Sábado, 15 de Agosto de 2026
Apostas

Jogo do bicho envelhece em Goiânia e perde espaço para bets e Tigrinho

Apontador de 66 anos, que trabalha há quatro décadas em Goiânia, diz que banca hoje fatura menos de 10% do que movimentava há 20 anos

Warlem Sabino
Por - Goiânia, GO
Publicado em: • Atualizado em:
Tabela Jogo do Bicho

São 40 anos sentado atrás de uma pequena banca no Centro de Goiânia. O homem de cabelos grisalhos, de 66 anos, fala rápido e passa o dia contando histórias. Mas já houve um tempo em que ele falava bem menos. “Hoje as apostas são muito poucas. O serviço é bem menos”, afirma.

O homem é apontador do jogo do bicho. Para os mais jovens, apontador é quem anota os palpites dos clientes, recolhe o dinheiro das apostas e emite o bilhete. É a ponta da operação que mantém contato direto com o apostador.

“Hoje eu faturo menos de 10% do que faturava duas décadas atrás. O pessoal foi envelhecendo e morrendo. Não existe uma geração de novos jogadores. O jogo do bicho não passou de pai para filho”, afirma.

São quatro décadas sentado na mesma cadeira, no mesmo lugar. Nesse período, o apontador acompanhou de perto as mudanças nos hábitos dos clientes. Hoje, vê uma clientela envelhecida e novas modalidades de apostas ocupando um espaço cada vez maior na vida dos mais jovens.

“O jogo do bicho está envelhecendo. Meus apostadores têm, em média, 50 anos. Esta semana perdi uma grande amiga e apostadora. É assim toda semana.”

A percepção do apontador é que o jogo perdeu a capacidade de renovar seus apostadores. O hábito que durante décadas fez parte da rotina de famílias não está sendo transmitido às novas gerações.

Os filhos dos antigos apostadores não aparecem na banca. “Não é que as pessoas não apostem, mas apostam em casa, no trabalho, em um bar, restaurante, tudo pelo celular. A banca, hoje, é um celular”, define. A frase resume a principal transformação que ele testemunha depois de 40 anos de profissão.

A banca virou um celular

O jogo do bicho tradicional depende de uma relação presencial. O apostador precisa procurar uma banca ou um apontador, fazer o jogo e voltar para conferir o resultado.

As bets e os jogos on-line, como o Tigrinho, inverteram essa lógica. A aposta está disponível no celular, a qualquer hora e em praticamente qualquer lugar. “Antes, o apostador precisava ir até mim. Agora, o jogo chega até ele, onde ele estiver.”

A mudança é especialmente perceptível entre os jovens. Nem mesmo a repercussão da série documental “Vale o Escrito – A Guerra do Jogo do Bicho” foi suficiente, segundo o apontador, para levar uma nova geração às bancas. A produção, lançada pelo Globoplay em 2023, conta a história do jogo do bicho no Rio de Janeiro e de famílias ligadas à contravenção.

“Muitos jovens me procuram perguntando sobre o que é o jogo do bicho por causa da série, mas não jogam.”

O problema, portanto, não é apenas a concorrência de novas modalidades. É também a falta de renovação. O jogo que durante décadas passou de pai para filho parece ter interrompido esse ciclo.

R$ 128 mil em uma única aposta

Apesar da queda no movimento, o apontador ainda guarda histórias de grandes prêmios. A mais recente aconteceu no início de agosto, quando um apostador ganhou R$ 128 mil na banca. Foi a maior quantia que ele já pagou nos últimos anos.

E o valor chama ainda mais atenção porque o apostador havia colocado apenas R$ 20. “Eu continuo pagando boas premiações aqui. Eu falo que minha banca dá muita sorte. No início de agosto, por exemplo, um apostador ganhou comigo R$ 128 mil. Foi a maior quantia que pagamos aqui nos últimos anos. E ele apostou apenas R$ 20”, revela.

