Terça-feira, 25 de Agosto de 2026
SAÚDE INFANTIL

Atendimentos respiratórios de crianças sobem 56% em Goiânia na comparação com 2025

Na terceira semana de agosto, a rede municipal registrou 906 atendimentos pediátricos por quadros respiratórios, contra 634 na primeira

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Criança recebe nebulização durante atendimento por sintomas respiratórios; baixa umidade pode agravar quadros como asma, rinite, bronquite e bronquiolite (Foto: pexel)

Os atendimentos de crianças com doenças ou sintomas respiratórios na rede municipal de Goiânia aumentaram 56,25% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. O número passou de 1.806 para 2.822 registros, acréscimo absoluto de 1.016 atendimentos em um ano. Os dados, obtidos com exclusividade pelo Mais Goiás junto à Secretaria Municipal de Saúde (SMS), consideram crianças de 0 a 12 anos com CIDs compatíveis com quadros respiratórios. A alta ocorre em um ano no qual o tempo seco já levou a umidade para níveis inferiores a 20% em Goiás, mas a pasta não atribui todo o crescimento exclusivamente ao clima.

Os registros de agosto mostram uma nova aceleração dentro do próprio mês, embora a SMS não tenha fornecido comparação com agosto de 2025. Entre os dias 1º e 7, foram 634 atendimentos, número que subiu 22,1%, para 774, entre os dias 8 e 14. Na terceira semana, de 15 a 21, a rede recebeu 906 crianças, crescimento de 17,1% em relação aos sete dias anteriores. Comparada à primeira semana, a terceira registrou 42,9% mais atendimentos, diferença de 272 ocorrências.

Somadas, as três primeiras semanas de agosto tiveram 2.314 atendimentos, mas esse número não deve ser comparado como taxa de crescimento com o primeiro semestre porque os períodos possuem durações diferentes. A SMS classificou o avanço ao longo do mês como um comportamento compatível com a sazonalidade das doenças respiratórias, sem estabelecer relação causal direta com a baixa umidade. O contexto climático, porém, é extremo: em 10 de agosto, Goiânia registrou 13% de umidade e 38,3°C, maior temperatura para um mês de agosto desde o início das medições da estação convencional do Inmet. O cenário também foi acompanhado pelo Mais Goiás, que mostrou temperaturas próximas de 40°C e umidade de até 12% em áreas do Estado.

Pneumonia e influenza aparecem em quase metade das solicitações

A SMS registrou 375 solicitações de internação de urgência pediátrica relacionadas a doenças respiratórias em 2026. Pneumonia e influenza responderam juntas por 179 desses registros, o equivalente a 47,7% das solicitações informadas pela pasta. A secretaria cita ainda 87 registros de pneumonia, 34 de asma, 29 de bronquiolite, 23 de sinusite, 22 de bronquite e cinco de rinite entre os diagnósticos registrados no período. O dado se refere a solicitações de internação, e não necessariamente a 375 internações efetivamente realizadas.

A distinção é necessária porque atendimento ambulatorial, solicitação de internação e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) medem situações diferentes e não podem ser somados. Em abril deste ano, dados estaduais mostraram que crianças com menos de 2 anos representavam 43,2% dos casos de SRAG registrados em Goiás, com 1.301 notificações em um universo de 3.013 casos até 26 daquele mês. O levantamento da Secretaria de Estado da Saúde reúne casos graves em todo o Estado e utiliza metodologia diferente da base municipal divulgada agora. Por isso, ele serve para dimensionar a vulnerabilidade dos pequenos, mas não para calcular a evolução dos atendimentos da Prefeitura de Goiânia.

O histórico recente também mostra que a pressão das doenças respiratórias não começou neste agosto. Nos seis primeiros meses de 2025, Goiás registrou 6.150 casos de SRAG, 51,21% mais que no mesmo período de 2024, conforme dados estaduais publicados pelo Mais Goiás. A comparação é estadual, refere-se a SRAG e pertence ao ano anterior, portanto não mede a variação de atendimentos pediátricos da rede municipal em 2026. A informação ajuda, porém, a mostrar que a sazonalidade respiratória já pressionava os serviços antes do atual período de estiagem.

Cais Campinas concentra mais atendimentos

Entre as unidades municipais informadas pela SMS, o Cais Campinas aparece com o maior volume, com 1.155 atendimentos pediátricos relacionados a quadros respiratórios. Em seguida estão a UPA Noroeste, com 366, a UPA Itaipu, com 358, e a UPA Jardim Novo Mundo, com 254 registros. O Cais Vila Nova teve 176 atendimentos, a UPA Jardim América 148, o Ciams Urias Magalhães 133 e a UPA Chácara do Governador 101. Cais Cândida de Morais e Cais Bairro Goiá aparecem com 55 e sete registros, respectivamente.

A concentração não significa necessariamente que moradores da região de Campinas adoeçam mais, porque as unidades de urgência recebem pacientes de diferentes bairros. O volume também pode refletir capacidade de atendimento, localização, horário de funcionamento e fluxo de encaminhamentos dentro da rede. A SMS não apresentou, na resposta enviada ao Mais Goiás, taxas calculadas pela população atendida em cada território. Sem esse denominador, não é possível transformar o número de atendimentos de cada unidade em risco epidemiológico por bairro.

