Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026
COOPERATIVISMO FINANCEIRO

Cooperativas são única instituição financeira em 44 municípios de Goiás, diz levantamento

Cooperativas de crédito estão presentes em 170 municípios de Goiás, reúnem 658 mil associados e mantêm 485 unidades de atendimento

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Cooperativas de crédito ampliam presença em municípios goianos e somam 658 mil associados no estado (Foto: pexel)

As cooperativas financeiras já estão presentes em 69% dos municípios de Goiás e reúnem mais de 658 mil associados entre pessoas físicas e empresas. São 485 unidades de atendimento distribuídas por 170 das 246 cidades goianas. Em 44 municípios, elas são, atualmente, a única instituição financeira com presença física, segundo levantamento da Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito (Confebras), com dados de março de 2026.

O avanço ocorre enquanto parte do atendimento financeiro migra para canais digitais e instituições tradicionais reduzem estruturas físicas. O movimento amplia a importância das cooperativas principalmente nas cidades menores, onde produtores rurais, comerciantes e moradores ainda dependem de atendimento presencial para operações financeiras.O cenário também acompanha mudanças mais amplas da economia goiana. O Mais Goiás mostrou que sete indicadores ajudam a explicar o desempenho da economia de Goiás em 2026, com crescimento de setores como comércio e indústria ao mesmo tempo em que agro e serviços enfrentam desaceleração.

Segundo o presidente da Confebras, Luiz Lesse, a expansão continua em 2026. Nos três primeiros meses do ano, 18,2 mil pessoas passaram a fazer parte de cooperativas financeiras no estado, alta de 2,84% sobre o fechamento de 2025. Três novas unidades de atendimento foram abertas no mesmo período.“Enquanto os bancos comerciais concentram suas agências nos mercados de maior escala, o cooperativismo de crédito segue presente em cidades menores”, afirma Lesse.

O crescimento de Goiás acompanha um movimento registrado nacionalmente pelo Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo do Banco Central. Ao fim de 2025, o setor estava presente em 59% dos municípios brasileiros e reunia 21,2 milhões de cooperados, sendo 17,8 milhões de pessoas físicas e 3,4 milhões de empresas.O próprio Banco Central mantém uma base mensal de cooperados por município, construída a partir de informações enviadas pelas cooperativas à autoridade monetária.

Crédito para empresas chega a R$ 11,12 bilhões

A expansão da presença física foi acompanhada pelo crescimento da carteira de crédito.Em 2025, as operações das cooperativas destinadas a pessoas jurídicas em Goiás somaram R$ 11,12 bilhões. Um ano antes, eram R$ 10,49 bilhões, crescimento nominal de aproximadamente 6%. Micro e pequenas empresas ficaram com R$ 3,99 bilhões desse total, o equivalente a aproximadamente 36% da carteira destinada às empresas.

Dentro desse segmento, as pequenas empresas receberam R$ 3,32 bilhões em 2025, contra R$ 3,21 bilhões no ano anterior, aumento de 3,43%. As microempresas responderam por outros R$ 670 milhões.O peso desse crédito ganha relevância diante do perfil empresarial do estado. Levantamento divulgado pelo Mais Goiás sobre os pequenos negócios no estado mostrou, por exemplo, que apenas as mulheres já comandam 44% desse segmento em Goiás.

Outra frente de financiamento está na capital. Em abril, Goiânia lançou o Fomenta Goiânia, com linhas destinadas a MEIs, autônomos e microempresas. Segundo os dados apresentados pela Confebras, entre 2017 e 2025 a quantidade de unidades de atendimento das cooperativas aumentou cerca de 180% em Goiás. No mesmo intervalo, o número de cooperados avançou aproximadamente 335% e a carteira de crédito cresceu mais de 600%. O crescimento da carteira, portanto, foi superior tanto à expansão da rede física quanto ao aumento da base de associados.

Crédito rural movimenta R$ 3,14 bilhões

No campo, cooperativas de crédito e bancos cooperativos concederam R$ 3,14 bilhões em crédito rural em Goiás durante 2025, conforme dados da Matriz de Dados do Crédito Rural do Banco Central apresentados pela Confebras.A Matriz de Dados do Crédito Rural do Banco Central reúne as operações registradas pelas instituições financeiras e permite separar os financiamentos por período, programa e fonte de recursos.

Do volume concedido pelas instituições cooperativas em Goiás, R$ 68,5 milhões foram contratados pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). O montante representa cerca de 2,2% dos R$ 3,14 bilhões.Outros R$ 651,1 milhões foram destinados ao Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), aproximadamente 20,7% do total.

A divisão completa por porte de produtor disponibilizada pelo Banco Central é nacional e, por isso, não permite aplicar os mesmos percentuais diretamente a Goiás. No país, pequenos produtores concentravam 37,3% da carteira rural ativa do sistema cooperativo, médios produtores, 35,8%, e grandes produtores, 26,9%.

Para o atual ano agrícola, as regras do Pronamp passaram por novos ajustes do Conselho Monetário Nacional. A Resolução CMN nº 5.322, de junho de 2026 estabelece as normas aplicáveis ao programa na safra 2026/2027.Já o Plano Safra da Agricultura Familiar reservou R$ 85,2 bilhões para operações do Pronaf em 2026/2027 em todo o país.

