Domingo, 23 de Agosto de 2026
Emagrecimento

Entre dietas, “canetas” e cirurgias, psicóloga goiana aposta na mudança de comportamento

Profissional de 45 anos viveu o efeito sanfona e desenvolveu metodologia baseada em Análise do Comportamento, Neurociência e Terapia Cognitivo-Comportamental

Warlem Sabino
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Leana Bernardes

Nunca houve tantas opções para quem quer emagrecer. Dietas restritivas, acompanhamento nutricional, medicamentos, as chamadas “canetas” e procedimentos como a cirurgia bariátrica fazem parte de um arsenal cada vez maior utilizado no tratamento da obesidade. Mas, para muitas pessoas, perder peso é apenas uma parte do desafio. A etapa seguinte — manter o resultado — continua sendo difícil.

É nesse cenário que uma psicóloga goiana decidiu concentrar o trabalho em uma questão que muitas vezes fica em segundo plano: o comportamento.

Aos 45 anos, Leana Bernardes passou por diferentes tentativas para perder peso e viveu, na própria pele, o chamado efeito sanfona. Depois de anos alternando períodos de emagrecimento e ganho de peso, ela conseguiu perder 10 quilos e mudar a relação com alimentação, atividade física e autocuidado.

A experiência pessoal acabou mudando também sua trajetória profissional. Psicóloga há mais de 20 anos, Leana trabalhava principalmente com crianças atípicas. Hoje, dedica parte da carreira a mulheres que enfrentam dificuldades para emagrecer e, principalmente, para sustentar as mudanças ao longo do tempo.

A partir da própria experiência, ela desenvolveu uma metodologia que reúne conceitos da Análise do Comportamento, Neurociência e Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A proposta é trabalhar os comportamentos relacionados à alimentação, atividade física e autocuidado, em vez de concentrar o processo apenas na perda de peso.

“Minha missão hoje é ajudar mulheres, especialmente entre 30 e 50 anos, que vivem o mesmo ciclo de frustração que eu vivi. Não com dietas milagrosas ou promessas vazias, mas com estratégias fundamentadas na ciência do comportamento e adaptadas à realidade de cada pessoa”, afirma.

O desafio começa depois da balança

O crescimento da obesidade ajuda a explicar por que diferentes estratégias de tratamento ganharam espaço nos últimos anos. Dados do Vigitel 2024 mostram que a frequência de obesidade entre adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal chegou a 25,7%. O índice vem crescendo desde o início da série histórica, quando era de 11,8%, em 2006.

Com o aumento dos casos, também cresceram as possibilidades de tratamento. Além da mudança na alimentação e da prática de atividade física, medicamentos passaram a ocupar espaço importante no combate à obesidade. Em situações específicas, a cirurgia também pode fazer parte da estratégia terapêutica.

Mas emagrecer não significa necessariamente encerrar o tratamento. A obesidade é considerada uma doença crônica e multifatorial. Por isso, o acompanhamento pode envolver diferentes profissionais, como médicos, nutricionistas, educadores físicos e psicólogos.

Por que o peso volta?

Para a médica nutróloga Andrea Pereira, presidente do Instituto Obesidade Brasil, a recuperação do peso depois do emagrecimento não deve ser interpretada simplesmente como falta de disciplina.

Segundo ela, o organismo reage à perda de peso com mecanismos que podem favorecer a recuperação dos quilos eliminados.

“Quando a pessoa emagrece, o corpo passa a gastar menos energia e aumenta a produção de hormônios relacionados à fome, enquanto reduz os da saciedade. É uma resposta biológica que favorece a recuperação do peso, por isso a obesidade precisa ser tratada como uma doença crônica, e não como uma questão de força de vontade.”

A especialista destaca que atingir uma determinada marca na balança não significa necessariamente que o tratamento terminou.

“Assim como acontece com doenças como diabetes e hipertensão, a manutenção dos resultados depende de acompanhamento contínuo e estratégias individualizadas para cada paciente.”

É por isso que a ideia de simplesmente “fazer uma dieta” e depois voltar aos hábitos anteriores pode ser insuficiente para algumas pessoas.

Andrea Levy e Andrea Pereira
Psicóloga Andrea Levy e a nutróloga Andrea Pereira. (Fotos: Divulgação)

O comportamento também pesa

Além dos fatores biológicos, aspectos emocionais podem influenciar a alimentação e a capacidade de manter uma rotina de exercícios. A psicóloga Andrea Levy, cofundadora do Instituto Obesidade Brasil, afirma que expectativas irreais também podem atrapalhar o processo.

