Terça-feira, 03 de Novembro de 2026
CRISE

‘Quase quatro meses sem receber’: Mozart expõe crise salarial do Goiás após vitória sobre CRB

Técnico revela atraso nos pagamentos de jogadores e comissão após triunfo por 2 a 1; clube acumula dívidas, passou por troca de presidente e ainda disputa vaga nos playoffs da Série B

Por - Goiânia, GO
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A vitória do Goiás por 2 a 1 sobre o CRB, na noite de segunda-feira (2), na Serrinha, foi seguida de uma revelação do técnico Mozart Santos sobre a situação financeira do clube. Apesar da sequência de cinco partidas sem derrota e da aproximação do G-6 da Série B, jogadores e comissão técnica estão há quase quatro meses sem receber salários, segundo o treinador.

“Nós estamos há quase quatro meses sem receber salário. Isso mostra o tamanho do feito que esses caras estão realizando”, afirmou Mozart após o confronto válido pela 36ª rodada do Campeonato Brasileiro.

O treinador cobrou a regularização dos pagamentos e elogiou o comprometimento dos atletas, que somam quatro vitórias e um empate nas últimas cinco rodadas.

“A gente espera que tudo seja normalizado, porque eles são trabalhadores que entregam dedicação, suor, eles merecem receber, né? Eu entendo dessa forma. Mas eu tenho certeza de que o clube vai fazer a parte dele”, declarou.

Meia Lucas Lima, um dos jogadores mais experientes do elenco do Goiás (Foto: Instagram)

Mozart também manifestou confiança na recuperação financeira do Goiás. “É um clube gigantesco, e eu estou feliz de estar aqui. É um clube que tem um potencial gigantesco e uma história fantástica. Todos os clubes passam por dificuldades, ainda mais no momento atual do futebol brasileiro. Mas eu tenho certeza de que um clube desse tamanho e com essa história vai se reinventar, vai reencontrar o caminho.”

Jogadores já haviam protestado contra salários atrasados

A declaração de Mozart ocorre pouco mais de um mês depois de um protesto público dos jogadores. Em 20 de setembro, após vencer o Avaí por 2 a 1, o elenco decidiu não conceder entrevistas. O treinador também deixou de participar da coletiva, em solidariedade aos atletas.

No dia seguinte, jogadores como Tadeu, Lucas Rodrigues, Kadu Sousa e Jean Carlos divulgaram uma carta aberta para explicar a decisão.

No documento, os atletas relataram atrasos em salários registrados em carteira, direitos de imagem e premiações por resultados.

Volante Lucas Rodrigues, principal promessa do Goiás (Foto: Instagram)

“Semana após semana, convivemos com promessas de regularização e com a expectativa de que os compromissos assumidos sejam cumpridos”, afirmaram.

Na ocasião, uma apuração do ge apontou dois meses de salários atrasados, dois meses de direitos de imagem e cinco premiações por vitórias não pagas. Funcionários de outros setores do clube também tinham vencimentos pendentes.

O problema já havia sido reconhecido pela própria diretoria em maio. Naquele mês, o então diretor de futebol Michel Alves confirmou ao Mais Goiás a existência de atrasos salariais e pendências referentes aos direitos de imagem.

Em julho, o dirigente chegou a anunciar a regularização dos salários, embora ainda houvesse valores de imagem e premiações pendentes. Os atrasos voltaram a se acumular nos meses seguintes.

Goiás acumula dívida de R$ 114 milhões

A crise salarial acompanha o agravamento da situação financeira do clube.

O balanço de 2025 apresentou déficit de R$ 98,1 milhões. O endividamento total chegou a aproximadamente R$ 114 milhões, enquanto os ativos somavam cerca de R$ 65 milhões.

O patrimônio líquido negativo, de R$ 49,1 milhões, indica que as obrigações contabilizadas superavam os bens e direitos registrados pelo Goiás.

Filipe Machado, jogador de meio de campo do Goiás (Foto: Instagram)

Os problemas continuaram em 2026. Levantamento divulgado pelo Diário de Goiás, com base nos balancetes mensais, mostrou que o clube apresentou déficit em seis dos sete primeiros meses do ano.

Somente em julho, a receita bruta foi de R$ 5,8 milhões, mas o resultado mensal ficou negativo em R$ 2,2 milhões.

Além dos atrasos salariais, o Goiás enfrentou restrições para registrar jogadores em razão de pendências financeiras que resultaram em punição da Fifa, posteriormente superada.

Clube recorreu a empréstimo com centro de treinamento como garantia

Em setembro, o Goiás anunciou a aprovação de um empréstimo de R$ 21 milhões para quitar compromissos com o elenco e assegurar o pagamento dos salários até o encerramento da temporada.

A operação teve como garantia o Centro de Treinamento Coimbra Bueno, localizado em Aparecida de Goiânia.

Na ocasião, Mozart relatou que o presidente do Conselho Deliberativo, Paulo Rogério Pinheiro, havia conversado com jogadores e comissão técnica e apresentado uma perspectiva de regularização.

A promessa, no entanto, não se concretizou integralmente, conforme a declaração feita pelo treinador depois da vitória sobre o CRB.

Em outubro, a direção voltou a discutir a contratação de crédito. Uma reunião extraordinária do Conselho Deliberativo foi convocada para analisar uma operação de R$ 22 milhões.

Não há confirmação, nas informações consultadas, de que essa segunda operação tenha resultado na quitação dos salários.

Crise política provocou renúncia do presidente

A instabilidade financeira também foi acompanhada por mudanças na administração do Goiás.

Em 7 de outubro, Aroldo Guidão renunciou à presidência executiva do clube. O vice-presidente jurídico, Munir Calixto Júnior, assumiu o cargo.

A saída de Guidão foi anunciada no mesmo dia em que o Goiás venceu o Athletic por 2 a 1.

Questionado sobre a mudança depois daquela partida, Mozart afirmou que desconhecia a renúncia e que não tinha contato pessoal com o dirigente.

“Eu nem sabia dessa notícia. Eu, particularmente, nem conheço ele. Então… Prefiro nem comentar”, respondeu o treinador.

A renúncia ocorreu depois de meses de cobranças de torcedores, discussões no Conselho Deliberativo e dificuldades financeiras.

Veja a declaração de Mozart

Goiás está a um passo do G-6 da Série B

Dentro de campo, o Goiás chega às duas últimas rodadas da primeira fase em condições de disputar uma vaga nos playoffs de acesso à Série A.

Com a vitória sobre o CRB, o Esmeraldino alcançou 55 pontos e assumiu a sétima colocação. O adversário alagoano ocupa o sexto lugar, também com 55 pontos, mas leva vantagem no saldo de gols: três positivos contra três negativos do Goiás.

Djalma Silva e Cadu marcaram os gols da vitória esmeraldina na Serrinha. Dadá Belmonte descontou para o CRB.

A equipe comandada por Mozart está invicta há cinco partidas, com vitórias sobre Athletic, Operário-PR, Ceará e CRB, além de um empate com o Náutico.

O Goiás volta a campo no domingo (8), às 19h15, quando recebe a Ponte Preta, já rebaixada, na Serrinha. Na última rodada, enfrentará o Sport, fora de casa.

Pelo regulamento da Série B de 2026, os dois primeiros colocados garantem acesso direto à elite do futebol brasileiro. As equipes que terminarem entre a terceira e a sexta posições disputarão os playoffs pelas outras duas vagas.

Com seis pontos ainda em disputa, o Goiás segue na briga pela classificação, enquanto a diretoria enfrenta a cobrança pela regularização dos pagamentos ao elenco.

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