Quarta-feira, 09 de Setembro de 2026
**Chapéu:** HISTÓRIA DE GOIÂNIA

Urna enterrada no coração de Goiânia em 1933 guarda relíquias valiosas; descubra quais

Uma urna com documentos da fundação de Goiânia foi colocada na pedra fundamental da cidade em 24 de outubro de 1933. Registros históricos apontam que a cápsula guarda ata, jornais, cartões, moedas e outros vestígios daquele momento

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Vista aérea da Praça Cívica, no centro de Goiânia, área onde foi lançada a pedra fundamental da capital em 1933 (Foto: Governo de Goiás)

Quem passa pela Praça Cívica provavelmente não imagina que parte da história do nascimento de Goiânia permanece debaixo da terra. Uma urna colocada na pedra fundamental da nova capital em 24 de outubro de 1933 guarda documentos, jornais, moedas e outros registros daquele dia. Relatos históricos situam a cápsula sob a área ocupada atualmente pelo Palácio das Esmeraldas, sede do Governo de Goiás.

A urna acompanha Goiânia desde antes de a cidade ter oficialmente esse nome. Quando Pedro Ludovico Teixeira lança a pedra fundamental, em 1933, a futura capital ainda é tratada nos documentos como “nova cidade” ou “futura capital”. O município de Goiânia só seria criado em agosto de 1935.

E o que foi colocado debaixo da terra naquele 24 de outubro? Registros históricos apontam uma cópia da ata da cerimônia, cartões, jornais e moedas da época. Há ainda referência a um exemplar de “Goyania”, poema épico publicado em 1896 que antecede a própria capital e é associado posteriormente à origem de seu nome.

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Urna marca o nascimento de Goiânia

Lançamento da pedra fundamental de Goiânia, em 24 de outubro de 1933, na área da atual Praça Cívica (Foto: Reprodução/Goiânia, ontem e hoje)
Lançamento da pedra fundamental de Goiânia, em 24 de outubro de 1933, na área da atual Praça Cívica (Foto: Reprodução/Goiânia, ontem e hoje)

O episódio ocorre em 24 de outubro de 1933, cinco meses depois de o Governo de Goiás definir a área onde seria construída a nova capital. O Decreto Estadual nº 3.359, de 18 de maio daquele ano, escolhe terras próximas a Campinas, às margens do Córrego Botafogo e compreendidas pelas fazendas Crimeia, Vaca Brava e Botafogo. O urbanista Attilio Corrêa Lima fica responsável pelo planejamento da cidade.

O ponto escolhido para o lançamento da pedra fundamental fica em um terreno elevado. A história oficial publicada pelo Governo de Goiás identifica esse local como a área onde atualmente se encontra o Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica.

A data também carrega significado político. Pedro Ludovico escolhe 24 de outubro para relacionar a construção da nova capital ao terceiro aniversário do movimento de 1930 que leva Getúlio Vargas ao poder e altera a estrutura política brasileira.\

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O que foi colocado dentro da urna?

Um dos registros mais detalhados aparece em relatos que recorrem ao livro “Como Nasceu Goiânia”, de Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro, publicado ainda na década de 1930.

Depois da cerimônia da pedra fundamental, uma cópia da ata dos acontecimentos daquele dia teria sido colocada dentro da urna. Junto ao documento foram guardados cartões, jornais e moedas daquele período. Depois disso, o conjunto foi fechado e selado.

São objetos comuns quando observados isoladamente, mas que passam a funcionar como uma fotografia material de Goiás em 1933. Os jornais preservam o noticiário do período; as moedas registram o sistema monetário daquele momento; e a ata documenta quem participa do ato que inicia oficialmente a construção da nova capital.

Um registro publicado pelo Diário do Congresso Nacional em 1991 acrescenta outro item à história: um exemplar do poema épico “Goyania”, de Manuel Lopes de Carvalho Ramos, teria sido colocado na “urna histórica” durante o lançamento da pedra fundamental.

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Um livro de 1896 pode estar enterrado junto com a urna

“Goyania” é publicado em 1896, na cidade do Porto, em Portugal, décadas antes de Pedro Ludovico decidir transferir a capital para a região de Campinas.

A obra é de Manuel Lopes de Carvalho Ramos e aborda Goiás em forma de poema épico. Acervos dedicados à literatura goiana registram que um exemplar foi destinado à urna relacionada à pedra fundamental da futura capital.

