Domingo, 20 de Setembro de 2026
HISTÓRIA DE GOIÂNIA

Por que a avenida Goiás termina na Estação Ferroviária? Resposta está no projeto original de Goiânia

Projetada como um dos principais eixos da nova capital, Avenida Goiás ligava a Praça Cívica à área destinada à ferrovia e revela até hoje a lógica do plano original de Goiânia.

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
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Avenida Goiás, no Centro de Goiânia, mantém no traçado atual parte da lógica do projeto original da capital, com a antiga Estação Ferroviária marcando uma das extremidades do eixo histórico (Foto: Reprodução/TikTok)

A antiga Estação Ferroviária não está no fim da Avenida Goiás por acaso. Pesquisas acadêmicas sobre o plano original de Goiânia mostram que a avenida foi concebida como o principal eixo norte-sul do núcleo planejado, estabelecendo uma ligação entre a Praça Cívica e a área destinada à ferrovia. Em uma extremidade estava o centro político-administrativo da nova capital e, na outra, o transporte ferroviário, associado à circulação de pessoas, mercadorias e ao desenvolvimento econômico. A configuração ainda pode ser percebida no Centro e ajuda a explicar por que o prédio da estação parece encerrar visualmente a avenida.

A relação entre os dois pontos foi definida antes mesmo da construção da estação que existe atualmente. Quando Goiânia começou a ser planejada, nos anos 1930, a ferrovia já aparecia como elemento importante na organização da futura capital, embora os trilhos demorassem anos para chegar. A zona industrial também foi prevista nas proximidades da área ferroviária, enquanto o centro administrativo se concentraria na Praça Cívica. A Avenida Goiás seria o grande percurso urbano entre esses setores.

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Antes da estação, já existia a avenida que levaria até ela

Vista histórica da Avenida Goiás mostra o eixo central e o processo de ocupação urbana do Centro de Goiânia (Foto: Acervo/Prefeitura de Goiânia)
Vista histórica da Avenida Goiás mostra o eixo central e o processo de ocupação urbana do Centro de Goiânia (Foto: Acervo/Prefeitura de Goiânia)

O primeiro plano urbanístico de Goiânia foi elaborado pelo arquiteto e urbanista Attílio Corrêa Lima, responsável pelas bases do traçado inicial da cidade. O projeto estabelecia áreas distintas para administração, comércio, moradia e indústria e utilizava grandes avenidas para organizar o núcleo urbano. A Praça Cívica ocupava a posição de maior destaque, enquanto a Avenida Goiás se projetava em direção ao norte. Na extremidade desse eixo estava a área reservada à futura ferrovia.

A dissertação “Avenida Goiás: lugar, monumento e memória”, desenvolvida na Universidade Federal de Goiás, trata a via como elemento central do primeiro traçado da capital. O estudo identifica o eixo entre Praça Cívica e Estação Ferroviária como uma das principais composições do plano original. Ao longo desse percurso foram definidos marcos que ajudariam a estruturar a paisagem do Centro. A avenida, portanto, foi projetada muito além de sua função de circulação.

O desenho de Corrêa Lima utilizava ainda a topografia para valorizar o centro administrativo. A Praça Cívica foi posicionada em uma área elevada, enquanto o eixo da Avenida Goiás avançava em direção à parte mais baixa do terreno. Dessa forma, a composição ajudava a destacar visualmente o núcleo político da nova capital. A ferrovia ocuparia a outra extremidade desse sistema urbano.

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De um lado, o governo; do outro, a ferrovia

A disposição tinha uma função prática, mas também produzia uma leitura simbólica da nova cidade. Na Praça Cívica estavam o Palácio das Esmeraldas e outros edifícios que representavam a administração estadual. No extremo oposto estava a infraestrutura que conectaria Goiânia a outras regiões por meio dos trilhos. A Avenida Goiás colocava poder político e transporte dentro de uma mesma perspectiva urbana.

Nas primeiras décadas do século 20, a ferrovia tinha papel estratégico no desenvolvimento de cidades do interior brasileiro. Os trilhos permitiam transportar produtos, reduzir distâncias e ampliar a ligação com mercados consumidores. Para Goiás, ainda marcado por dificuldades de integração com os principais centros econômicos do país, a expansão ferroviária representava uma possibilidade concreta de modernização. Essa importância ajuda a explicar o espaço reservado ao trem no projeto da nova capital.

A escolha também tinha uma lógica de funcionamento urbano. A zona industrial foi planejada próxima à futura ferrovia, o que reduziria a distância entre atividades produtivas e o transporte de cargas. O centro comercial, por sua vez, ficaria principalmente no encontro entre as avenidas Goiás e Anhanguera. O projeto distribuía funções distintas ao longo dos principais eixos da cidade.

