Sábado, 15 de Agosto de 2026
EXCLUSIVO!

‘Rota caipira’: a logística clandestina usada pelo tráfico para driblar a polícia em Goiás

'Mulas' do tráfico adotam caminhos alternativos para despistar ações policiais. Sudoeste Goiano lidera esse tipo de movimentação estratégica no estado

Pedro Moura
Por - Goiânia, GO
Publicado em: • Atualizado em:
Aprensão de drogas feita por militares do COD em plantação no interior de Goiás (Foto: PMGO)

Camuflados em meio a plantações e pastos do interior de Goiás, traficantes desenvolvem novas formas de transportar drogas para fugir de cercos policiais em rodovias. Esses percursos, conhecidos pelas forças de segurança como ‘rotas caipiras’ estão mais presentes no Sudoeste Goiano, região conhecida como um dos maiores produtores do agronegócio brasileiro. A presença deles por essas terras, no entanto, não é uma coincidência. A posição geográfica estratégica que torna Goiás um atrativo logístico para rotas comerciais legítimas, também é usada pela criminalidade para dar vazão às cargas ilegais que atravessam o continente sul americano. Mas, apesar das tentativas de disfarce, a atividade criminosa deixa vestígios que têm orientado cercos policiais e novas apreensões.

Por meio desses corredores clandestinos, criminosos dão passagem a cargas que chegam ao Brasil pelo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com acesso a estrada de terra isoladas e pista de pousos escondidas pela vegetação. O major Filogonio Junio da Costa, atualmente responsável pelo Comando de Operações de Divisas (COD) da Polícia Militar de Goiás (PMGO), explica que esta é a forma ‘mais segura’ encontrada pelo crime organizado para guiar as cargas pelo território. No estado, apenas entre janeiro e agosto deste ano, o COD e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreenderam mais de 12 toneladas de maconha e cocaína nas rodovias convencionais e nas ‘rotas caipiras’, conforme levantamento realizado a pedido do Mais Goiás.

LEIA TAMBÉM

“Os traficantes usam as rotas caipiras mais esporadicamente, visto que a movimentação em estradas sem pavimentação elevou o fluxo de veículos estranhos no meio rural, chamando atenção da polícia. Conseguimos aumentar as apreensões diante desse fato”, explica o major. “São formas de fugir da fiscalização existente nas rodovias, usando plantações e pastos para acessar estradas vicinais e atravessar municípios”, continua o major Filogonio.

Vantagem aérea

O cenário agrícola também é favorável aos criminosos em razão da forma que as lavouras são pulverizadas. Dados do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola apontam que 25% das plantações são imunizadas por transporte aéreo. Essa necessidade eleva a frota nacional do segmento para 2,7 mil aeronaves, a segunda maior do mundo.

O volume de aviões, alerta o PM, facilita a circulação de aeronaves utilizadas para distribuição de entorpecentes. O major ressalta que as operações de pouso, descarga e decolagem clandestina ocorrem rapidamente, com duração de 15 a 30 minutos, e dão origem às rotas caipiras.

“A região sudoeste é a mais propensa a apresentar essas particularidades. É a porta de entrada, que fica na divisa com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Esses estados fazem divisa com outros países, que é de onde vêm as drogas. O Brasil não produz praticamente nada. A cocaína, maconha e outros tipos de narcóticos saem do Paraguai, Bolívia e passam por esses estados e, então, vem para Goiás ou ramificam por todo o país”, ressalta o major. 

Principal destino dos entorpecentes

Embora Goiás seja usado como ponto de escoamento de entorpecentes, o estado de São Paulo é quem detém a mais antiga e movimentada rota caipira do Brasil. Pelo menos 70 a cada 100 quilos de drogas que circulam pelo país passam pelo interior paulista, de acordo com o levantamento divulgado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) em 2025.

Apreensão de quase 200 kg de drogas, que entraram em Goiás por meio de Mato Grosso – (Foto: reprodução/COD)

“Mulas do tráfico” 

Major Costa revela que os trajetos são percorridos por ‘mulas do tráfico’, pessoas que recebem quantias em dinheiro para levar os carregamentos de um estado para o outro, enquanto os verdadeiros proprietários da carga permanecem escondidos. Caminhoneiros, grávidas e lactantes sem envolvimento direto com o crime organizado, inclusive, são alguns dos grupos aliciados por traficantes.

O transporte, comumente, é realizado por meio de ônibus interestaduais e caminhões de carga. O chefe de comunicação da Polícia Rodoviária Federal em Goiás, Victor Rustiguel, explica que as “mulas do tráfico” também são usadas para transportar armas, munições ou outros produtos ilícitos. 

“Não há um único perfil de transportador. As organizações criminosas utilizam carros de passeio, ônibus, veículos de carga e pessoas que transportam drogas junto ao corpo, além de diferentes formas de ocultação da carga. A BR-060, especialmente na região de Rio Verde e Jataí, e a BR-364, na região de Jataí, Mineiros e Cachoeira Alta, aparecem com frequência em ocorrências de apreensão”, detalha.

Segundo o PRF, as organizações criminosas se utilizam das “mulas” para tentar despistar a fiscalização policial. Ao fragmentar o transporte das cargas ilícitas e usar pessoas que não despertam suspeitas, os criminosos mascaram, em um primeiro momento, os verdadeiros responsáveis pelo ilícito.

Para o PRF, embora ‘rotas caipiras’ sejam mais seguras para as ‘mulas’, o transporte rodoviário continua sendo o meio mais utilizado. Em alguns casos, o é feito de forma oculta no corpo da pessoa ou em bagagens, exigindo um trabalho minucioso de fiscalização por parte das forças de segurança pública. Neste sentido, a integração entre as policiais é essencial. 

“O desafio está na própria dinâmica do tráfico, que busca constantemente mudar veículos, trajetos, formas de ocultação e perfis dos transportadores. A PRF trabalha com análise de risco, inteligência e fiscalização direcionada para identificar esses padrões”, concluiu.

Apreensão de oito toneladas de maconha em Cachoeira Alta – (Foto: reprodução/PRF)

Categorias:
Brasil Cidades Rio verde
Tags:
COD Estradas vicinais Goiás plantações PM PRF Rota caipira Sudoeste goiano tráfico de de drogas