Pais desenvolvem ferramenta para agregar dados sobre filha autista e transformam tecnologia em negócio, em Goiânia
Pais perceberam que dados registrados durante as terapias poderiam ser organizados de forma digital
Ir direto pra matéria
Fichas de papel, anotações manuais e dificuldade para acompanhar a evolução da filha durante as terapias fizeram uma família de Goiânia buscar uma solução própria. Após o diagnóstico de autismo de Valentina, aos dois anos, a professora Sandra Paro e o companheiro, o analista de sistemas Vínicius Reis, criaram, em 2018, a ABA+, uma ferramenta de tecnologia que reúne e centraliza informações sobre o acompanhamento da menina.
A experiência também mudou a trajetória profissional de Sandra, que deixou o trabalho na área da educação e passou a se dedicar ao desenvolvimento de soluções voltadas ao acompanhamento de pessoas com autismo. “Não começamos pensando em criar uma empresa ou um produto para o mercado. Queríamos resolver um problema que vivíamos todos os dias”, explicou Sandra.
Segundo Sandra, os profissionais registravam os programas de ensino aplicados e, a cada tentativa, anotavam informações como respostas corretas, erros e os níveis de ajuda necessários para que Valentina desenvolvesse determinada habilidade. Esses dados fazem parte do acompanhamento baseado em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e ajudam os profissionais a observar a evolução da aprendizagem, identificar habilidades que precisam de mais atenção e avaliar quando uma estratégia deve ser ajustada.
O problema, segundo a mãe, era que todo esse processo dependia de registros manuais. Depois das sessões, era necessário organizar os dados, analisá-los e transformar as informações em decisões sobre o acompanhamento, o que tornava o trabalho mais demorado.
Na prática, isso dificultava que a equipe visualizasse rapidamente a evolução de Valentina e percebesse quando determinada estratégia precisava ser revista. Para Sandra, ter os dados organizados e acessíveis fazia diferença justamente porque as decisões sobre o acompanhamento dependiam dessas informações.

A primeira versão da ABA+
Foi ao acompanhar essa rotina que o marido de Sandra, o analista de sistemas Vinícius Reis, percebeu que a tecnologia poderia ajudar. A ideia inicial era resolver um problema da própria família: organizar os registros e facilitar a análise dos dados usados pelos profissionais que atendiam Valentina. “Eu estudei ABA e expliquei para ele criar a solução”, afirmou a mãe.
A primeira versão do sistema foi criada para atender a essa necessidade. A ferramenta passou a ser utilizada pela equipe que acompanhava a menina e, conforme foi sendo aprimorada e testada, a família percebeu que o problema também fazia parte da rotina de outras clínicas e profissionais.
Uma plataforma para centralizar informações
A companhia desenvolve softwares, conteúdos e recursos voltados a profissionais, famílias, escolas e outros ambientes ligados ao desenvolvimento humano e à neurodiversidade.
A proposta desenvolvida por Vinícius é centralizar essas informações. Hoje, segundo a empresa, a ABA+ reúne mais de 60 funcionalidades, entre elas o registro de dados das sessões, acompanhamento de acertos e erros, níveis de ajuda, gráficos, relatórios, avaliações e programas de ensino.
A plataforma também possui recursos para organização de agendas, checklists, registros de fotos, vídeos e áudios, transcrição de informações por áudio e compartilhamento de diretrizes entre integrantes da equipe. Supervisores, terapeutas, gestores, escola e família também podem acessar as informações em um mesmo ambiente, de acordo com as permissões definidas para cada usuário.
Com isso, atividades que antes dependiam de fichas, pastas e conferências manuais passaram a ser concentradas em um sistema digital.

Uma necessidade que virou profissão
A experiência com Valentina também mudou o caminho profissional de Sandra. Depois de mais de duas décadas na educação, atuando principalmente com comunicação, ela deixou a sala de aula e passou a trabalhar com soluções relacionadas ao autismo e à neurodiversidade. Atualmente, é diretora institucional da ABA+ Inteligência Afetiva.
Para ela, a mudança não aconteceu apenas no campo profissional. A experiência como mãe também transformou a maneira como passou a enxergar a educação e a inclusão. “Ser mãe de uma criança autista me colocou diante da inclusão de outra perspectiva: não apenas como profissional, mas como alguém que vivencia diariamente os desafios, as conquistas e as potencialidades de uma pessoa neurodivergente”, afirma.
Sandra diz que passou a compreender a inclusão para além da presença de uma pessoa em determinado espaço. Para ela, é necessário garantir condições para que essa pessoa participe, aprenda, se comunique, desenvolva autonomia e tenha sua individualidade respeitada.
Oito anos da ABA+
Neste mês de setembro, a empresa completa oito anos de atuação. Para marcar a data, eles lançaram a campanha “Construindo o Futuro com Afeto”, com fotografias e conteúdos audiovisuais produzidos em diferentes pontos de Goiânia.

A campanha utiliza uma família de elefantes criada para a identidade da empresa em releituras de cenas conhecidas do cinema e da cultura pop. A Praça Cívica recebeu uma referência a “Uma Aventura Lego”, enquanto o Parque Flamboyant ganhou uma inspiração em “E.T. – O Extraterrestre”. No Bosque dos Buritis, a campanha faz referência a “Alice no País das Maravilhas”.
A Praça do Sol foi cenário para uma releitura de “O Mágico de Oz”, enquanto o Beco da Codorna recebeu elementos inspirados em “Mary Poppins”. Uma faixa de pedestres próxima ao Goiânia Shopping também foi usada para recriar a imagem de Abbey Road, dos Beatles.
“Construir o futuro com afeto é entender que desenvolvimento não acontece sozinho. Ele é feito de pequenos passos, de pessoas que caminham juntas, de acolhimento, aprendizado e conexões que deixam marcas ao longo da vida”, reforça Sandra.
Leia também: