Homem larga rotina em Goiânia para dar volta ao mundo a pé, em jornada que deve durar 10 anos
O trajeto começou em Foz do Iguaçu e deve se estender pelos próximos sete a dez anos
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O youtuber Frederico Fernandes Borges, de 39 anos, largou a rotina em Goiânia para realizar um sonho: dar a volta ao mundo caminhando. Desde março de 2026, ele percorre países da América do Sul puxando um carrinho com equipamentos que pesa cerca de 130 kg. A jornada, iniciada em Foz do Iguaçu, deve durar de sete a dez anos, segundo o viajante. No percurso, ele enfrenta temperaturas de até -10°C, montanhas e desertos. Mais do que conhecer lugares, Fred afirma que a experiência tem sido uma descoberta sobre as pessoas.
Natural de Uberlândia (MG), Fred mora em Goiânia desde que tinha um ano de idade e se considera goianiense. Antes de iniciar a aventura, trabalhou com edição de vídeos, design gráfico e marketing digital. Atualmente, mantém o canal Fred – Rota do Bem, no YouTube, sendo essa sua principal fonte de renda. Os ganhos são complementados por contribuições de seguidores e pela ajuda de pessoas que encontra durante a caminhada.
“Eu sempre digo que, no início, a gente coloca na cabeça que a viagem vai ser uma descoberta de lugares, mas acaba sendo muito mais uma descoberta sobre as pessoas, porque o mundo é muito melhor do que a gente imagina”, disse ao Mais Goiás.
A caminhada começou oficialmente em 16 de março de 2026, em Foz do Iguaçu. Inicialmente, Fred pretendia percorrer Argentina e Chile, passando pela Cordilheira dos Andes. Entretanto, as condições climáticas e as limitações do tempo de permanência nos países fizeram com que o roteiro fosse alterado.
Na Argentina, ele passou por regiões como Misiones, Tucumán e Jujuy. Ao se aproximar dos Andes, encontrou nevascas que dificultavam a travessia e decidiu seguir para a Bolívia. O viajante permaneceu cerca de um mês no país, mas enfrentou protestos, duas infecções alimentares e problemas com o carrinho utilizado para transportar os equipamentos.
Diante dos imprevistos, optou por pegar um ônibus até Iquique, no Chile, na região do deserto do Atacama. De lá, voltou a caminhar em direção ao sul, pela costa do Pacífico. A travessia do deserto, considerado um dos mais áridos do mundo, foi um dos momentos mais desafiadores da jornada.

Após cerca de quatro meses de viagem, Fred percebeu que conseguiria continuar. No início, ainda cogitava interromper a aventura diante das dificuldades. Com o passar dos meses, porém, entendeu que a resistência mental seria fundamental para concluir o projeto.
“Aprendi que a viagem não é tanto condicionamento físico, ela é mais mental do que físico. O pensamento tem que estar sempre positivo”, afirma.
Depois de percorrer o Atacama e chegar a La Serena, no Chile, Fred precisou retornar à Argentina por causa do período permitido para permanecer no país. Atualmente, segue pela Ruta 40, em direção a Villa La Angostura, onde pretende conhecer a região dos Sete Lagos.
A próxima etapa será retornar ao Chile para atravessar a Carretera Austral, estrada com mais de mil quilômetros de extensão. Depois, ele pretende voltar à Argentina e seguir até El Calafate, no extremo sul da Patagônia. A previsão é concluir a etapa sul-americana entre o fim de março e abril de 2027.
Primeira viagem em 2008
A vontade de conhecer diferentes países surgiu ainda na adolescência, quando Fred passou a se interessar por histórias de viajantes que percorriam o mundo levando uma vida simples. Livros como On the Road e Na Natureza Selvagem também alimentaram o desejo de viver na estrada.
Em 2008, ele fez o primeiro mochilão, saindo de Goiânia sem destino definido. Na época, escolhia os lugares que queria conhecer diretamente na rodoviária, conforme os ônibus disponíveis. A experiência mudou sua percepção sobre viagens e sobre o contato com outras pessoas.
