folhas na estação seca (Foto: Josana de Castro Peixoto)

A cor da flor é a característica mais fácil de perceber, mas não basta para identificar uma espécie. “Cor é uma pista taxonômica, não um diagnóstico”, afirma Josana, ao explicar que o nome ipê-amarelo pode reunir Handroanthus ochraceus, Handroanthus serratifolius, Handroanthus chrysotrichus, Handroanthus albus e Tabebuia aurea. A identificação exige observar um conjunto de características, como formato e número dos folíolos, cálice, corola, frutos, sementes, casca e área de ocorrência. Por isso, dois ipês amarelos encontrados na mesma avenida podem ser botanicamente diferentes.

Até os nomes científicos podem produzir situações que parecem contraditórias para quem olha apenas a flor. Handroanthus albus apresenta flores amarelas, embora “albus” signifique branco, porque a denominação está relacionada ao aspecto esbranquiçado de suas folhas jovens. Já o ipê-branco, Tabebuia roseoalba, tem distribuição nativa do Peru ao Brasil e Paraguai e pode apresentar tonalidades rosadas. Em Goiânia, um ipê-amarelo com cerca de 70 anos localizado próximo ao Mutirama já foi tema de reportagem do Mais Goiás por sua importância para a história da arborização da capital.

Por que os ipês perdem as folhas na seca

A queda das folhas durante a estação seca reduz a área pela qual a planta perde água por transpiração. Com menos água disponível nas camadas superficiais do solo e maior demanda evaporativa da atmosfera, a retirada temporária da folhagem ajuda a preservar o balanço hídrico. Josana explica que isso não significa que a árvore esteja parada ou morrendo, porque espécies lenhosas do Cerrado podem utilizar raízes profundas e reservas acumuladas anteriormente. A planta reduz parte do gasto com a manutenção da copa enquanto mantém processos ligados à reprodução.

O comportamento pode ser observado de forma clara no ipê-branco, que perde as folhas antes ou durante o período de floração. Material botânico da Universidade Federal de Minas Gerais descreve a floração de Tabebuia roseoalba como explosiva e de curta duração. A mesma publicação informa que as flores são polinizadas por abelhas e que as sementes leves são posteriormente dispersas pelo vento. Em Goiânia, a concentração simultânea dessas árvores floridas no Granville foi justamente o que chamou a atenção para a curta duração do fenômeno.

Flores sem folhas ficam mais expostas aos polinizadores

Flores do ipê-amarelo atraem polinizadores e marcam o ciclo reprodutivo da espécie no Cerrado (Foto: Josana de Castro Peixoto)
Flores do ipê-amarelo atraem polinizadores e marcam o ciclo reprodutivo da espécie no Cerrado (Foto: Josana de Castro Peixoto)

A ausência das folhas também muda a forma como as flores aparecem na copa. Segundo Josana, flores grandes e produzidas em quantidade ficam mais expostas aos visitantes quando não dividem o espaço visual com a folhagem. Essa característica pode aumentar a atração dos polinizadores e favorecer a transferência de pólen entre diferentes indivíduos. O efeito se torna mais evidente em espécies que concentram grande parte da floração em um intervalo curto.

Um estudo realizado no Cerrado do Distrito Federal encontrou evidências desse mecanismo em Tabebuia aurea e na espécie então denominada Tabebuia ochracea, hoje Handroanthus ochraceus. A pesquisa publicada na Revista Brasileira de Botânica registrou floração maciça e sincronizada durante a estação seca, entre julho e setembro. Os pesquisadores observaram 14 espécies de abelhas visitando as duas árvores e apontaram espécies de Centris e Bombus morio como potenciais polinizadoras. O trabalho sustenta a relação entre a florada concentrada e a atividade dos animais responsáveis pelo transporte do pólen.

Depois das flores, o vento participa da reprodução

O ciclo não termina quando as flores começam a cair. Os ipês formam frutos secos com sementes leves e aladas, adaptadas à dispersão pelo vento, processo chamado anemocoria. Josana explica que a sincronização entre floração, desenvolvimento dos frutos e estação seca pode colocar a liberação das sementes em um período favorável ao transporte. A chegada posterior das chuvas pode criar condições de umidade mais adequadas para germinação e estabelecimento das novas plantas.

A sequência ajuda a entender por que reduzir a florada a uma reação à falta de chuva simplifica demais o fenômeno. A árvore perde folhas, utiliza reservas, produz flores, recebe polinizadores, forma frutos e libera sementes dentro de um calendário biológico que varia entre espécies. Em alguns casos, a fase mais visível dura poucos dias, embora o processo reprodutivo ocupe um período bem maior. É essa concentração que transforma alguns pontos de Goiânia em corredores de flores durante agosto e setembro.

Clima interfere, mas não explica tudo sozinho

A duração da seca e as variações de temperatura e chuva interferem na fenologia, nome dado ao calendário de eventos como formação de folhas, floração e frutificação. Josana afirma que disponibilidade hídrica, temperatura, precipitação e fotoperíodo interagem com mecanismos internos das plantas, por isso o comportamento varia entre espécies, populações, regiões e anos. Essa variação impede estabelecer uma data fixa para a abertura das flores de todos os ipês de Goiânia. Também impede concluir que uma florada antecipada ou atrasada isoladamente seja prova de mudança climática.

