A cidade goiana que virou destino de pescadores atrás dos peixes mais briguentos
Represa do Rio Paranaíba transformou Itumbiara em referência para a pesca esportiva do tucunaré, espécie conhecida pela força e pela resistência durante a captura
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No sul de Goiás, na divisa com Minas Gerais, Itumbiara associa parte de sua atividade turística a um peixe conhecido pela reação durante a captura. O tucunaré ataca a isca, muda de direção e resiste ao recolhimento da linha. Esse comportamento explica por que pescadores o classificam como um dos peixes mais “briguentos” da pesca esportiva.
A atividade tem como cenário o Rio Paranaíba e o reservatório da Usina Hidrelétrica de Itumbiara. A cidade tem 107.970 habitantes, conforme o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas recebe uma estrutura hídrica que ultrapassa os limites do município e alcança áreas de Goiás e Minas Gerais.
O lago, a presença do tucunaré e a infraestrutura urbana formam a base de um segmento que envolve passeios, torneios, hospedagem, alimentação, comércio de equipamentos e serviços ligados às embarcações.
Lago de Itumbiara tem área superior à de Goiânia

O reservatório de Itumbiara ocupa uma área inundada de 778 km² e tem perímetro de aproximadamente 2,4 mil quilômetros. Os dados constam em um projeto federal de recuperação de áreas no entorno da usina.
A dimensão supera a área territorial de Goiânia, que possui 729,296 km², segundo o IBGE. A comparação ajuda a demonstrar o tamanho da superfície de água ligada ao reservatório.
A Usina Hidrelétrica de Itumbiara fica entre os municípios de Itumbiara, em Goiás, e Araporã, em Minas Gerais. A unidade tem capacidade instalada de 2.082 megawatts. Além da geração de energia, o reservatório permite usos associados ao turismo, aos esportes náuticos e à pesca.
A Goiás Turismo inclui Itumbiara na Região Turística Lagos do Paranaíba e identifica a represa como ponto de pesca esportiva. A classificação coloca o município ao lado de cidades como São Simão, Cachoeira Dourada, Caçu, Quirinópolis, Lagoa Santa, Buriti Alegre e Três Ranchos.
Por que o tucunaré ganhou fama de “briguento”
O tucunaré pertence ao gênero Cichla e tem comportamento predador. O peixe localiza a presa, avança sobre a isca e reage após a captura. Na pesca esportiva, essa resposta exige controle da linha e atenção do pescador.
Entre as espécies conhecidas no Brasil estão o tucunaré-azul, de nome científico Cichla piquiti, e o tucunaré-amarelo, o Cichla kelberi. Pesquisas do Instituto de Pesca indicam que ambientes de águas represadas favorecem peixes que identificam visualmente e perseguem suas presas, como os tucunarés.
O estudo também aponta a importância do gênero para a pesca esportiva e alerta para os efeitos sobre a biodiversidade. Na Bacia do Rio Paranaíba, o tucunaré é uma espécie introduzida, ou seja, não pertence à composição original daquele sistema aquático.
O Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Paranaíba identifica o peixe como espécie exótica na bacia e registra sua participação no crescimento da pesca esportiva nos reservatórios.
Essa condição impõe um desafio. O mesmo peixe que atrai pescadores e sustenta serviços turísticos pode exercer pressão sobre espécies nativas. Por isso, pesquisadores defendem monitoramento das populações e medidas de manejo com base nas condições de cada bacia.
Torneio reúne barcos e caiaques no Rio Paranaíba
A presença da pesca no calendário local aparece em junho de 2022, quando a prefeitura promove o primeiro Pesca Itumbiara. O torneio ocorre no Rio Paranaíba e admite até 100 equipes nas modalidades embarcada e caiaque.
Na categoria embarcada, cada equipe pode ter até três integrantes. No caiaque, o limite é de duas pessoas. As informações constam na divulgação oficial da Prefeitura de Itumbiara.