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A estação fecha a perspectiva da Avenida Goiás

A posição da antiga Estação Ferroviária ajuda a explicar uma sensação que permanece para quem observa o eixo do Centro. O prédio ocupa exatamente a extremidade norte do percurso histórico da Avenida Goiás, funcionando como um marco visual diante da via. Estudos de urbanismo descrevem essa relação como parte da composição monumental da capital. A estação atua como um ponto focal da perspectiva.

Essa característica também foi reconhecida décadas depois em propostas de requalificação do Centro. Projetos urbanísticos trataram Praça Cívica, Avenida Goiás e Praça do Trabalhador como elementos articulados de um mesmo conjunto. De um lado, o Palácio das Esmeraldas marca o centro administrativo; do outro, a antiga estação ocupa a extremidade ferroviária. Entre os dois permanece o eixo original da avenida.

Isso não significa que o atual edifício da estação tenha sido construído ao mesmo tempo em que o plano de Attílio Corrêa Lima foi elaborado. A função ferroviária e a área destinada aos trilhos estavam previstas antes da existência do prédio atual. A construção posterior consolidou fisicamente a perspectiva imaginada no planejamento. É essa diferença que permite compreender a história sem atribuir ao edifício uma origem anterior à que realmente possui.

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A Avenida Goiás nasceu para ser mais que uma rua

Avenida em Goiânia com arborização no canteiro central e ocupação urbana ao longo do trecho (Foto: Prefeitura de Goiânia)
Avenida em Goiânia com arborização no canteiro central e ocupação urbana ao longo do trecho (Foto: Prefeitura de Goiânia)

A importância da via aparece também na maneira como ela foi concebida. Pesquisa de mestrado da UFG descreve a Avenida Goiás como uma avenida-jardim, projetada para abrigar circulação de veículos, passeios públicos e manifestações cívicas. O canteiro central e o tratamento paisagístico faziam parte dessa ideia. A avenida deveria funcionar simultaneamente como corredor urbano e espaço de convivência.

A concepção dialogava com referências urbanísticas utilizadas no início do século 20. Grandes avenidas, perspectivas longas, arborização e monumentos eram recursos usados para organizar visualmente cidades e destacar áreas consideradas importantes. Em Goiânia, esses princípios foram aplicados ao projeto de uma capital que pretendia representar modernização. A Avenida Goiás acabou se tornando um dos principais exemplos dessa intenção.

Fotografias antigas ajudam a perceber essa característica com mais facilidade. Quando Goiânia ainda tinha poucas construções, a largura da Avenida Goiás e a longa perspectiva entre os edifícios apareciam de forma muito mais evidente. O crescimento posterior trouxe novas edificações, comércio e aumento do trânsito. Mesmo assim, parte da composição inicial permanece identificável.

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Quando Goiânia nasceu, o trem ainda não tinha chegado

A ferrovia já estava incorporada ao planejamento urbano, mas os trilhos demoraram a alcançar a capital. Goiânia começou a ser construída na década de 1930, enquanto a antiga Estação Ferroviária seria inaugurada apenas anos depois. A Prefeitura utiliza 1950 como uma das referências históricas para a inauguração do equipamento. Estudos sobre o prédio e a ferrovia registram diferenças de datas ligadas à chegada dos trilhos, à inauguração formal e ao início da operação.

O fato essencial para compreender a Avenida Goiás, porém, vem antes dessa discussão cronológica. O eixo da cidade foi estruturado considerando uma infraestrutura ferroviária que ainda não estava fisicamente implantada. A nova capital foi desenhada esperando a chegada do trem. O planejamento urbano, portanto, antecedeu a ferrovia.

Durante parte dos primeiros anos da cidade, a Avenida Goiás seguia em direção a uma área destinada a uma função futura. Quando a ferrovia finalmente chegou, o espaço previsto no planejamento ganhou utilização concreta. A estação passou a funcionar como uma das portas de entrada de Goiânia. O projeto urbano concebido anos antes estava, enfim, completo naquele trecho.

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Quem chegava de trem encontrava a capital à frente

Quando o transporte ferroviário entrou em funcionamento, a relação entre estação e avenida ganhou dimensão cotidiana. O passageiro que desembarcava encontrava diante de si a Avenida Goiás e seguia por ela em direção ao núcleo central. No trajeto estavam a área comercial, o cruzamento com a Avenida Anhanguera e, mais adiante, a Praça Cívica. A estrutura transformava a estação em uma verdadeira porta de entrada para a capital planejada.