“Desde então, me apaixonei por viagens. A primeira experiência tirou aquele preconceito que a gente tem de que o mundo é perigoso. Vi que o mundo era muito melhor do que imaginava”, relembra.
Ao longo dos anos, Fred também viajou de bicicleta e moto, morou na Irlanda e conheceu países como Turquia, França, Espanha e Portugal. Em diferentes experiências, trabalhou nos próprios destinos para conseguir se manter.
Caminhada exige enfrentar frio, altitude e falta de dinheiro
A rotina na estrada é marcada por longas caminhadas e pela necessidade de improvisar. Fred percorre entre 20 e 30 quilômetros por dia, puxando um carrinho com equipamentos que chega a pesar cerca de 130 quilos. Entre os principais desafios estão as condições climáticas extremas, a dificuldade para encontrar locais seguros para acampar e as estradas de difícil acesso.
Durante o percurso, ele atravessou montanhas entre 2 mil e 4 mil metros de altitude, enfrentando frio de até -10°C, ventos fortes e dificuldades relacionadas à falta de oxigenação. Segundo o viajante, o clima tem sido o principal obstáculo, especialmente em regiões isoladas, onde as mudanças de temperatura tornam o trajeto ainda mais difícil.
O projeto também começou com poucos recursos financeiros. Fred saiu de Foz do Iguaçu com aproximadamente R$ 1 mil, valor que utilizou nos primeiros dias. A continuidade da viagem passou a depender da ajuda de pessoas encontradas pelo caminho e do apoio de seguidores.
Antes de iniciar a próxima etapa internacional, o viajante pretende melhorar a estrutura do carrinho para transportar os equipamentos com mais segurança.

A bondade encontrada pelo caminho
Ao longo do percurso, Fred recebeu água, comida, abraços e ajuda de moradores de diferentes países. A solidariedade de argentinos, bolivianos e chilenos está entre as experiências mais marcantes da jornada.
Para ele, caminhar permite uma aproximação maior com as comunidades e com a realidade de cada região. Diferentemente de uma viagem feita de carro ou avião, a experiência proporciona tempo para observar o ambiente, conversar com moradores e vivenciar situações inesperadas.
A felicidade, segundo o viajante, passou a estar ligada a gestos simples, como receber uma refeição, compartilhar uma história ou conhecer pessoas que vivem em pequenos vilarejos. Os vídeos publicados no YouTube também têm despertado nos seguidores uma valorização de aspectos básicos do cotidiano, como água, comida e convivência familiar.
“Eu vejo que o básico é o que me torna feliz e o que torna as pessoas felizes também. É ter o básico, viver uma vida simples e estar inserido no presente”, diz.
A viagem também tem provocado reflexões sobre espiritualidade e fé. Fred conta que passou a acreditar ainda mais em Deus ao vivenciar situações que considera inexplicáveis.
“Tem coisas que acontecem comigo que não tem como não serem milagres. Acontecem milagres quase todos os dias”, afirma.
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Caminhada da Irlanda até a Coreia do Sul
O projeto de Fred não termina na América do Sul. Após chegar a El Calafate, ele pretende retornar de ônibus a Goiânia para construir um novo carrinho de transporte, inspirado no equipamento utilizado por um viajante inglês que completou uma volta ao mundo após 28 anos de caminhada.
Com o novo equipamento, a próxima etapa será iniciar a jornada na Europa, partindo da Irlanda em direção à Coreia do Sul. Segundo Fred, somente esse percurso deve levar aproximadamente quatro anos e meio.
A volta ao mundo completa está prevista para durar entre sete e dez anos, dependendo das regiões que decidir conhecer depois de chegar ao território sul-coreano. O objetivo é atravessar diferentes países e continuar conhecendo culturas e realidades distintas.
Para Fred, mais importante do que alcançar o destino final é o aprendizado acumulado durante a jornada, que começou como um sonho antigo e se transformou em um projeto de vida.