Mistério de 300 anos: igreja mais antiga de Goiás pode esconder corpo do homem que desbravou o estado
Documento do Conselho Estadual de Cultura registra relatos sobre possível sepultamento do bandeirante em Buenolândia; restauração de R$ 2,8 milhões prevê acompanhamento arqueológico
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O túmulo de Bartolomeu Bueno da Silva, conhecido como ‘Segundo Anhanguera’, pode estar escondido na igreja mais antiga de Goiás, construída há quase 300 anos. A suspeita envolve a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Buenolândia, distrito da Cidade de Goiás, localizado a cerca de 182 quilômetros de Goiânia e 32 quilômetros do centro histórico do município. Segundo a tradição local, o bandeirante teria sido sepultado dentro do templo, embora outra versão aponte para o antigo cemitério existente ao lado da construção.
O relato aparece em um documento oficial do Conselho Estadual de Cultura, mas não existem provas documentais ou arqueológicas que confirmem a localização do túmulo. O mistério voltou a chamar atenção após o Governo de Goiás anunciar uma restauração de R$ 2,8 milhões na igreja, com previsão de acompanhamento arqueológico durante as obras. A possibilidade de encontrar vestígios históricos desperta curiosidade, mas ainda não há confirmação de que o projeto inclua uma investigação específica para localizar os restos mortais de Anhanguera.
O bandeirante paulista comandou expedições em busca de ouro no século XVIII e participou da ocupação colonial do território que hoje corresponde a Goiás. Em 1726, fundou o Arraial da Barra, considerado um dos primeiros povoados da região e que deu origem à atual Buenolândia. Filho de outro explorador que também recebeu o apelido de Anhanguera, ele morreu em 1740, sem deixar registros conhecidos que permitam identificar com segurança o local onde foi enterrado.
A hipótese de um sepultamento dentro da igreja não seria incomum para a época, quando os templos religiosos também eram utilizados para enterrar os mortos. Em determinados casos, pessoas de maior prestígio social recebiam sepulturas próximas aos altares, enquanto outras eram enterradas nas áreas externas das construções. Pesquisas acadêmicas desenvolvidas em Goiás ajudam a explicar essa tradição e mostram como os costumes funerários estavam ligados à religião e às diferenças sociais durante o período colonial.
Documento oficial aponta possível sepultura de Anhanguera
O registro que reacendeu o mistério consta de um parecer do Conselho Estadual de Cultura, elaborado durante a análise do processo de tombamento da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. O texto informa que a tradição e a memória dos moradores de Buenolândia e da Cidade de Goiás apontam o templo como local de sepultamento do segundo Anhanguera. O Conselho não apresenta documentos que confirmem a existência do túmulo e reconhece a falta de registros históricos sobre a construção. Mesmo assim, considera relevante preservar a igreja e os elementos que compõem seu entorno.
A construção apresenta paredes de taipa de pilão, técnica antiga na qual a terra é compactada dentro de estruturas de madeira para formar paredes resistentes. Segundo o parecer, essa característica indica que a igreja pode ter sido erguida no século XVIII, período em que os primeiros povoados coloniais se estabeleceram na região. O edifício sofreu alterações ao longo dos anos, incluindo a perda do altar original, o que dificulta a reconstituição de sua aparência inicial. A ausência de documentação também impede determinar com precisão quando a igreja foi construída e quem recebeu sepultamento em suas dependências.
Enterrar pessoas dentro de igrejas era comum em Goiás

A ideia de encontrar um corpo enterrado dentro de uma igreja pode parecer estranha atualmente, mas o costume fazia parte da vida religiosa durante o Brasil colonial. Na tese de doutorado A (re)invenção do fim: lugares, ritos e secularização da morte em Goiás no século XIX, defendida em 2012 na Universidade Federal de Goiás (UFG), o historiador Deuzair José da Silva investigou como os goianos eram enterrados e quais mudanças ocorreram ao longo do tempo. O pesquisador analisou testamentos e registros de óbitos para compreender os rituais de morte e a influência da Igreja Católica sobre essas práticas.
O estudo demonstra que os sepultamentos ligados aos templos começaram a perder espaço no século XIX, diante de mudanças sanitárias, religiosas e sociais.
Durante o período colonial, o local da sepultura podia revelar a posição social de uma pessoa. Os enterros próximos aos altares eram associados ao prestígio religioso e social, enquanto outras áreas das igrejas e seus arredores também eram utilizadas para receber os mortos.

