Sexta-feira, 11 de Setembro de 2026
CIÊNCIA

Polícia de GO avalia construir laboratório com tecnologia para coletar pistas de crime em insetos

Insetos encontrados em cadáveres podem fornecer pistas sobre o tempo de morte, o ambiente onde o corpo esteve e até a presença de drogas

Luanna Marques
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
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Moscas e besouros encontrados em um cadáver podem se transformar em peças importantes para uma investigação policial. Em Goiás, a entomologia forense já é utilizada em alguns casos, embora o Estado ainda não tenha um laboratório específico para realizar esse tipo de análise. A Polícia Científica, porém, já estuda a implantação de uma unidade voltada para a área.

A iniciativa foi formalizada pela Portaria nº 014/2026, que criou um grupo de trabalho para estudar a viabilidade do laboratório, definir as etapas necessárias para sua implantação e estabelecer diretrizes operacionais. Posteriormente, a Portaria nº 025/2026 alterou a composição do grupo. O projeto ainda está na etapa de estudos e planejamento.

Segundo o perito criminal Davi Rodrigues, que possui doutorado e atualmente realiza pós-doutorado com pesquisas relacionadas à área, o trabalho pode começar ainda no local onde o cadáver é encontrado. Larvas, pupas e outros vestígios entomológicos associados ao corpo podem ser coletados e posteriormente analisados para identificar as espécies presentes e determinar seus estágios de desenvolvimento.

A partir dessas informações, é possível estimar há quanto tempo ocorreu a colonização do cadáver pelos insetos. Esse dado pode auxiliar na estimativa do chamado intervalo pós-morte mínimo (IPMmin), ou seja, um período mínimo transcorrido desde a morte.

“Cada espécie de mosca tem um ciclo de vida e uma velocidade de desenvolvimento que dependem de fatores ambientais, principalmente da temperatura. Então, quando encontramos uma larva ou uma pupa, podemos estudar em que fase do desenvolvimento aquele inseto está e estimar sua idade”, explica Davi.

Davi Rodrigues (Foto: Reprodução)

Segundo ele, em muitas espécies de interesse forense, as fêmeas adultas localizam o cadáver e depositam seus ovos, que posteriormente eclodem e dão origem às larvas. Essas larvas passam por diferentes estágios de desenvolvimento, chamados de ínstares, até atingirem a fase de pupa e, posteriormente, de inseto adulto.

Como cada espécie apresenta características próprias de desenvolvimento, identificar corretamente a espécie e determinar o estágio em que o inseto se encontra fornece informações importantes para a investigação.

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Margem de erro

A análise entomológica não determina a hora exata em que uma pessoa morreu. Existe sempre uma incerteza associada à estimativa, que depende de diferentes fatores, como temperatura, umidade, exposição do cadáver, condições ambientais, acesso dos insetos ao corpo e até mesmo o local do cadáver onde as amostras foram coletadas.

Por isso, segundo Davi, é importante entender que a idade do inseto não corresponde necessariamente à idade exata do cadáver. “Imagine que uma pessoa tenha morrido dentro de uma casa fechada e que as moscas só tenham conseguido entrar algumas horas depois. Quando eu calculo a idade daquela larva, estou estimando há quanto tempo ocorreu a colonização. Por isso falamos em intervalo pós-morte mínimo. O inseto funciona como uma espécie de relógio biológico, mas precisamos entender as condições em que esse relógio começou a funcionar”, explica.

A temperatura é uma das variáveis mais importantes nesse processo. Os insetos são organismos ectotérmicos e, por isso, sua velocidade de desenvolvimento depende fortemente da temperatura ambiental.

Cada espécie apresenta limites térmicos dentro dos quais consegue se desenvolver. Em temperaturas mais baixas, o desenvolvimento geralmente se torna mais lento. Conforme a temperatura aumenta, dentro de determinados limites, o desenvolvimento pode se tornar mais rápido. Fora da faixa adequada para aquela espécie, o desenvolvimento pode ser muito reduzido ou até interrompido.