Por que as crianças sentem mais o tempo seco

A pneumologista pediátrica Lusmaia Damaceno Camargo Costa, do Einstein em Goiânia, explica que características do organismo infantil ampliam a vulnerabilidade às condições ambientais. Segundo ela, pulmões e sistema imunológico ainda estão em desenvolvimento, enquanto a frequência respiratória das crianças é maior que a dos adultos. Elas também costumam passar mais tempo em atividades físicas e ao ar livre, aumentando a quantidade de ar e partículas inaladas ao longo do dia. A maior vulnerabilidade de crianças ao período de baixa umidade também aparece em material do Ministério da Saúde sobre mudanças climáticas e saúde.

Pneumologista pediátrica Lusmaia Damaceno Camargo Costa alerta para os efeitos da baixa umidade na saúde das crianças (Foto: Divulgação)
Pneumologista pediátrica Lusmaia Damaceno Camargo Costa alerta para os efeitos da baixa umidade na saúde das crianças (Foto: Divulgação)

O ar seco interfere principalmente na camada de proteção das vias respiratórias. Lusmaia explica que a baixa umidade altera a qualidade das secreções e irrita as vias aéreas, o que pode agravar doenças alérgicas e respiratórias preexistentes. Asma, rinite, sinusite e bronquite exigem acompanhamento maior quando os sintomas começam a se intensificar. A Sociedade Brasileira de Pediatria também relaciona alterações de umidade, temperatura e exposição a poluentes a sintomas nasais em crianças.

A baixa umidade, sozinha, não transmite gripe, bronquiolite ou pneumonia e não permite concluir que todos os 2.822 atendimentos ocorreram por causa do clima. O problema é que o ressecamento das mucosas reduz uma das barreiras naturais das vias aéreas e pode aumentar irritação, tosse e desconforto em quem já apresenta doença respiratória. A Secretaria de Saúde de Goiás explica que o clima seco provoca ressecamento das mucosas do nariz, boca e vias respiratórias, com possibilidade de tosse seca, irritação da garganta, coriza, congestão e sangramento nasal. A circulação simultânea de vírus respiratórios também precisa ser considerada para interpretar a procura pelas unidades.

Bebês exigem atenção maior

Bebês e crianças de até 2 anos aparecem entre os grupos que demandam cuidado adicional, segundo a SMS e a pneumologista. Como os bebês não conseguem comunicar sede e desconforto com clareza, a família precisa observar hidratação, temperatura corporal, alimentação, comportamento e quantidade de urina. Nos que permanecem em aleitamento materno exclusivo, Lusmaia orienta oferecer o peito com maior frequência, além de usar roupas leves e evitar superaquecimento. A vulnerabilidade da faixa etária também explica ações como a proteção contra o vírus sincicial respiratório oferecida em Goiânia a crianças com condições de maior risco.

O VSR merece atenção porque está entre os principais agentes associados à bronquiolite em bebês. O Hospital Estadual de Doenças Tropicais explica que a doença costuma atingir crianças de até 2 anos e pode começar com coriza, obstrução nasal e tosse antes de evoluir para chiado e esforço respiratório. Em casos mais graves, a família pode observar retrações entre as costelas e fadiga para respirar, conforme orientação do HDT. O diagnóstico e a gravidade precisam ser avaliados por profissional de saúde, especialmente em lactentes.

Nariz sangrando e tosse podem ser efeito do ressecamento

Sangramento nasal, garganta seca, irritação nos olhos e tosse irritativa podem aparecer com mais frequência quando a umidade cai. Lusmaia explica que o ressecamento atinge as mucosas que revestem nariz, olhos e garganta, facilitando pequenas lesões e desconforto. A orientação inclui aumentar a ingestão de líquidos e utilizar soro fisiológico para manter as narinas hidratadas, enquanto colírios de lágrima artificial devem ser usados com orientação adequada. Documento da própria Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia também aponta o ressecamento das vias respiratórias entre os efeitos da baixa umidade.

A lavagem nasal com solução salina é reconhecida como medida útil em crianças com sintomas nasais, mas a técnica precisa respeitar idade e condições clínicas. Documento da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre rinite alérgicarecomenda soluções salinas como tratamento isolado ou complementar em crianças e adolescentes. A SMS de Goiânia também inclui o soro fisiológico entre os cuidados que podem ser adotados em casa nos quadros leves. O procedimento não substitui avaliação médica quando há falta de ar, piora do estado geral ou outros sinais de gravidade.

Quando deixar de cuidar em casa e procurar atendimento

Nos quadros leves, a criança pode permanecer ativa, aceitar alimentos e líquidos e respirar sem esforço, situação em que a SMS orienta hidratação, higiene nasal e ambiente ventilado. O cenário muda quando a respiração fica muito rápida, há afundamento das costelas, gemência, chiado intenso ou dificuldade para respirar. Lábios ou unhas arroxeados, pausas respiratórias, incapacidade de mamar ou beber e febre persistente acompanhada de piora geral exigem avaliação imediata. O Mais Goiás já explicou como diferenciar uma síndrome gripal de sinais que podem indicar evolução para SRAG.