O evento integra uma programação ambiental que também inclui uma remada com recolhimento de resíduos no rio. A associação entre competição e ação de limpeza mostra que o futuro da pesca depende das condições da água e da conservação das margens.
Torneios também ampliam a procura por hospedagem, restaurantes, combustível, manutenção de embarcações e equipamentos. Não há um balanço público recente que isole quanto a pesca esportiva acrescenta à economia de Itumbiara. Ainda assim, o planejamento turístico estadual reconhece o Rio Paranaíba e o lago como ativos capazes de ampliar o movimento de visitantes no município.
Pesca sustenta cadeia de serviços
Uma viagem de pesca não se limita ao período em que o visitante permanece no rio. O deslocamento cria demanda por hotéis, pousadas, alimentação, transporte, comércio de iscas e equipamentos, aluguel de embarcações e trabalho de condutores.
Os guias locais têm função dentro dessa cadeia porque conhecem os acessos, as condições do reservatório e as normas aplicáveis. Marinas, oficinas, lojas de pesca e postos de combustíveis também integram o conjunto de serviços associado à atividade.
O potencial econômico, no entanto, depende da manutenção dos estoques pesqueiros e da qualidade ambiental. Sem peixe, água em condições adequadas e fiscalização, o destino perde a capacidade de receber visitantes de forma contínua.
Itumbiara oferece roteiro além da pesca
A pesca esportiva divide espaço com outros pontos de interesse. O calçadão da Avenida Beira Rio, o Museu da Cultura, o Centro Histórico e a Ponte Pênsil Affonso Penna ampliam o roteiro de quem visita a cidade.
A ponte atravessa o Rio Paranaíba e representa uma ligação histórica entre Goiás e Minas Gerais. A Goiás Turismo a identifica como a ponte pênsil mais antiga do tipo no Brasil e como um dos símbolos de Itumbiara.
O lago também permite passeios de barco e outras atividades náuticas. O Mais Goiás já apresenta Itumbiara como destino turístico ligado à pesca, aos passeios e ao Rio Paranaíba, além de destacar pontos como a Avenida Beira Rio, o Museu da Cultura e a Ponte Affonso Penna.
Essa variedade atende não apenas aos pescadores, mas também às famílias e aos acompanhantes que procuram atividades fora das embarcações.
Regras da pesca mudam durante o defeso
A pesca em Goiás segue a Instrução Normativa nº 17/2026, que estabelece a política de Cota Zero e as regras para diferentes modalidades. A norma fixa o período anual de defeso entre 1º de novembro e 28 de fevereiro nas bacias dos rios Araguaia-Tocantins, Paranaíba e São Francisco.
Durante o defeso, a pesca esportiva e a pesca conduzida só são permitidas em reservatórios, no sistema de captura e soltura. A regra determina a devolução imediata do peixe à água e proíbe competições nesse período. O texto integral está disponível no portal de legislação da Casa Civil de Goiás.
Como o Rio Paranaíba marca parte da divisa entre Goiás e Minas Gerais, o pescador precisa consultar as regras estaduais e federais aplicáveis ao trecho escolhido. Licenças, períodos de restrição e modalidades permitidas podem variar conforme a localização.
Turismo depende da conservação do Rio Paranaíba

A pesca esportiva coloca Itumbiara em uma rota que combina água, turismo e serviços. O tucunaré funciona como principal elemento de atração por causa da reação durante a captura, mas a permanência da atividade exige fiscalização e acompanhamento ambiental.
O reservatório tem área superior à do município de Goiânia e alcança diferentes cidades. Essa dimensão oferece espaço para o turismo, mas também amplia a responsabilidade sobre erosões, resíduos, qualidade da água e espécies introduzidas.
Itumbiara transforma o peixe conhecido pela resistência em motivo de viagem. A continuidade desse mercado depende do equilíbrio entre uso turístico, atividade econômica e conservação do Rio Paranaíba.