Mulher que deixou Anápolis para ser faxineira na Irlanda vira dona de empresa com 187 funcionários
Após quase oito anos na Irlanda, Keyla voltou ao Brasil, passou por diferentes negócios e se encontrou no setor automotivo
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Uma dívida que ameaçou até a casa da família levou a goiana Keyla Barros, 44 anos, a deixar Anápolis e embarcar para a Irlanda, em 2003. O plano era trabalhar por um ano, quitar os compromissos e voltar ao Brasil para abrir uma academia. O que ela não imaginava era que os quase oito anos no país mudariam sua forma de enxergar o trabalho e ajudariam a construir as bases do negócio que comanda hoje. Atualmente, Keyla está à frente de uma empresa com 187 funcionários, presente em 37 concessionárias de seis cidades e responsável por mais de 8 mil lavagens de veículos e 3 mil instalações de películas por mês.
“Hoje, olhando toda a trajetória, a dívida era o primeiro degrau do processo que precisava passar para chegar onde estou hoje. Deus sempre escreve certo por linhas retas, nós que lemos torto. Através dela que saí da minha zona de conforto. Na época, o sentimento era de revolta. Hoje, é um sentimento de gratidão por ter conseguido passar pelo processo”, afirma.
Ao Mais Goiás, a empresária contou que não se lembra do valor da dívida, mas acreditava que conseguiria quitá-la em um ano e ainda juntar dinheiro para abrir a academia. Na época, a dificuldade financeira era tanta que faltava dinheiro até para a passagem de ida. “Minha vó teve que pedir uma escritura de alguém emprestada para poder dar de garantia na agência em que eu comprei a passagem.”
Criada pelos avós desde os três meses de idade, Keyla começou a trabalhar aos 17 anos, como vendedora de roupas, recebendo um salário de pouco mais de R$ 200. Ela havia iniciado o curso de Educação Física na UniEvangélica, mas percebeu que a família não teria condições de bancar a faculdade.
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Como surgiu a dívida
Um negócio informal de venda de perfumes foi o que endividou a empresária. Keyla havia emprestado cheques em seu nome para a compra de mercadorias, mas os pagamentos deixaram de ser feitos e os credores passaram a cobrá-la. A situação chegou ao ponto de a família correr o risco de perder o imóvel.
Como os compromissos estavam em seu nome, ela decidiu assumir a dívida, trancou a faculdade e, em 2003, embarcou para a Irlanda. Uma prima foi quem ajudou com um lugar para que ela pudesse morar e trabalhar no país.
Keyla chegou à Irlanda para trabalhar como faxineira em um supermercado. Com o tempo, recebeu promoções, fez cursos e chegou ao cargo de terceira gerente do estabelecimento. A experiência também influenciou a forma como passou a enxergar o trabalho e os negócios.
“Como convivia com muitos irlandeses, acabei adquirindo muito da cultura deles. Lá na Irlanda, aprendi a confiar mais em processos claros, pontualidade e responsabilidade individual, a forma como enxergo os negócios, a organização e o compromisso de cada pessoa com aquilo que foi combinado. São aprendizados que hoje procuro levar para os meus negócios”, conta.

Volta ao Brasil e início no setor automotivo
Depois de quase oito anos na Irlanda, Keyla voltou ao Brasil. A ideia da academia já havia ficado para trás. Em Anápolis, abriu um restaurante, mas fechou o negócio depois de perceber que não conseguiria comandar praticamente sozinha de toda a operação, das compras no Ceasa à cozinha.
Keyla então decidiu comprar um lava-jato, no ano de 2011. A experiência no setor automotivo abriu caminho para a criação da 4Kar, sua empresa. As coisas começaram a melhorar quando ela foi chamada para assumir o atendimento de uma concessionária às vésperas do lançamento de um veículo. Até então, ela não trabalhava diretamente com grandes grupos automotivos. A oportunidade fez com que aprendesse as particularidades do atendimento a carros novos e abrisse espaço para novos contratos.
A primeira concessionária com a qual trabalhou foi a Hyundai de Anápolis. Na época, conheceu Frederico Wascheck, então diretor da empresa, que posteriormente lhe deu uma nova oportunidade. O negócio continuou crescendo até que o então gerente da Toyota a convidou para assumir a operação de Goiânia, considerada a maior do grupo.
“Eu nunca tive dúvida que esse negócio daria certo, afinal nós resolvemos problemas das pessoas. Mas, quando a certeza bateu, foi quando o gerente da Toyota na época me convidou para assumir a operação de Goiânia, a maior do grupo. Ali eu tinha certeza do cuidado de Deus por mim”, relata.
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Expansão e novos desafios
A 4Kar atua dentro das concessionárias e atende clientes das marcas e pessoas que procuram diretamente pelos serviços de lavagem, proteção e estética automotiva. Atualmente, está presente em 37 lojas da Saga em Goiânia, Aparecida de Goiânia, Anápolis, Goianésia, Uberlândia e Brasília.
A operação conta com 187 colaboradores e realiza mais de 8 mil lavagens de veículos e 3 mil instalações de películas por mês, além de outros serviços. Keyla também investe na profissionalização dos trabalhadores e na criação de planos de desenvolvimento para cada função.
Em 2025, a empresária descobriu um câncer na tireoide e precisou passar por cirurgia e sessões de iodoterapia. Segundo ela, esse foi o maior desafio que enfrentou desde a criação da empresa. Ao mesmo tempo em que lidava com o tratamento, Keyla assumiu novas operações da empresa em Brasília. “Deus mais uma vez me sustentou”, afirma.
Ao olhar para a própria trajetória, Keyla diz que hoje enxerga a dívida que marcou o início da vida adulta de outra maneira. O episódio, que na época foi vivido com revolta e medo, acabou levando-a a sair da zona de conforto e buscar uma alternativa fora do país.
Para a empresária, a principal mensagem que fica da própria história é simples: “Nunca desista de lutar pelos seus sonhos.”
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