Lusmaia acrescenta dois sinais que podem passar despercebidos pelos responsáveis: mudança do comportamento e redução da urina. Uma criança que fica mais sonolenta, “molinha” ou menos responsiva merece atenção, principalmente quando isso ocorre junto de sintomas respiratórios. Fazer menos xixi pode indicar redução da ingestão de líquidos ou desidratação e precisa ser observado junto aos demais sinais. Orientações semelhantes aparecem em material da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre crises respiratórias e sibilância, que inclui alteração do estado geral e recusa alimentar entre sinais de gravidade.

Hidratação funciona, mas umidificador exige cuidado

Água ao longo do dia, lavagem nasal, redução da exposição à poeira e ambientes sem fumaça estão entre as medidas recomendadas pela pneumologista e pela SMS. Lusmaia afirma que hidratação, higiene nasal, uso adequado do umidificador e redução da atividade física nos períodos mais secos ajudam a diminuir os efeitos do clima sobre as vias respiratórias. O umidificador, porém, não deve transformar o quarto em um ambiente permanentemente úmido, porque o excesso de umidade favorece mofo e outros desencadeadores de sintomas. A Secretaria de Estado da Saúde recomenda higienizar o equipamento e evitar deixá-lo ligado durante toda a noite.

A pneumologista recomenda evitar parques, esportes e atividades físicas intensas ao ar livre quando a umidade fica abaixo de 30%, especialmente nos períodos mais quentes. A orientação ganha relevância em um mês no qual Goiás teve sucessivos dias com índices entre 12% e 20%, quadro acompanhado pelo Mais Goiás em municípios de diferentes regiões. Material da vigilância em saúde de Goiás classifica índices entre 20% e 30% como estado de atenção e orienta evitar exercícios físicos ao ar livre entre 11h e 15h. Em valores ainda menores, os cuidados precisam ser reforçados.

Agosto combina calor, ar seco e circulação de vírus

O aumento dos atendimentos ocorre em um mês em que o calor também alcançou marcas históricas em Goiânia. O Inmet registrou 38,3°C na capital em 10 de agosto, recorde para o mês na série da estação convencional, enquanto a umidade caiu a 13% no mesmo dia. O Mais Goiás mostrou que a combinação de temperaturas próximas de 40°C, falta de chuva e umidade entre 12% e 15% deixou várias regiões do Estado sob condições extremas. O registro meteorológico não prova que o calor causou a alta dos atendimentos, mas ajuda a caracterizar a exposição ambiental das crianças durante o período.

O tempo pode apresentar mudanças pontuais nesta semana sem representar, necessariamente, o fim da estação seca. O Inmet prevê aumento da umidade atmosférica e formação de áreas de instabilidade em partes do Centro-Oeste entre terça-feira (25) e quarta-feira (26), enquanto o noroeste de Goiás ainda pode registrar máximas entre 38°C e 40°C. O Cimehgo já havia indicado possibilidade de chuva entre os dias 25 e 27, mas ressaltou que o fenômeno seria pontual e não deveria encerrar a estiagem, conforme publicou o Mais Goiás. A previsão atualizada pode ser acompanhada diretamente no Instituto Nacional de Meteorologia.

Prevenção também passa pela vacinação

Tempo seco e doenças virais são fatores diferentes, por isso os cuidados com a baixa umidade não substituem a prevenção contra agentes infecciosos. A SMS recomenda manter a vacinação das crianças atualizada, principalmente em um período de circulação de vírus respiratórios. Goiânia reforçou neste ano a vacinação contra influenza, e o Mais Goiás mostrou que a cobertura entre crianças e outros grupos prioritários ainda estava abaixo da meta em abril. Em agosto, Goiás também realizou Dia D de multivacinação para atualizar cadernetas de crianças e adolescentes.

Os novos dados municipais mostram que a pressão sobre a rede não se limita a um único diagnóstico nem a uma única semana. O primeiro semestre terminou com 56,25% mais atendimentos que o mesmo intervalo de 2025 e agosto apresentou crescimento sucessivo entre as três semanas informadas pela SMS. A combinação entre sazonalidade, doenças preexistentes, circulação de agentes respiratórios e condições ambientais exige que cada fator seja analisado separadamente, sem atribuir todos os casos ao tempo seco. Para as famílias, o ponto de decisão permanece mais simples: hidratar, reduzir exposições nos horários mais críticos e procurar atendimento diante de qualquer sinal de esforço respiratório ou alteração do estado geral.

Categorias:
Cidades Goiânia
Tags:
asma infantil atendimento pediátrico atendimentos respiratórios infantis baixa umidade baixa umidade e crianças bronquiolite bronquite infantil crianças e tempo seco doenças respiratórias doenças respiratórias em crianças hidratação infantil internações pediátricas lavagem nasal pneumonia infantil rinite infantil Saúde em Goiânia saúde infantil em Goiânia sinais de alerta respiratório sinusite infantil SMS Goiânia tempo seco em Goiânia