Exposição reúne mais de 80 obras feitas com papelão e metal em Goiânia
“Alopatia para Ancestralidade Inventada” está em cartaz na Vila Cultural Cora Coralina, com trabalhos inéditos que unem grafite, reciclagem e personagens criados pelo artista Ebert Calaça
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Papelão retirado de grandes embalagens, pedaços de metal usados e marcas deixadas pelo tempo substituem as telas convencionais em parte das mais de 80 obras que ocupam a Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia. A exposição “Alopatia para Ancestralidade Inventada”, do artista Ebert Calaça, está aberta à visitação gratuita e segue até 9 de setembro.
Com curadoria de Gregório Soares Rodrigues, a individual reúne trabalhos inéditos produzidos nos últimos dois anos e aproxima referências da arte urbana de questões relacionadas a memória, ancestralidade, espiritualidade e vida nas cidades.
No centro da exposição estão figuras que Calaça chama de “guardiões”. Com traços lúdicos e feições infantis, os personagens aparecem repetidamente nas obras e funcionam como uma espécie de fio condutor da mostra.
Quem são os “guardiões”?
Criados pelo artista como seres imaginários de proteção, os guardiões surgem em meio às reflexões de Calaça sobre os conflitos e as contradições da vida cotidiana.
“De uma forma lírica, eu fui buscando criar seres mitológicos que têm a função de me guardar nessas batalhas cheias de dualidades da vida, repletas de certos e errados, caminhos e encruzilhadas”, explica.
As figuras também carregam uma provocação. Segundo o artista, elas convidam o visitante a olhar para si, para a cidade e para os próprios conflitos sem abandonar o caráter lúdico da arte.
O próprio nome “Alopatia para Ancestralidade Inventada” parte de uma apropriação de um termo da medicina. Na exposição, a ideia de alopatia — apresentada pelo artista como tratamento pelos contrários — é usada como metáfora para pensar a criação artística como processo de enfrentamento e elaboração de experiências.
“Assim, desenvolvi um processo de cura por meio da arte. Os guardiões nascem como uma dança imaginária para nos reconectar com a paz”, afirma Calaça.
Papelão e metal no lugar das telas
A escolha dos suportes também faz parte da proposta. Em vez de trabalhar somente com telas tradicionais, Calaça utiliza materiais encontrados ou reaproveitados, como papelão de grandes embalagens e metal usado.
Rugosidades, imperfeições e sinais de desgaste não são escondidos durante o processo. Pelo contrário: passam a integrar visualmente os trabalhos.
“Utilizo a memória impregnada no metal e as texturas do papelão. Deixo as marcas do material aparentes como cicatrizes”, explica o artista.
A partir desses suportes, Calaça combina elementos ligados ao grafite e à produção de ateliê para construir personagens e cenários que transitam entre o real e o imaginário.
Para o curador Gregório Soares Rodrigues, a repetição dos guardiões também exige que o visitante observe as diferenças entre figuras que, em um primeiro momento, podem parecer semelhantes.
“Os guardiões repetem-se e, sem pressa, obrigam o público a permanecer diante da dúvida até que seja capaz de iniciar uma conversa muda e descobrir suas diferenças, suas faces sem nome e sua disposição ao gesto lúdico”, afirma.
Do grafite à galeria
Ebert Calaça iniciou sua trajetória artística ligado ao grafite e às artes urbanas, com trabalhos em Goiânia e Brasília. Posteriormente, realizou intervenções em outros lugares, incluindo Recife e Barcelona, na Espanha.
Em “Alopatia para Ancestralidade Inventada”, essa origem permanece presente tanto na linguagem visual quanto no uso do spray, mas passa a conviver com a pesquisa desenvolvida pelo artista em outros suportes e espaços expositivos.
A mostra ocupa a Sala Antônio Poteiro, na Vila Cultural Cora Coralina, no Centro de Goiânia, e pode ser visitada gratuitamente de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, até 9 de setembro.
ANOTA AÍ
Exposição “Alopatia para Ancestralidade Inventada” — Ebert Calaça
Visitação: até 9 de setembro
Horário: das 9h às 17h
Local: Vila Cultural Cora Coralina — Sala Antônio Poteiro
Endereço: Rua 23, esquina com Rua 3, Centro, Goiânia
Curadoria: Gregório Soares Rodrigues
Entrada: gratuita