A relação entre o livro e o nome da cidade acrescenta uma camada à história. Estudos sobre a origem do topônimo apontam que “Goiânia” já existia como título da obra muito antes de a capital ser construída. Em 1933, o nome também aparece entre as sugestões apresentadas no concurso promovido pelo jornal O Social para batizar a nova cidade.

O resultado da votação, porém, não determina a escolha. “Petrônia”, referência a Pedro Ludovico, recebe 105 votos, enquanto “Goiânia” obtém menos de dez. Mesmo assim, quando o município é criado em 1935, o interventor escolhe Goiânia e não explica publicamente a razão da decisão.

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Onde exatamente está a urna?

Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica, ocupa a área onde foi lançada a pedra fundamental de Goiânia em 1933 (Foto: Governo de Goiás)
Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica, ocupa a área onde foi lançada a pedra fundamental de Goiânia em 1933 (Foto: Governo de Goiás)

Esse é o ponto que torna a história ainda mais curiosa.

A documentação oficial do Governo de Goiás confirma que a pedra fundamental é lançada “em pleno altiplano, onde atualmente se encontra o Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica”. Isso coloca o marco inicial da cidade sob a área ocupada posteriormente pela sede do governo estadual.

Relatos publicados ao longo das décadas são mais específicos. Em 1995, reportagem que recupera as informações de Ofélia Sócrates afirma que a pedra fundamental estaria exatamente sob o elevador do Palácio das Esmeraldas. Dois anos depois, outro registro histórico repete a localização e descreve a cápsula como uma urna com ata, cartões, jornais e moedas.

Há, portanto, duas escalas de informação. A localização sob a área do Palácio das Esmeraldas encontra respaldo na história oficial. A indicação específica de que a urna permanece sob o elevador vem de relatos históricos posteriores.

Não foi localizado pelo Mais Goiás, nas fontes públicas consultadas, registro recente de inspeção, abertura ou retirada da urna.

Urna foi aberta alguma vez?

Também não há, nas fontes públicas consultadas, registro de que a cápsula tenha sido retirada ou aberta desde o lançamento da pedra fundamental.

Isso diferencia essa urna de outros objetos históricos relacionados à fundação e ao Batismo Cultural de Goiânia. Uma urna ligada às cerimônias de 1942, por exemplo, integra atualmente o acervo do Museu Zoroastro Artiaga e teve seu conteúdo catalogado.

A de 1933 pertence a outro episódio. Ela marca o início da construção física de Goiânia e está ligada à própria pedra fundamental.

Sem registro de abertura, não é possível saber atualmente em que condições estão os papéis, jornais, moedas e demais objetos colocados no interior da estrutura há quase 93 anos.

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Goiânia ainda nem tinha nome oficial

Outro detalhe ajuda a dimensionar a idade da cápsula. No dia em que ela é colocada no solo, Goiânia ainda não existe formalmente como município.

A pedra fundamental é lançada em outubro de 1933. O município só nasce legalmente em 2 de agosto de 1935, quando o Decreto Estadual nº 327 funde Campinas, Hidrolândia e partes dos territórios de municípios vizinhos para formar Goiânia.

A transferência definitiva da capital acontece em 1937. Já o Batismo Cultural, responsável por apresentar a nova cidade ao restante do país, ocorre apenas em julho de 1942.

Isso significa que a urna está relacionada ao primeiro desses grandes marcos: o momento em que a capital ainda existia principalmente como projeto e começa a sair do papel.

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Uma cápsula do tempo sem data para ser aberta

Ao contrário das cápsulas do tempo contemporâneas, não foi localizado documento estabelecendo uma data para abertura da urna da pedra fundamental de Goiânia.

Ela não parece ter sido criada com uma contagem regressiva para ser recuperada 50 ou 100 anos depois. A prática de guardar atas, jornais, moedas e outros objetos nas pedras fundamentais era utilizada para registrar o momento de criação de edifícios, instituições e cidades.

No caso de Goiânia, esses materiais passam quase um século debaixo de uma das áreas mais simbólicas da capital.

Acima deles, a cidade cresce. O Palácio das Esmeraldas é construído, a Praça Cívica ganha seus edifícios, Goiânia supera o projeto inicial para dezenas de milhares de moradores e se transforma em uma metrópole.

Debaixo da área onde tudo começa, porém, permanece uma pequena coleção de objetos escolhidos em 1933 para registrar o dia em que Goiânia começa a ser construída.

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Goiânia; história de Goiânia; Praça Cívica; Palácio das Esmeraldas; Pedro Ludovico; pedra fundamental; patrimônio histórico; fundação de Goiânia; Goiânia 1933; Centro de Goiânia