“Quando surgem sentimentos como ansiedade, culpa ou frustração, aumenta o risco de compulsão alimentar e do abandono do tratamento. Além disso, dietas muito restritivas costumam funcionar apenas por um período, sem promover mudanças sustentáveis na relação com a comida.”

É justamente nessa área que Leana decidiu trabalhar. Segundo ela, entre os fatores que podem dificultar o emagrecimento estão o comer emocional, episódios de descontrole alimentar, padrões de autossabotagem e dificuldade de manter uma rotina de atividade física.

“Usei a Análise do Comportamento para compreender por que eu repetia padrões de autossabotagem. A Neurociência me ajudou a entender como o cérebro busca recompensas imediatas, enquanto a Terapia Cognitivo-Comportamental permitiu reestruturar pensamentos que reforçavam sentimentos de incapacidade.”

Leana Bernardes1
Psicóloga Leana Bernardes: “Resgatei minha autoestima, minha energia e meu bem-estar. Aprendi a não transformar pequenos deslizes em fracassos e a construir uma relação mais saudável com a alimentação. (Foto: Divulgação)

Antes do método, veio o efeito sanfona

A metodologia criada por Leana nasceu de uma experiência que começou muito antes de ela decidir trabalhar especificamente com emagrecimento.

Durante anos, ela alternou períodos de perda e recuperação de peso. Engravidou e ganhou 23 quilos. Depois emagreceu, voltou a engordar e também recorreu a dietas restritivas e medicamentos para perder peso.

“Dormia apenas quatro ou cinco horas por noite e achava isso normal. Engravidei, ganhei 23 quilos, emagreci, voltei a engordar. Também recorri a dietas restritivas, medicamentos para perda de peso e soluções rápidas, mas os resultados nunca se mantinham”, relata.

A mudança veio em um período particularmente difícil, depois de um diagnóstico de depressão e durante a perimenopausa.

Foi quando Leana começou a aplicar na própria rotina conceitos que já utilizava no trabalho com pacientes. O resultado foi a perda de 10 quilos, a adoção de uma rotina de exercícios e uma relação diferente com a alimentação.

“Resgatei minha autoestima, minha energia e meu bem-estar. Aprendi a não transformar pequenos deslizes em fracassos e a construir uma relação mais saudável com a alimentação. É isso que procuro ensinar às minhas pacientes.”

Menos culpa, mais acompanhamento

Para Leana, uma das mudanças mais importantes é abandonar a ideia de que emagrecer depende exclusivamente de força de vontade.

“Quando entendemos os gatilhos que influenciam nossas escolhas e desenvolvemos ferramentas para lidar com eles, o processo de emagrecimento se torna mais consistente e sustentável.”

Para as especialistas ouvidas, também é necessário reduzir o estigma que ainda envolve a doença. Atribuir o ganho de peso exclusivamente à falta de esforço pode aumentar a culpa e dificultar a busca por tratamento.

“Precisamos entender que a obesidade é uma doença multifatorial, influenciada por questões genéticas, hormonais, ambientais e comportamentais. Quanto mais cedo deixarmos de tratar o paciente com culpa e passarmos a oferecer cuidado baseado em ciência, maiores serão as chances de sucesso a longo prazo”, afirma Andrea Pereira.

As diferentes formas de tratar a obesidade

🥗 Mudança alimentar
Reorganização da alimentação, normalmente com acompanhamento profissional.

🏃 Atividade física
Ajuda no controle do peso e traz benefícios para a saúde mesmo quando a perda de peso não é expressiva.

💊 Medicamentos
Podem ser indicados para determinados pacientes, sempre mediante avaliação e acompanhamento médico.

💉 As chamadas “canetas”
Medicamentos de classes específicas, como os agonistas de GLP-1 e medicamentos relacionados, ganharam destaque no tratamento da obesidade. A indicação depende da avaliação individual.

🏥 Cirurgia bariátrica
Pode ser indicada para pacientes que atendem a critérios clínicos específicos e exige acompanhamento antes e depois do procedimento.

🧠 Mudança de comportamento
Psicoterapia e outras estratégias comportamentais podem ajudar a compreender gatilhos, emoções e hábitos relacionados à alimentação e à manutenção do tratamento.

Importante: não existe uma estratégia única indicada para todas as pessoas. O tratamento deve ser individualizado e orientado por profissionais de saúde.

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