O contexto de 2026 mostra, no entanto, as condições ambientais enfrentadas pela vegetação neste período. Em 10 de agosto, o Inmet registrou 13% de umidade relativa do ar em Goiânia e 12% na cidade de Goiás. Na capital, a manutenção de jardins durante a estiagem exige irrigação e manejo, e o Mais Goiás mostrou que sete caminhões-pipa atendem 35 pontos floridos da cidade. O cuidado com canteiros urbanos não deve ser confundido com o mecanismo natural que rege a florada dos ipês.

Ipê da avenida não vive nas mesmas condições do Cerrado

Ipês-brancos formam um corredor de flores pelas ruas do Condomínio Granville, em Goiânia (Foto: Maurício Aparecido Mariano da Silva/@NeguinhoDoBem)
Ipês-brancos formam um corredor de flores pelas ruas do Condomínio Granville, em Goiânia (Foto: Maurício Aparecido Mariano da Silva/@NeguinhoDoBem)

O ambiente urbano altera fatores que influenciam o desenvolvimento das árvores, entre eles temperatura do ar e do solo, disponibilidade de água, compactação, impermeabilização, podas e iluminação artificial. Josana acrescenta que mudas plantadas nas cidades podem ter origem genética diferente das populações naturais, além da presença de espécies cultivadas fora de sua área original. Por isso, um exemplar em uma avenida de Goiânia não necessariamente floresce no mesmo momento que uma árvore da mesma espécie em uma área conservada. As diferenças precisam ser analisadas de acordo com espécie, local e condições ambientais.

A presença das árvores no cotidiano é particularmente relevante em Goiânia, onde 89,6% da população vive em trechos de vias com pelo menos uma árvore, segundo os resultados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE. O percentual coloca a cidade em segundo lugar entre as capitais brasileiras, atrás de Campo Grande, com 91,4%, como mostrou o Mais Goiás ao detalhar o ranking nacional. O indicador mede a presença de arborização nos trechos de vias pesquisados e não a quantidade de árvores nem a proporção de ipês. A distinção evita transformar o ranking em uma estimativa de cobertura vegetal que o levantamento não fornece.

A própria arborização da capital passa por renovação. De janeiro a 9 de abril de 2026, Goiânia substituiu 863 árvores, conforme dados da Comurg e da Amma publicados pelo Mais Goiás. Técnicos da Amma também explicaram ao portal que parte da vegetação da cidade foi plantada desde a década de 1930 e já se aproxima do fim do ciclo de vida, tema tratado em reportagem sobre a arborização antiga da capital. Esse envelhecimento cria um contexto distinto das populações naturais encontradas no Cerrado.

Ter ipês na cidade não significa que todas as espécies estão protegidas

A abundância visual dos ipês em áreas urbanas também não permite concluir que todas as espécies estejam fora de risco. Josana cita Handroanthus spongiosus, Handroanthus riodocensis e Handroanthus botelhensis entre espécies que merecem atenção do ponto de vista da conservação. A relação federal mais recente disponível inclui essas três espécies na categoria Em Perigo, conforme documento do Ministério do Meio Ambiente. A conservação depende das populações naturais, de sua diversidade genética e da manutenção dos ambientes necessários à reprodução.


Em Goiás, a perda de vegetação nativa diminuiu em 2025, mas não desapareceu. O desmatamento caiu 44% em relação a 2024 e chegou a 10.983 hectares, conforme o Relatório Anual do Desmatamento publicado pelo MapBiomas e detalhado pelo Mais Goiás. Um ano antes, a redução havia sido de 71,9% em relação a 2023, segundo a edição anterior do relatório, também acompanhada pelo Mais Goiás. Os períodos precisam ser separados porque cada percentual compara anos diferentes e não representa uma queda acumulada única.

A relação entre árvores e patrimônio urbano também aparece no Centro de Goiânia. Em janeiro deste ano, o Iphan questionou a retirada de árvores na Praça Cívica e a prefeitura informou que plantaria ipês-amarelos no local, conforme reportagem do Mais Goiás. O episódio mostra como o ipê também integra projetos de arborização, paisagismo e memória da capital. Ainda assim, árvores plantadas nas cidades não substituem populações naturais conservadas no Cerrado.

Uma florada que atravessa as Américas

Para Josana, olhar para os ipês apenas como uma atração paisagística deixa de fora uma história botânica maior. Espécies aparentadas estão distribuídas do México à América do Sul e desenvolveram diferentes estratégias em resposta aos ambientes onde evoluíram. No Cerrado, sazonalidade, disponibilidade de água, polinizadores e vento participam de um ciclo que passa pela queda das folhas, abertura das flores, formação dos frutos e dispersão das sementes. “Todo ipê-amarelo tem flores amarelas, mas nem todo ipê-amarelo é a mesma espécie”, resume a pesquisadora.

A florada que muda por alguns dias a paisagem de Goiânia é, portanto, apenas a fase mais visível desse processo. Por trás das copas amarelas, brancas, rosas ou roxas há espécies diferentes, relações com abelhas, adaptação à estação seca e uma história evolutiva que não começa nem termina em Goiás. A presença de cerca de 50 mil ipês na capital amplia a oportunidade de observar esse ciclo, mas também exige distinguir arborização urbana de conservação do Cerrado. Quando as pétalas caem, o ciclo continua nos frutos e nas sementes que serão levadas pelo vento.

Categorias:
Cidades Clima e tempo Goiânia
Tags:
arborização de Goiânia árvores de Goiânia biodiversidade do Cerrado Cerrado goiano floração dos ipês florada dos ipês Handroanthus ipês de Goiás ipês em Goiânia ipês na seca ipês no Cerrado polinização por abelhas seca em Goiás Tabebuia