Em Goiás, a disponibilidade de crédito ocorre em um momento de pressão sobre as contas dos produtores. O Mais Goiás mostrou que o saldo problemático do crédito rural chegou a R$ 21,44 bilhões no estado em maio de 2026, considerando atrasos, inadimplência e operações renegociadas. O valor representava 26,88% dos R$ 79,7 bilhões da carteira rural goiana naquele momento e havia aumentado 237% em dois anos.Goiás também concentrou 15% dos pedidos de recuperação judicial do agronegócio brasileiro em 2025, com 296 casos.

Cooperativas não informam taxa média para comparação com bancos

Apesar do crescimento da carteira, os dados apresentados pela Confebras não permitem concluir que todas as operações das cooperativas tenham juros inferiores aos encontrados nos bancos tradicionais.Questionado sobre as taxas médias cobradas nas linhas de capital de giro e crédito rural e sobre como elas se comparam às instituições bancárias, Lesse não apresentou percentuais médios.

Segundo ele, as condições dependem da modalidade contratada, prazo, garantias, perfil do associado e risco de cada operação.“Não existe uma tabela única válida para todo o sistema”, afirma. Sem taxas médias equivalentes, portanto, não é possível estabelecer uma comparação direta entre cooperativas e bancos apenas com os números fornecidos pelo setor.

Para o consumidor, a comparação precisa considerar principalmente o Custo Efetivo Total (CET), que reúne juros, tarifas e outros encargos incidentes sobre uma operação de crédito. A questão ganha importância em um estado onde o endividamento das famílias permanece elevado. Em março, 75,8% das famílias goianas tinham algum tipo de dívida, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio divulgado pelo Mais Goiás. Outros 38,6% tinham contas em atraso.

Associado compra cota e participa dos resultados

O modelo das cooperativas também difere dos bancos na estrutura societária. Para ingressar, o associado integraliza uma cota de capital e passa a ser também proprietário de uma parcela da cooperativa. O valor varia conforme cada instituição. A integralização não funciona como tarifa bancária. O dinheiro passa a compor o capital social e sua restituição em caso de saída depende das regras previstas no estatuto da cooperativa.

As cooperativas também podem cobrar tarifas e oferecer seguros e outros produtos financeiros. Quando há resultado positivo, parte das chamadas sobras pode ser distribuída aos cooperados de acordo com decisão da assembleia e critérios relacionados à movimentação realizada por cada associado. A legislação permite que cooperativas de crédito captem depósitos e concedam financiamentos aos associados. O Banco Central detalha o funcionamento e a regulamentação do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo.

Risco da carteira aumentou em 2025

A expansão do crédito veio acompanhada de aumento do risco das operações. O Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo mostra que o risco da carteira cresceu em 2025 tanto entre pessoas físicas quanto entre empresas. Apesar disso, segundo o Banco Central, o volume de provisões continuou acima das perdas esperadas e os índices de capital das cooperativas permaneceram superiores aos limites prudenciais.

A análise dos números também precisa considerar uma mudança regulatória ocorrida no início daquele ano. Em 1º de janeiro de 2025 entraram em vigor novas regras contábeis para instrumentos financeiros, que alteraram critérios de classificação de risco e reconhecimento de perdas. A mudança foi estabelecida pela Resolução CMN nº 4.966 e aproximou as normas brasileiras do padrão internacional IFRS 9. Lesse afirma que as cooperativas trabalham com análise de capacidade de pagamento, renegociação de dívidas e programas de educação financeira para tentar limitar inadimplência e superendividamento.

Centro-Oeste tem 12% da população associada

O avanço de Goiás ocorre dentro de uma região em que o cooperativismo financeiro tem participação acima da média brasileira. No Centro-Oeste, aproximadamente 12% da população está associada a alguma cooperativa financeira. A presença alcança cerca de 80% dos municípios da região, contra 59% no país ao fim de 2025, segundo dados do Banco Central e da Confebras.

As cooperativas respondem por 28% da carteira de capital de giro destinada a micro, pequenas e médias empresas no Centro-Oeste e por 13% do crédito rural e agroindustrial concedido a pessoas físicas na região. Entre pessoas físicas não ligadas à atividade agrícola, 21% do saldo de crédito das cooperativas estava concentrado em clientes com renda de até três salários mínimos no fim de 2025, segundo os dados apresentados pela Confebras.

Goiânia recebe congresso do setor

O crescimento das cooperativas no Centro-Oeste é um dos temas que entram em discussão no 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), realizado entre esta quarta-feira (26) e sexta-feira (28), no Centro de Convenções da PUC Goiás, no Jardim Mariliza, em Goiânia. O encontro reúne dirigentes, especialistas e representantes do sistema financeiro para discutir crédito, risco, tecnologia, governança e sustentabilidade. A programação conta com mais de 60 palestrantes, segundo a organização. O congresso é organizado pela Confebras e tem participação de representantes do Banco Central e de entidades ligadas ao cooperativismo financeiro.

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