A identidade do ganhador é preservada, mas o apontador lembra do episódio e do tamanho da premiação. “E ele nem veio buscar o dinheiro comigo. Ele buscou em outra banca. Só sei que ele não era de Goiânia.”

Perdas e ganhos

O apontador conta que seus clientes costumam apostar quantias pequenas. O maior apostador coloca algo em torno de R$ 100. Na maioria das vezes, os valores são bem menores, de R$ 5 ou R$ 10.

“É uma questão de diversão mesmo. Você joga para brincar e, quem sabe, ganhar um dinheiro para trocar um eletrodoméstico.”

Ele aproveita para contar uma história de quando conheceu o jogo do bicho. Certa vez, deu dinheiro para a mulher fazer uma aposta em determinada centena no primeiro prêmio. Ela queria comprar um tanquinho de lavar roupa.

“Dei uma quantia equivalente a uns R$ 10 hoje e falei que o prêmio ia virar um tanquinho. Mas ela jogou apenas R$ 1. Não acreditou no meu palpite. Ganhamos R$ 600 e deu para comprar o tanquinho. Se ela tivesse jogado os R$ 10, dava para ter comprado 10 tanquinhos”, conta, aos risos.

A história, contada quase como uma lembrança doméstica, resume o perfil das apostas que ele diz ter acompanhado durante décadas: valores pequenos, expectativa de um prêmio e, muitas vezes, um objetivo concreto.

História

O jogo do bicho foi criado em 1892, no Rio de Janeiro, por João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond. A ideia inicial era criar uma forma de atrair visitantes para o Jardim Zoológico de Vila Isabel. Cada ingresso dava direito a um bilhete associado a um animal.

A modalidade se popularizou e ultrapassou os limites do zoológico, passando a ser explorada nas ruas do Rio. O governo proibiu a prática em 1894.

Mais de 130 anos depois, o jogo continua presente no cotidiano brasileiro, embora seja considerado contravenção penal. O artigo 58 da Lei das Contravenções Penais prevê punição para quem explora ou realiza o jogo do bicho.

Atualmente, o Supremo Tribunal Federal discute a manutenção da ilegalidade do Jogo do Bicho, caça-níqueis e bingo. O ministro Flávio Dino, no dia 6 de agosto, pediu vista do processo e adiou a conclusão do julgamento.

Lista dos 25 bichos e grupos

01. Avestruz (dezenas 01, 02, 03, 04)

02. Águia (dezenas 05, 06, 07, 08)

03. Burro (dezenas 09, 10, 11, 12)

04. Borboleta (dezenas 13, 14, 15, 16)

05. Cachorro (dezenas 17, 18, 19, 20)

06. Cabra (dezenas 21, 22, 23, 24)

07. Carneiro (dezenas 25, 26, 27, 28)

08. Camelo (dezenas 29, 30, 31, 32)

09. Cobra (dezenas 33, 34, 35, 36)

10. Coelho (dezenas 37, 38, 39, 40)

11. Cavalo (dezenas 41, 42, 43, 44)

12. Elefante (dezenas 45, 46, 47, 48)

13. Galo (dezenas 49, 50, 51, 52)

14. Gato (dezenas 53, 54, 55, 56)

15. Jacaré (dezenas 57, 58, 59, 60)

16. Leão (dezenas 61, 62, 63, 64)

17. Macaco (dezenas 65, 66, 67, 68)

18. Porco (dezenas 69, 70, 71, 72)

19. Pavão (dezenas 73, 74, 75, 76)

20. Peru (dezenas 77, 78, 79, 80)

21. Touro (dezenas 81, 82, 83, 84)

22. Tigre (dezenas 85, 86, 87, 88)

23. Urso (dezenas 89, 90, 91, 92)

24. Veado (dezenas 93, 94, 95, 96)

25. Vaca (dezenas 97, 98, 99, 00)

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Cidades Goiânia
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