Goiás lidera ranking de decisões trabalhistas sobre desigualdade de gênero proporcionalmente à população
Embora apareça em segundo lugar em números absolutos, atrás apenas do Paraná, Goiás lidera o ranking nacional quando o número de decisões é comparado ao tamanho da população.
Ir direto pra matéria
O estado de Goiás concentra praticamente 22% das decisões trabalhistas do país envolvendo caos de “Perspectivas de Gênero”, ou seja, processos judiciais que reconhece desigualdades históricas entre homens e mulheres na sociedade. Os números são do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Até o último dia 13 de agosto, Goiás tinha 260 processos julgados na Justiça do Trabalho em Goiás (TRT 18ª Região) em que magistrados aplicaram o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero para analisar o caso concreto. Em todo o país (24 TRTs), eram 1.187 processos.
Na proporção com a população, Goiás aparece na liderança nacional. O estado tem aproximadamente 7,4 milhões de habitantes e registrou 260 decisões, enquanto o Paraná, que teve 275 decisões, possui população de 11,9 milhões.
- Justiça homologa pagamento de R$ 7,3 milhões a ex-funcionários da Maternidade Célia Câmara, em Goiânia; entenda
- TRT-GO vai eliminar processos físicos dos anos 1996 a 2013, saiba como solicitar cópias
Professora e mestre em Direito do Trabalho, a advogada Juliana Mendonça acredita existem dois motivos para que os goianos liderem o ranking.
“Essa concentração pode significar duas coisas, não excludentes entre si: primeiro, que os magistrados e magistradas estão, de fato, aplicando o protocolo com mais rigor e visibilidade na fundamentação das decisões. Segundo, que o número reflete também a realidade social de desigualdade de gênero no mercado de trabalho local e violência por razões de gênero, que segue gerando litígios”, explica.
Recentemente, a condenação de uma franquia de restaurante em Goiânia reacendeu o debate sobre assédio moral no trabalho. A empresa exigiu que uma funcionária adolescente de 17 anos apresentasse teste de gravidez para continuar trabalhando, e foi condenada a pagar R$ 5 mil por danos morais.
“Goiás está, de fato, vivendo um agravamento real e mensurável da violência de gênero, e isso ajuda a explicar por que o estado concentra tantos processos com aplicação do protocolo”, afirma a professora.

Entenda
O Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero foi elaborado pelo CNJ em 2021 e passou a ter adoção obrigatória em todo o Poder Judiciário em março de 2023, por meio da Resolução nº 492. O objetivo é orientar magistrados a identificar e enfrentar desigualdades estruturais e evitar que decisões judiciais reproduzam preconceitos e discriminações.
Os dados do painel do CNJ mostram que, em Goiás, as decisões que aplicaram o protocolo têm como principais assuntos rescisão indireta (50 casos), assédio sexual (26), assédio moral (18), direitos de gestantes (14) e reversão de justa causa (9).
- Acordo de R$ 2,5 milhões encerra ação trabalhista por morte de supervisor em Goiás
- Justiça do Trabalho nega vínculo empregatício a pastor de Goiás após 20 anos de atuação em igreja
Segundo o advogado trabalhista Gilmar Rocha Júnior, é preciso interpretar esses números com cautela. “O painel do CNJ considera apenas o assunto principal do processo. Na Justiça do Trabalho, é muito comum que uma ação tenha como pedido principal a rescisão indireta, mas ela seja motivada justamente por assédio moral, assédio sexual, discriminação por gravidez ou outras formas de violência. Por isso, a incidência dessas condutas é provavelmente maior do que a indicada no ranking”, aponta.

Feminicídio
Se por um lado é alto o número de casos de assédio contra as mulheres no trabalho, os dados de Feminicídio em Goiás também estão crescentes. Em 2025, a alta na modalidade criminosa foi de 4,3% na comparação com 2024. Foram 59 casos de assassinato de mulheres em decorrência do gênero, três a mais que os 56 registrados em 2024.
Os números estão no Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 e no Monitor Nacional da Violência contra a Mulher.
Outro número que choca é o de crimes de ‘stalking’, ou seja, de perseguição às mulheres. Foram 4.334 denúncias em 2025, quase 200 a mais que as 4.136 de 2024, apresentando elevação de 4,7%.
| Posição | TRT | Estado(s) | Decisões |
|---|---|---|---|
| 1º | TRT-9 | Paraná (PR) | 275 |
| 2º | TRT-18 | Goiás (GO) | 260 |
| 3º | TRT-2 | São Paulo (SP) | 134 |
| 4º | TRT-13 | Paraíba (PB) | 58 |
| 5º | TRT-24 | Mato Grosso do Sul (MS) | 62 |
| 6º | TRT-14 | Acre e Rondônia | 53 |
| 7º | TRT-17 | Espírito Santo | 45 |
| 8º | TRT-3 | Minas Gerais | 43 |
| 9º | TRT-5 | Bahia | 40 |
| 10º | TRT-15 | São Paulo – interior | 39 |
| 11º | TRT-11 | Amazonas e Roraima | 37 |
| 12º | TRT-23 | Mato Grosso | 29 |
| 13º | TRT-12 | Santa Catarina | 23 |
| 14º | TRT-1 | Rio de Janeiro | 21 |
| 15º | TRT-4 | Rio Grande do Sul | 20 |
| 16º | TRT-8 | Pará e Amapá | 16 |
| 17º | TRT-6 | Pernambuco | 14 |
| 18º | TRT-10 | Distrito Federal e Tocantins | 10 |
| 19º | TRT-7 | Ceará | 4 |
| 20º | TRT-16 | Maranhão | 2 |
| 20º | TRT-19 | Alagoas | 2 |