Sábado, 19 de Setembro de 2026
TÉCNICA VOCAL

Antes gago e desafinado, goiano hoje trabalha com vozes do sertanejo

Maestro goiano Cláudio Elísio transforma técnica vocal em conteúdo nas redes e ganha projeção ao ensinar cantores a corrigir vícios, melhorar timbre e ampliar a interpretação.

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Maestro Cláudio Elísio, criador da abordagem “menos massa, mais timbre”, durante trabalho em estúdio voltado à eficiência e à identidade vocal dos cantores (Foto: Acervo pessoal)

Cláudio Elísio precisou aprender a lidar com a própria voz antes de começar a ensinar cantores profissionais. Criado em Pirenópolis, o maestro goiano que convive com a gagueira desde a infância, conta que começou os estudos de canto com problemas de afinação e trabalhou como ajudante de pedreiro, serralheiro, gesseiro e vendedor antes de chegar aos bastidores da música brasileira. 

Hoje, ele atua na preparação de artistas com carreira consolidada e cita experiências, em diferentes períodos e formatos, com Ralf, Fred & Fabrício, Marcelo Martins, Munhoz e Mariano, Henrique & Diego, Zé Henrique & Gabriel, Renato Vianna, integrantes da banda Malta e músicos do Traia Véia. A mudança de vida, porém, começou justamente quando Cláudio percebeu que entender as próprias limitações poderia ajudá-lo a identificar dificuldades na voz de outras pessoas. 

De gago e desafinado a professor de cantores

Maestro Cláudio Elísio durante sessão de trabalho em estúdio, onde atua na preparação e no aperfeiçoamento vocal de cantores profissionais (Foto: Acervo pessoal)
Maestro Cláudio Elísio durante sessão de trabalho em estúdio, onde atua na preparação e no aperfeiçoamento vocal de cantores profissionais (Foto: Acervo pessoal)

Cláudio conta que se aproximou da música por volta dos 15 ou 16 anos, período em que a mãe passou a frequentar uma igreja evangélica. Até então, a gagueira já interferia na segurança para se comunicar. Quando começou a cantar, descobriu outro obstáculo: tinha dificuldade para manter a afinação.

A profissionalização não aconteceu de forma imediata. Antes de viver da música, trabalhou em obras, foi vendedor de motos, colchões e consórcios, funcionário de lan house e empacotador. Em Itaberaí, já como professor, chegou a reunir mais de 60 alunos ativos. 

Foi nesse processo que Cláudio percebeu uma característica que mudaria sua trajetória. Ele próprio afirma que se tornou melhor professor do que cantor. A experiência de precisar aprender conscientemente aquilo que outras pessoas executavam com naturalidade ajudou a desenvolver um olhar voltado para a origem dos problemas vocais.

Uma voz forte também pode estar fazendo força demais

Maestro Cláudio Elísio ao lado de Ralf, cantor reconhecido pela afinação precisa, timbre agudo e domínio vocal que ajudaram Chrystian & Ralf a ganhar fama de “dupla mais afinada do Brasil” (Foto: Acervo pessoal)
Maestro Cláudio Elísio ao lado de Ralf, cantor reconhecido pela afinação precisa, timbre agudo e domínio vocal que ajudaram Chrystian & Ralf a ganhar fama de “dupla mais afinada do Brasil” (Foto: Acervo pessoal)

Uma das principais diferenças que Cláudio procura mostrar aos alunos está entre potência e esforço. Segundo o maestro, produzir muito volume não significa necessariamente que o cantor esteja utilizando a voz da forma mais eficiente.

É desse raciocínio que surge uma expressão utilizada por ele para explicar o próprio trabalho: “menos massa, mais timbre”. A ideia é alcançar determinada sonoridade sem utilizar tensão que não contribui para o resultado. Isso não significa diminuir o volume, retirar potência ou modificar a identidade de uma voz. 

Cláudio chega a usar uma comparação bem-humorada para traduzir ao público aquilo que escuta. Algumas emissões muito pressionadas, segundo ele, produzem a impressão de alguém “fazendo cocô no banheiro”. Por trás da provocação está uma pergunta técnica: o cantor realmente precisa fazer toda aquela força para produzir a nota? 

Essa individualização encontra respaldo na literatura científica. Estudo publicado na Revista CEFAC acompanhou uma cantora de teatro musical, um cantor sertanejo e um cantor de rock e utilizou programas diferentes de condicionamento vocal conforme a necessidade de cada profissional. Os autores destacam que a variabilidade individual impede que uma única fórmula seja aplicada a todos os cantores. 

Nos bastidores de artistas que já sabem cantar

Maestro Cláudio Elísio ao lado da dupla Zé Henrique & Gabriel (Foto: Acervo pessoal)
Maestro Cláudio Elísio ao lado da dupla Zé Henrique & Gabriel (Foto: Acervo pessoal)

O trabalho com profissionais muda o tamanho do problema, mas não elimina a necessidade de treinamento. Cláudio explica que, em um iniciante, a diferença pode ser evidente: uma nota antes desafinada passa a ser executada corretamente. Entre cantores experientes, a mudança pode ser quase imperceptível para quem está ouvindo.

O ganho pode estar em alcançar a mesma nota utilizando menos tensão, controlar melhor a respiração, preservar o timbre ou atravessar uma sequência de apresentações com menor desgaste. “A voz é um instrumento de manutenção contínua”, afirma. 

Fred & Fabrício estão entre os artistas citados por Cláudio. Segundo o maestro, o trabalho varia conforme a demanda de cada profissional: há acompanhamentos mais longos, preparações para gravações e DVDs e intervenções pontuais para ajustes específicos.

Marcelo Martins também aparece entre os nomes atendidos. Cantor e compositor, ele ganhou projeção nacional como integrante da dupla João Lucas & Marcelo e ficou conhecido por sucessos como “Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha”. No meio sertanejo, também é reconhecido pela potência vocal, característica que Cláudio usa para explicar como uma voz naturalmente grande ainda pode passar por ajustes de técnica e redução de esforço. Segundo o maestro, foi a partir desse trabalho que novas indicações começaram a chegar e sua rede de contatos entre músicos se ampliou.

O professor procura aquilo que o público não escuta

Para Cláudio, o objetivo da preparação não é padronizar cantores. Uma voz rouca, rasgada, nasal ou marcada por vibrato não significa automaticamente problema. Essas características podem fazer parte justamente da identidade que permite reconhecer um artista em poucos segundos. 

O critério utilizado por ele é o controle. Se o cantor escolhe quando utilizar determinado recurso e consegue executar a frase de outra maneira, existe domínio. Quando não consegue abandonar aquele comportamento, o professor passa a investigar se existe um hábito vocal que merece atenção.

É justamente aí que a trajetória pessoal de Cláudio volta ao início. O homem que precisou aprender a administrar a própria gagueira e começou os estudos desafinado trabalha hoje procurando detalhes quase invisíveis em vozes de profissionais.

Para o público, um cantor pode simplesmente ter acabado de alcançar uma nota difícil. Para Cláudio, resta uma segunda pergunta: ele precisava fazer toda aquela força para chegar até ela?

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