‘Mundo ficou mais colorido’: homem trans diz que cirurgia mudou relação com próprio corpo, em Aparecida
Jovem conseguiu na Justiça o direito ao ressarcimento de parte do valor pago pela mastectomia. Decisão é do TJ de Goiás
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“Eu me senti mais vivo. Era como se, de repente, o mundo tivesse ficado mais colorido”. É assim que Vinicius Barros (nome fictício) descreve o que sentiu depois de passar pela mastectomia masculinizadora. Homem trans de Aparecida de Goiânia, ele conta que a cirurgia marcou uma transformação na forma como se vê, se veste e se relaciona com o próprio corpo. A história ganha novo capítulo após a decisão do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) que reconheceu a finalidade terapêutica do procedimento e determinou o ressarcimento, dentro dos critérios do Ipasgo, de parte do valor de R$ 26 mil pago por ele.
Antes da cirurgia, Vinicius diz que convivia diariamente com uma sensação de não pertencimento ao próprio corpo. O desconforto aparecia tanto emocionalmente quanto em situações simples, como escolher uma roupa.
“Era algo que pesava, incomodava e me causava um sofrimento profundo. Existia um desespero constante pela vontade de retirar aquilo, de me livrar daquela parte do meu corpo que me fazia mal e me adoecia emocionalmente. Não era algo que eu pudesse simplesmente tirar quando não me sentisse bem, como acontece com uma roupa que não ficou boa. Eu precisava conviver diariamente com algo que, para mim, não representava quem eu era”, conta o homem.
Com o passar do tempo, a possibilidade de fazer a cirurgia deixou de ser apenas um sonho. Vinicius já fazia tratamento hormonal e começou a buscar informações sobre outras etapas do processo de afirmação de gênero.
Foi pelas redes sociais que ele encontrou conteúdos sobre os direitos de pessoas trans e soube que procedimentos relacionados à transição poderiam ser discutidos com o plano de saúde. Ele procurou orientação e também questionou diretamente o Ipasgo sobre a possibilidade de realizar a cirurgia.
Dificuldades para conseguir exames
Vinicius recebeu a informação de que a retirada das mamas era autorizada pelo plano em situações relacionadas a doenças, como câncer, mas o procedimento que ele buscava foi considerado estético.
A experiência também mostrou dificuldades em outras etapas do tratamento. Durante o acompanhamento com um endocrinologista, um exame solicitado pelo médico não pôde ser lançado normalmente no sistema do Ipasgo porque os dados cadastrais de Vinicius indicavam o sexo masculino, enquanto o exame era relacionado a órgãos femininos.

“Ficou evidente que o próprio sistema deles não está preparado para as pessoas trans”, afirma.
Depois de procurar atendimento presencialmente, segundo ele, um funcionário precisou incluir uma observação no cadastro para indicar que Vinicius era uma pessoa trans e que aqueles exames precisavam ser realizados.
Cirurgia veio depois de dores e alergias
Enquanto buscava informações sobre a possibilidade de realizar o procedimento, Vinicius também enfrentava problemas físicos. Ele relata que sentia dores constantes e tinha alergias na região do peito. Para tentar lidar com o desconforto, usava pomadas e bandagens para comprimir as mamas.
Na consulta com o médico que faria a cirurgia, ele recebeu a orientação de que o procedimento deveria ser realizado o quanto antes. Vinicius conta que saiu do consultório preocupado porque não tinha condições financeiras de arcar sozinho com o custo.
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A família decidiu ajudar. Uma tia o acompanhou na consulta e se ofereceu para parcelar o valor nos cartões dela e da avó. O custo infromado pelo média seria em torna de R$ 30 mil.
“Eu não escutei nada, porque estava com tanta vergonha por causa da situação. Só queria chorar e fazer esse procedimento pra acabar com a minha dor”, relata.
Mudanças que pareciam simples
O que aconteceu depois do procedimento, segundo Vinicius , foi percebido em situações que antes pareciam distantes ou difíceis.
“As alergias desapareceram, assim como as dores e o desconforto que eu sentia por precisar usar bandagens para comprimir os seios. Comecei a me reconhecer mais no meu próprio corpo e a sentir uma liberdade inexplicável”, conta.
Para ele, poder ficar sem camisa passou a ter um significado que vai além da aparência. “Poder ficar sem camisa pode parecer algo completamente comum e insignificante para algumas pessoas, mas, para mim, representa algo enorme. É uma liberdade difícil de explicar para quem nunca precisou esconder uma parte do próprio corpo para conseguir se sentir minimamente confortável”.
A mudança também chegou na rotina. O homem conta que passou a frequentar a academia com mais confiança e conseguiu realizar um desejo antigo de ir à praia sem precisar esconder o corpo.
“São coisas que podem parecer simples para outras pessoas, mas que, para mim, representam uma conquista enorme e uma verdadeira sensação de liberdade. Minha autoestima melhorou bastante, principalmente porque já havia passado por diversas situações de constrangimento por causa do meu corpo. Meu bem-estar também mudou de forma significativa”, explica.
Decisão da Justiça veio depois da cirurgia
Foi durante a recuperação que Vinicius decidiu procurar orientação jurídica para saber se poderia recuperar parte do dinheiro gasto com o procedimento. O advogado do rapaz explica que ele primeiro tentou obter o ressarcimento diretamente com o Ipasgo, mas o pedido foi negado. Depois, a questão foi levada para a Justiça.

Em primeira instância, o pedido foi rejeitado. No recurso, porém, o TJGO reconheceu que a mastectomia masculinizadora tem finalidade terapêutica.
“Um dos pontos mais relevantes do acórdão é justamente reconhecer que a mastectomia masculinizadora, quando clinicamente indicada no processo de afirmação de gênero, possui natureza terapêutica e não pode ser tratada simplesmente como procedimento estético”, afirma o advogado.
O Tribunal não determinou o pagamento imediato dos R$ 26 mil. O valor do ressarcimento ainda será calculado conforme a tabela do Ipasgo da época da cirurgia, considerando um procedimento equivalente e respeitando o limite do que Vinicius efetivamente pagou.
Segundo Tiago, o processo ainda pode ter novos desdobramentos porque o Ipasgo pode recorrer da decisão.
“Quero poder somente ser eu’”
Para o homem, a importância do caso não está no dinheiro que poderá receber. Ele diz que decidiu procurar a Justiça também pensando em outras pessoas que podem enfrentar dificuldades semelhantes.
“Quando abri o processo sabia que poderia perder ou ganhar, que algumas pessoas da sociedade achariam absurdo, que poderiam não compreender. Mesmo sabendo das possibilidades, ainda segui em frente, porque abre caminhos a outras pessoas que hoje estão passando por algo parecido. Só quem é da diversidade sabe a luta que é para ser você mesmo. Quero acordar em um dia que não tenha que lutar pra ser, que eu possa somente ser eu”, reforça Vinicius.
Hoje, ele diz que ainda enfrenta situações de preconceito, mas percebe uma diferença importante na forma como consegue viver a própria identidade. E, para quem passa por situações parecidas, ele deixa uma mensagem: “Conheça os seus direitos e busque a sua dignidade”.