Bairros menos ricos de Goiânia estão entre os mais quentes, aponta UFG; veja lista
Segundo a pesquisa, a combinação entre altas temperaturas e vulnerabilidade faz com que parte da população fique exposta ao risco climático
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O calor em Goiânia não se distribui de maneira igual pelo território. Uma pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG) identificou que bairros classificados com maior vulnerabilidade social, ou seja, os mais pobres, também aparecem entre as áreas mais expostas às ilhas de calor na capital.
O resultado faz parte da tese de doutorado de Ana Cristina Araújo Foli, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFG. Para chegar à conclusão, a pesquisadora cruzou mapas de Temperatura da Superfície Terrestre (TST), obtidos por imagens de satélite, com o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) dos bairros de Goiânia.
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Entre os bairros apontados pela pesquisa estão Jardins do Cerrado, Vila Mutirão, Jardim Nova Esperança, Parque Tremendão, Jardim Novo Mundo, Setor São José, Parque Eldorado Oeste, Jardim Dom Fernando I e II, Setor Garavelo, Setor Caravelas, Conjunto Vera Cruz e Solange Park I e II.
Calor e vulnerabilidade se sobrepõem

A pesquisa considera que a exposição ao calor se torna mais preocupante quando ocorre em áreas onde a população também apresenta maior vulnerabilidade social. Nesses locais, além da exposição às altas temperaturas, os moradores tendem a ter menos recursos para adotar medidas de proteção e adaptação.
No mapa que cruza as duas informações, as áreas de calor aparecem associadas principalmente às regiões periféricas recentes, marcadas por pouca vegetação, maior impermeabilização do solo, solo exposto e áreas de pastagem. Já a população mais vulnerável está concentrada principalmente nas regiões Noroeste, Sudoeste, Leste e Oeste da capital.
A tese classifica como de alta vulnerabilidade social os bairros com IVS entre 0,400 e 0,500. Nessa faixa aparecem, entre outros, Conjunto Vera Cruz, Jardins do Cerrado, Parque Eldorado Oeste, Parque Atheneu, Vila Mutirão, Sol Nascente, Setor Andreia, Setor Grajaú, Setor Cristina, Jardim Curitiba e Balneário Meia Ponte.
Segundo a pesquisadora, a combinação entre altas temperaturas e vulnerabilidade faz com que parte da população fique duplamente exposta ao risco climático, já que enfrenta o calor com menor capacidade de adaptação.
A vice-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO), engenheira civil Juliana Matos, destaca que o problema não pode ser analisado apenas pela temperatura.
“A ilha de calor é um fenômeno ambiental, mas a vulnerabilidade ao calor também é social. Precisamos parar de tratar arborização, drenagem, mobilidade e ocupação do solo como políticas separadas. A cidade precisa ser planejada climaticamente.”

Nem todo bairro pobre é mais quente
A própria pesquisa faz uma ressalva importante: a relação entre vulnerabilidade social e altas temperaturas não ocorre em todos os bairros.
Algumas áreas apresentaram temperaturas elevadas mesmo tendo índices de vulnerabilidade baixos ou muito baixos. É o caso de bairros como Setor Campinas, Setor Centro-Oeste, Setor Leste Vila Nova, Setor Leste Universitário e Jardim Guanabara, que aparecem com baixa vulnerabilidade social apesar de terem registrado temperaturas elevadas em um dos períodos analisados.
Para Juliana Matos, essa diferença é importante para evitar uma interpretação simplificada do fenômeno. “Não dá para dizer que todo bairro mais pobre é necessariamente mais quente. O que acontece é que, em geral, as áreas mais vulneráveis têm menos arborização, menos áreas verdes e infraestrutura urbana mais precária. E, além disso, quem mora nessas regiões costuma ter menos recursos para se proteger do calor. É aí que aparece a desigualdade socioambiental.”
A tese também aponta que não foram identificadas áreas de vulnerabilidade social muito alta em Goiânia. Os bairros classificados como alta vulnerabilidade estão principalmente em áreas periféricas, enquanto setores mais centralizados e historicamente consolidados apresentam índices muito baixos ou baixos.

Asfalto, concreto e falta de arborização
Para o diretor do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, parte do problema está relacionada à forma como Goiânia cresceu.
“Goiânia foi projetada pra 50.000 habitantes. E não se imaginava ruas tão largas como as de hoje. Na parte central, por exemplo, não houve preocupação com arborização, e ao longo dos anos ela acaba se tornando realmente um problema”, afirma.
Segundo ele, o crescimento das principais avenidas aumentou a presença de superfícies como asfalto e concreto, além da verticalização. “As principais avenidas da capital cresceram, e temos muito asfalto, muito concreto, muito prédio naquela região, então acaba não tendo nenhuma circulação dos ventos, porque os prédios estão todos desalinhados. Não tem um corredor que possa circular e minimizar um pouco o calor. A arborização realmente é um problema crônico.”
A tese também relaciona a vulnerabilidade às características da urbanização. Entre os fatores apontados estão a expansão recente sem infraestrutura verde completa, a alta impermeabilização do solo, a supressão da cobertura vegetal, o solo exposto e a menor capacidade econômica de adaptação.
Segundo a pesquisa, a combinação desses fatores pode aumentar a exposição ao calor e reduzir a capacidade de resposta da população diante de eventos extremos.
Para Juliana Matos, o planejamento urbano precisa considerar essa desigualdade na distribuição dos impactos. “Falar de ilhas de calor é falar de qualidade de vida. A cidade precisa crescer, mas precisa crescer melhor: com mais verde, mais sombra, mais áreas permeáveis e mais equilíbrio. E o planejamento urbano tem que chegar principalmente onde a população mais precisa. Porque uma cidade mais sustentável também é uma cidade mais justa.”