A umidade também pode influenciar tanto a decomposição quanto a atividade dos insetos. Ambientes muito secos, por exemplo, podem favorecer a dessecação dos tecidos, enquanto condições mais úmidas podem alterar a decomposição e as características do substrato utilizado pelas larvas. A chuva também pode modificar as condições do cadáver e interferir na atividade dos insetos.

O ambiente onde o corpo é encontrado também precisa ser considerado. Um cadáver dentro de um carro fechado, debaixo de uma coberta, enterrado ou em um local de difícil acesso, por exemplo, pode levar mais tempo para ser alcançado pelas moscas.

Por causa de todas essas variáveis, o resultado não deve ser interpretado como um horário exato da morte, mas como uma estimativa científica acompanhada de suas limitações e incertezas.

Moscas e besouros

Entre os principais grupos de insetos utilizados na entomologia forense estão os dípteros, especialmente algumas famílias de moscas necrófagas, e os coleópteros, grupo ao qual pertencem os besouros. A presença e a importância desses insetos podem variar conforme o estágio de decomposição do cadáver e as condições ambientais.

Nas fases iniciais da decomposição, determinadas espécies de moscas costumam ter grande importância. Algumas conseguem localizar um cadáver pouco tempo depois de ele se tornar acessível.

“Em determinadas condições, as moscas conseguem encontrar o cadáver muito rapidamente. Elas são excelentes em detectar os sinais químicos produzidos durante a decomposição”, afirma Davi.

Conforme a decomposição avança e as características do cadáver mudam, diferentes grupos de insetos passam a utilizar aquele recurso. Em fases mais avançadas, vários grupos de besouros podem adquirir maior importância.

“É como se o cadáver fosse um pequeno ecossistema que vai mudando ao longo do tempo. No começo você encontra determinados grupos de insetos; depois, conforme o corpo vai se transformando, outros grupos aparecem. Essa sucessão também pode fornecer informações para a investigação”, explica.

Mosca (Foto: Arquivo enviado ao Mais Goiás)

Como os insetos chegam ao cadáver

Enquanto uma pessoa está viva, o organismo mantém uma série de mecanismos de equilíbrio e defesa. Após a morte, esses mecanismos deixam de funcionar e começam processos de autólise e decomposição microbiana.

Microrganismos presentes principalmente no trato gastrointestinal e em outras regiões passam a participar intensamente da degradação dos tecidos. Proteínas, carboidratos e gorduras são degradados, formando diferentes substâncias.

Durante esse processo são produzidos diversos compostos voláteis associados à decomposição, responsáveis inclusive por parte do odor característico de um cadáver. Esses compostos funcionam como sinais químicos para muitos insetos.

“As moscas têm uma capacidade impressionante de perceber esses compostos. Elas detectam que existe ali um recurso adequado para alimentação e reprodução, chegam ao cadáver e algumas espécies começam a depositar seus ovos”, explica o perito.

É a partir daí que começa o desenvolvimento das formas imaturas que posteriormente poderão ser utilizadas na análise entomológica.

Casos em Goiás

A entomologia forense já foi utilizada em investigações realizadas em Goiás. Entre os casos, Davi cita uma ocorrência em Abadiânia na qual vestígios entomológicos foram utilizados para auxiliar na estimativa do intervalo pós-morte mínimo. Por questões relacionadas à investigação e ao sigilo profissional, o perito não pode fornecer detalhes sobre o caso.

“Eu não posso falar muitos detalhes em relação a essa ocorrência, mas é um exemplo de como a entomologia pode fornecer informações importantes para a investigação. Um inseto que, para muitas pessoas, passaria despercebido em uma cena pode carregar uma quantidade enorme de informação”, afirma.

Para Davi, essa é justamente uma das características mais interessantes da entomologia forense.

“Quando você olha para uma larva em um cadáver, à primeira vista ela pode parecer apenas uma consequência da decomposição. Mas, quando você conhece a biologia daquele organismo, percebe que ali existe informação. A espécie, o estágio de desenvolvimento, o local onde ela foi encontrada e as condições ambientais podem ajudar a contar uma parte da história daquele cadáver. Na perícia, muitas vezes são justamente os pequenos vestígios que ajudam a responder grandes perguntas.”

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