‘Tenho o maior orgulho’: gari da Comurg se forma em Enfermagem aos 36 anos em Goiânia
Aos 36 anos, gari da Comurg conclui Enfermagem após anos conciliando trabalho, faculdade e atividades para complementar a renda
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Luiz Junio Cardoso Teles, de 36 anos, trabalha há 16 anos na Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) e acaba de concluir a graduação em Enfermagem. Para registrar a conquista, levou o uniforme de gari para a sessão de fotos da formatura e posou com a roupa que usa no trabalho. A formatura ocorreu no dia 3 de setembro, em Goiânia.
Em entrevista ao Mais Goiás, Junio contou que chegar ao diploma exigiu conciliar a jornada de trabalho com a faculdade e outras atividades para complementar a renda. Durante a graduação, também enfrentou dificuldades para cumprir o estágio obrigatório e chegou a considerar abandonar o curso.
“Quando cheguei a pensar em desistir, foi pelo estresse, pelo cansaço e pela situação que estava acontecendo comigo. Eu sabia que seria difícil, mas, com o tempo, percebi que os obstáculos eram maiores do que eu imaginava”, relata.
Rotina entre trabalho, faculdade e bicos
Durante parte da graduação, Junio trabalhava na escala 12×36, das 18h às 6h. Depois do expediente, seguia para o treino de jiu-jitsu e, na sequência, fazia entregas por aplicativo até o horário do almoço.

Depois, descansava algumas horas antes de retomar os estudos. Além da faculdade, também fazia aulas de inglês. Nos fins de semana, aproveitava o tempo livre para complementar a renda com serviços como corte de grama, limpeza de piscinas e manutenção de cercas.
“Era muito puxado, puxado mesmo. Porque eu tirava de segunda a sexta para trabalhar e estudar. Chegava no final de semana, eu fazia bico no sábado, no domingo eu tirava o dia para revisar matéria e fazer faxina na casa”, conta.

Antes da escala 12×36, a rotina era diferente. Segundo Junio, ele trabalhava das 16h às 22h e aproveitava as manhãs para fazer entregas. A mudança de horário exigiu uma nova organização entre trabalho, descanso e faculdade.
O estágio obrigatório foi uma das etapas mais difíceis. Junio conta que precisou negociar com um superior uma mudança no horário de trabalho para conseguir cumprir a carga exigida pela faculdade. Segundo ele, precisava de duas horas de ajuste, mas não conseguiu a liberação e chegou a procurar a Justiça.
“Eu fui até na Justiça para pedir para ele me deixar entrar uma hora mais tarde, que é o direito de estágio… mas eu só pedi duas horas. Esse foi o meu maior desafio”, afirma.
Segundo o recém-formado, a situação provocou faltas, uma advertência verbal e ameaça de suspensão. Ele afirma ainda que procurou o Ministério Público do Trabalho e a corregedoria para buscar uma solução para o caso, mas não recebeu retorno.
Junio relata que a situação também afetou sua rotina pessoal. Em determinado momento, pensou em trancar a faculdade e utilizar uma licença-prêmio para concluir o curso com menos pressão.
“Eu não dormia direito, pensando o que eu ia fazer amanhã, se eu ia para a faculdade, se eu ia para o estágio… minha cabeça ficou muito cheia. Já cheguei a chorar, ficava com raiva”, relata.
Apoio para concluir a graduação
A continuidade do curso contou com o apoio de professores, familiares e colegas de trabalho. Na faculdade, Junio afirma que os professores ajudaram a reorganizar parte da rotina e permitiram que ele compensasse atividades para acompanhar as exigências do curso.
A mãe também teve um papel importante na decisão de seguir até o fim. Segundo Junio, ela sempre quis ver um dos filhos com formação superior e isso se tornou uma das razões para que ele concluísse a graduação.

“Eu lembrei que eu já tinha perdido tempo demais, lembrei da minha mamãe… então eu falei assim: não, tenho que adiantar isso. Porque se alguma coisa acontecer, minha mãe morrer antes, eu vou ficar com um peso na consciência. Eu deveria ter terminado, pelo menos mamãe ia ficar contente”, conta.
Os colegas também acompanharam de perto os anos de estudo. Junio conta que alguns deles sempre perguntavam sobre a faculdade e o incentivavam durante os momentos mais difíceis.

“Por mais que eu ficasse quieto, calado no meu canto, elas sempre perguntavam: ‘E aí, como é que tá? Parou não, né? Tá difícil e tal?’. Sempre me davam aquele empurrãozinho”, lembra.
“Eles pegaram na minha mão, me ajudaram a tirar dentro do poço que eu já estava… foi onde eu pensei: quer saber de uma? Só falta um ano, eu não vou desistir agora, não.”
Da trajetória profissional à Enfermagem
O interesse pela Enfermagem também tem relação com a família. Junio conta que a área da saúde está presente principalmente entre as mulheres da família materna. Antes da graduação, ele já havia concluído o curso técnico de Enfermagem.
A trajetória profissional, porém, começou em outras atividades. Durante a infância e a adolescência, estudava pela manhã e passava as tardes em uma chácara, onde ajudava nos serviços do local. Também aprendeu a costurar com a mãe. Depois, ao passar no concurso para trabalhar na limpeza urbana, deixou a atividade na chácara e seguiu uma carreira mais estável.
A graduação demorou mais do que ele havia planejado por questões pessoais e profissionais. Agora, enquanto aguarda o diploma, pretende buscar oportunidades na área da saúde sem deixar imediatamente o trabalho atual. Ele considera atuar em hospitais ou como cuidador de idosos.

“Assim que eu pegar o diploma, eu vou conciliar. Tenho algumas indicações para trabalhar em algum hospital. Eu queria muito trabalhar no Vaca Brava”, conta.
A longo prazo, pretende prestar concurso para atuar como enfermeiro. Caso consiga uma vaga, deixará o cargo de gari para seguir na nova profissão.
“Na hora que eu passar no concurso de enfermeiro, eu vou abrir mão da minha vaga como gari, vou seguir minha vida como enfermeiro”, afirma.
Outra possibilidade é continuar ligado à companhia, mas atuando na área da saúde. Junio diz que gostaria de trabalhar no Centro Médico e atender os próprios colegas.
“Eu queria juntar o útil ao agradável e poder ajudar a Comurg com o meu currículo agora”, diz.
Entre as áreas da Enfermagem, Junio afirma ter maior interesse pelo cuidado com idosos. A escolha também tem relação com a mãe, que, segundo ele, está envelhecendo e foi uma das principais motivações para que concluísse a graduação.
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