Com o avanço das preocupações sanitárias, a prática passou a ser questionada, principalmente pelo risco de contaminação relacionado à decomposição dos corpos em espaços frequentados pela população. A transferência dos enterramentos para cemitérios afastados dos centros urbanos ocorreu de forma gradual e modificou uma tradição que havia marcado gerações.
Outra pesquisa ajuda a compreender o que os arqueólogos podem encontrar em antigas igrejas de Goiás. No trabalho Morte no interior goiano: estudo comparativo a partir de sepultamentos em igrejas coloniais na América Latina, apresentado em dezembro de 2025 à Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), Mateus Milhomem Belém Mesquita Belchior investigou práticas funerárias na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França, em Corumbá de Goiás.
A pesquisa analisou características dos sepultamentos, como a posição dos corpos e a presença de caixões, crucifixos e contas de rosário, além de comparar exemplos de outros países latino-americanos. Os resultados demonstraram a forte influência dos costumes cristãos europeus sobre as formas de sepultamento no interior goiano.
O estudo da PUC Goiás não investigou a sepultura de Anhanguera, mas oferece elementos para compreender a hipótese levantada em Buenolândia. Isso porque, durante o período colonial, igrejas não eram utilizadas apenas para missas, casamentos e batizados, mas também para cerimônias funerárias e sepultamentos.
A presença de restos humanos em um templo daquele período, portanto, não seria necessariamente uma descoberta inesperada do ponto de vista arqueológico. A identificação do corpo do bandeirante, entretanto, exigiria evidências específicas que relacionassem os vestígios encontrados à sua trajetória histórica.
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Onde fica Buenolândia, local que pode guardar o túmulo?
Buenolândia fica na zona rural da Cidade de Goiás, antiga capital do estado, a aproximadamente 182 quilômetros de Goiânia por rodovia. O distrito está situado na região onde Bartolomeu Bueno da Silva fundou, em 1726, o Arraial da Barra, considerado um dos primeiros núcleos de povoamento colonial do território goiano. A localidade também é conhecida como Barra e recebe a identificação de Marco Zero de Goiás por sua ligação com o início da ocupação associada à mineração do ouro. Atualmente, conserva elementos da história religiosa e cultural da região, entre eles a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, o cruzeiro e um antigo poço.
A relação entre os moradores e a história do lugar também foi examinada no estudo A secular formação territorial sertaneja das “Terras da Santa” no distrito de Buenolândia, de Luciana Helena Alves Silva e Maria Geralda de Almeida. As pesquisadoras abordam a formação territorial do distrito e a importância das lembranças dos habitantes na construção da identidade local.
O trabalho registra que muitos moradores continuam a chamar o lugar simplesmente de Barra, nome associado à origem histórica do povoado. A pesquisa também mostra como a memória, a religiosidade e as relações com a terra permanecem ligadas à história da comunidade.
A preservação dessas histórias aparece ainda na pesquisa Memória e esquecimento em Buenolândia: primeiro arraial de Goiás, publicada em coletânea acadêmica disponibilizada pela UFG. O estudo utilizou atividades de campo com estudantes da Escola Municipal Terezinha de Jesus Rocha e relatos orais para recuperar informações sobre o patrimônio histórico do distrito. A pesquisa destaca que a deterioração das construções antigas ameaça não apenas os imóveis, mas também as lembranças transmitidas pelas famílias. É nesse contexto que a história sobre o possível sepultamento de Anhanguera permanece como parte da memória de Buenolândia, embora ainda dependa de comprovação.
Restauração de R$ 2,8 milhões pode revelar novas pistas?

O Governo de Goiás publicou, em 26 de outubro de 2026, o edital para restaurar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, com investimento estimado em R$ 2,8 milhões. A licitação está marcada para 4 de janeiro de 2027 e prevê a contratação de serviços especializados para recuperar a estrutura e os elementos arquitetônicos do templo.
Segundo a Secretaria de Estado da Cultura (Secult), o projeto integra os preparativos para as comemorações dos 300 anos da Cidade de Goiás, previstas para 2027. A recuperação busca preservar um patrimônio relacionado às origens da ocupação colonial do estado.
Os serviços incluem intervenções na estrutura, recuperação de elementos arquitetônicos, melhorias nas instalações e acompanhamento arqueológico durante a obra. Esse tipo de acompanhamento permite observar e documentar possíveis vestígios históricos identificados durante intervenções em construções antigas.
Entretanto, não há confirmação de que a restauração inclua escavações específicas para procurar o túmulo de Anhanguera, nem de que existam evidências materiais já identificadas no local. Assim, qualquer eventual descoberta dependerá do trabalho técnico e das condições estabelecidas para a preservação do patrimônio.
Quase três séculos depois da morte de Anhanguera, o local de sua sepultura continua sem identificação comprovada. O documento do Conselho Estadual de Cultura registra a tradição dos moradores, enquanto as pesquisas acadêmicas mostram que sepultamentos dentro e ao redor de igrejas eram práticas conhecidas no período colonial.