Rapaz morto pelo pai em Trindade levava trauma de ter sido trancado no quarto quando a mãe desapareceu
Relato de Thaliton, morto neste ano, passou a integrar a investigação que apura a motivação para o assassinato dele em Trindade
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Muito antes de ser assassinado a tiros em uma chácara na zona rural de Trindade, em 23 de janeiro deste ano, Thaliton Henrique Dias Machado carregava uma lembrança da infância que, segundo a Polícia Civil, nunca deixou de fazer sentido para ele. Era a memória do dia em que sua mãe desapareceu numa fazenda em Pires do Rio, há cerca de 20 anos.
Segundo o delegado Tiago Escandolhero, responsável pelas investigações, Thaliton contava à esposa que, quando criança, foi levado pelo pai, Ozanan Ananias Martins, junto com a mãe e os dois irmãos para uma chácara na região de Pires do Rio. Durante o trajeto, o casal teria discutido.
Ao chegarem ao imóvel, os três filhos foram trancados em um quarto. Pouco tempo depois, conforme o relato que Thaliton repetia à família, ele ouviu um grito feminino de socorro. Foi a última lembrança que guardou da mãe.
“A vítima relatava para a viúva que ouviu um grito de socorro da mãe. Depois disso, ela nunca mais apareceu. Desde então, é uma incógnita o que realmente aconteceu com ela”, afirmou o delegado.
A mulher, identificada como Aparecida Almeida Dias, desapareceu na época sem que seu corpo fosse encontrado.

Lembrança
O delegado afirma que ele tinha convicção de que o pai estava envolvido no desaparecimento da mãe e, nos meses que antecederam sua morte, passou a cobrar uma dívida de aproximadamente R$ 50 mil com o pai. Conforme a investigação, ele também ameaçava procurar a polícia para relatar suas suspeitas caso não recebesse o dinheiro.
Para o delegado, essa sequência de acontecimentos ajuda a explicar a motivação do homicídio ocorrido em janeiro deste ano.
“Nós acreditamos que, na cabeça do Ozanan, aquele crime de 20 anos era um crime perfeito. Quando o filho começou a cobrar a dívida e disse que procuraria a polícia, ele ficou com receio de que tudo viesse à tona”, afirmou Tiago Escandolhero.

Polícia tenta reconstruir o caso
Apesar da nova linha investigativa, o delegado Thiago Escandolhero afirma que ainda não existem provas materiais capazes de confirmar o que aconteceu com Aparecida. A equipe policial tenta localizar o boletim de ocorrência registrado na época para entender como o desaparecimento foi tratado.
“Nós queremos saber se foi registrado apenas como desaparecimento ou como homicídio. Acreditamos que tenha sido tratado como desaparecimento. A versão apresentada na época era de que ela teria se afogado, mas até essa narrativa chama a atenção”, disse o delegado.
Segundo ele, familiares chegaram a afirmar que a mulher teria desaparecido em um rio onde havia muitas sucuris, versão que hoje desperta dúvidas no delegado.
Buscas seguem sob sigilo
A Polícia Civil informou que recebeu informações recentes que podem auxiliar na conclusão do desaparecimento de Aparecida Almeida, mas evita divulgar detalhes para não comprometer eventuais diligências.
O delegado também pondera que, devido ao tempo transcorrido, uma responsabilização criminal pelo desaparecimento pode não ser mais possível. Ainda assim, a corporação busca esclarecer o que aconteceu com Aparecida e entender como esse episódio pode ter desencadeado o assassinato do próprio filho duas décadas depois.
Relembre o caso
Thaliton Henrique Dias Machado foi morto a tiros na noite de 23 de janeiro deste ano, quando saiu até a horta da chácara onde morava, na zona rural de Trindade.
A Polícia Civil prendeu o pai da vítima, Ozanan Ananias Martins, apontado como mandante do crime, além da companheira dele, Simone Viana Silva. O suposto executor, Wanderson da Silva Sousa, também foi preso e, segundo a investigação, confessou informalmente ter recebido R$ 15 mil para matar Thaliton, embora depois tenha optado por permanecer em silêncio na delegacia.
Para os investigadores, o homicídio foi motivado pelo temor de que o filho denunciasse o pai pelo desaparecimento da própria mãe, ocorrido há cerca de 20 anos.