O sentido inverso também reforçava a composição. Quem partia da Praça Cívica podia seguir pelo mesmo eixo em direção à ferrovia. Governo, comércio e transporte estavam conectados espacialmente pela avenida. A organização permitia uma leitura clara da cidade para moradores e visitantes.

O encontro entre Goiás e Anhanguera se consolidaria como outro ponto importante da capital. Ali foi instalado o Monumento ao Bandeirante, em uma região que se tornou referência comercial e de circulação. A concentração de atividades transformou o cruzamento em um dos pontos mais movimentados do Centro. O eixo planejado ganhou, assim, novos significados ao longo das décadas.

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A cidade planejada virou lugar de encontro

A Avenida Goiás não permaneceu apenas como eixo monumental. Com o crescimento de Goiânia, tornou-se também espaço de convivência, comércio, lazer e encontros entre moradores. Pesquisas sobre memória urbana registram o chamado footing, prática em que jovens caminhavam pela avenida para conversar, observar o movimento e paquerar. O espaço desenhado pelos urbanistas foi apropriado pela população.

Mais Goiás mostrou recentemente como o Grande Hotel e seu entorno participaram dessa vida social. Na década de 1940, o footing passou a ocorrer na Avenida Goiás, especialmente nas proximidades do hotel e da antiga Brasserie. O vai-e-vem de jovens transformava a avenida em ponto de encontro da capital ainda pequena. A função social passou a conviver com a monumentalidade do planejamento original. 

Ao longo das décadas seguintes, a região central passou por sucessivas mudanças. O trânsito aumentou, o comércio se intensificou e novos edifícios alteraram a paisagem da avenida. Parte da arborização e do desenho paisagístico também sofreu intervenções. Mesmo transformada, a Avenida Goiás permaneceu como uma das principais referências urbanas da cidade.

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O trem foi embora, mas o eixo permaneceu

Antiga Estação Ferroviária de Goiânia, na Praça do Trabalhador, integra o eixo histórico da Avenida Goiás e é um dos principais marcos arquitetônicos do Centro da capital (Foto: Prefeitura de Goiânia)
Antiga Estação Ferroviária de Goiânia, na Praça do Trabalhador, integra o eixo histórico da Avenida Goiás e é um dos principais marcos arquitetônicos do Centro da capital (Foto: Prefeitura de Goiânia)

A ferrovia perdeu importância à medida que o transporte rodoviário ganhou espaço no Brasil. Os trens deixaram de fazer parte da rotina da estação e o prédio perdeu sua função original. Goiânia também cresceu muito além dos limites imaginados no primeiro planejamento urbano. A antiga área ferroviária deixou de ser a fronteira norte da cidade.

A estação, entretanto, permaneceu diante da Avenida Goiás. O edifício passou a ser reconhecido como patrimônio histórico e integra o conjunto Art Déco associado aos primeiros anos da capital. A própria Praça do Trabalhador sofreu transformações e ganhou novas funções ao longo do tempo. Mesmo assim, o alinhamento entre avenida e estação continua visível.

Esse alinhamento permite observar hoje uma decisão de planejamento tomada há quase um século. Praça Cívica, Avenida Goiás e antiga Estação Ferroviária ainda formam uma sequência legível no Centro. A cidade mudou ao redor dela, mas a estrutura básica do eixo permaneceu. É uma parte do projeto original que sobreviveu à expansão da metrópole.

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A resposta está no projeto original de Goiânia

Por isso, dizer que a Avenida Goiás simplesmente termina na Estação Ferroviária não conta toda a história. A área ferroviária já fazia parte do planejamento quando o eixo da avenida foi concebido. O atual edifício da estação veio depois, mas consolidou a composição prevista para aquela parte da cidade. A relação entre os dois pontos nasceu no desenho da nova capital.

De um lado permanecia a Praça Cívica, centro político e administrativo do Estado. Do outro estava a ferrovia, símbolo de transporte, conexão e modernização econômica naquele período. Entre ambos, a Avenida Goiás cumpria a função de eixo urbano e monumental. Essa é a lógica que ainda pode ser enxergada no Centro.

Quase um século depois, os trens não chegam mais ali e Goiânia avançou quilômetros além da antiga estação. A Avenida Goiás também assumiu funções que seus primeiros planejadores não poderiam prever. O que não desapareceu foi a perspectiva construída entre aqueles dois extremos. A estação não foi parar por acaso diante da avenida: o eixo nasceu considerando justamente a área ferroviária como uma de suas referências finais

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