Segunda-feira, 26 de Outubro de 2026
SONHO E SUPERAÇÃO

Goiano supera coma de três anos, retoma os estudos e ingressa em Direito com sonho de ser juiz

Após despertar, João Paulo precisou reaprender a se comunicar e contou com o apoio da mãe e da irmã durante a recuperação

Aline Drumond
Por - Goiânia, GO
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João Paulo durante o período de recuperação após passar três anos em coma devido a uma overdose de cocaína

Aos 19 anos, João Paulo Miguel dos Santos estudava, trabalhava como segurança e se dedicava à música, especialmente ao rap. A rotina mudou após uma overdose de cocaína, em 2011, que o deixou em coma por três anos. Ao despertar, ele precisou lidar com dificuldades para falar e se movimentar. Hoje, aos 33 anos, cursa Direito em Goiânia e tem o sonho de se tornar juiz.

Em entrevista ao Mais Goiás, João Paulo contou que, ao recuperar a consciência, teve a impressão de que havia apenas dormido e acordado normalmente. Não tinha a percepção de que três anos haviam passado. Depois de deixar o hospital, permaneceu acamado em casa e utilizou uma traqueostomia para auxiliar na respiração. A dificuldade para falar tornou tarefas cotidianas, como pedir água, um desafio.

João Paulo precisou reaprender movimentos e formas de se comunicar após o coma (Foto: arquivo pessoal)

Sem conseguir expressar o que precisava, João Paulo batia na parede ou na janela para chamar a atenção de quem estava por perto. Quando alguém entendia o que ele queria, respondia movimentando os dois olhos. A mãe e a irmã também precisaram aprender a reconhecer seus sinais para identificar suas necessidades, já que ele ainda não conseguia falar.

“O que eu mais queria era conseguir falar. É uma sensação muito ruim não conseguir se comunicar”, contou.

A decisão de voltar a estudar partiu dele

Em 2019, João Paulo decidiu retomar os estudos para concluir o ensino médio. Encontrar uma escola que o recebesse, no entanto, foi uma das primeiras dificuldades dessa nova etapa. Ele procurou 15 instituições antes de conseguir uma vaga no Colégio Estadual João José Coutinho, no Conjunto Vera Cruz I, em Goiânia.

João Paulo voltou a estudar em 2019 e concluiu o ensino médio em 2021 (Foto: arquivo pessoal)

A unidade não tinha a estrutura necessária para receber um estudante que utiliza cadeira de rodas. Ainda assim, a gestora decidiu efetivar a matrícula e providenciar adaptações. No início, foi instalada uma barra de apoio no banheiro. Cerca de três meses depois, segundo João Paulo, a escola já contava com um banheiro adaptado e uma rampa.

Além das barreiras físicas, ele temia sofrer preconceito ao retornar à sala de aula. A recepção dos colegas e professores, porém, foi diferente do que imaginava.

“Eu pensava que ia sofrer com preconceito na escola. Ao contrário, fui bem recebido pelos alunos e professores. Isso nunca vou esquecer”, afirmou.

A decisão de voltar a estudar também foi questionada por pessoas próximas, mas João Paulo encontrou na mãe o apoio para continuar. Em 2021, concluiu o ensino médio. A partir dali, começou uma etapa que o levaria à graduação em Direito.

Do sonho de vencer na vida à escolha pelo Direito

João Paulo está no terceiro período de Direito da Faculdade Unida de Campinas (FacUnicamps), em Goiânia. A graduação o aproximou de um objetivo que mantém desde o início do curso: tornar-se juiz. Ele reconhece que o caminho é mais complexo do que imaginava, mas não pretende desistir.

“Quando eu comecei a faculdade, meu objetivo era ser juiz. Não é fácil como achei, mas não é impossível. Para ser juiz, primeiro tem que advogar. É um processo, mas, com fé, força e perseverança, eu vou conseguir”, afirmou.

João Paulo apresentando trabalho durante aula do curso de Direito (Vídeo: arquivo pessoal)

A escolha pelo curso também está relacionada às dificuldades que enfrenta como pessoa com deficiência. João Paulo quer conhecer melhor a legislação e os direitos dessa população para, no futuro, ajudar outras pessoas que passam por situações semelhantes.

A falta de acessibilidade em Goiânia continua sendo um obstáculo em sua rotina. Para quem utiliza cadeira de rodas, circular pela cidade exige condições adequadas nos espaços públicos e nos locais de uso cotidiano, algo que, segundo ele, ainda não faz parte de toda a realidade que encontra.

Da dificuldade para sentar à primeira caminhada com o andador

A recuperação também trouxe mudanças graduais na mobilidade. Uma das primeiras conquistas de João Paulo foi conseguir se sentar na própria cadeira de rodas. No início, sentia tontura e não conseguia permanecer sentado.

Mais tarde, conseguiu dar os primeiros passos com o auxílio de um andador, na presença de um primo. O episódio permanece entre as lembranças marcantes de sua recuperação, depois de um período em que até se manter sentado era difícil.

João Paulo deu os primeiros passos com o andador durante a recuperação (Foto: arquivo pessoal)

Desde 2021, João Paulo faz acompanhamento no Hospital Sarah, em Brasília. Ao longo desse processo, também percebeu avanços na comunicação. Ele estima ter recuperado cerca de 90% da capacidade de falar e afirma que hoje as pessoas conseguem compreendê-lo com mais facilidade.

Apesar dos avanços, continua utilizando cadeira de rodas no dia a dia. A reabilitação segue em paralelo à graduação, enquanto ele trabalha para ampliar a mobilidade e manter a autonomia nas atividades cotidianas.

Um futuro que ele não imaginava

Ao recordar a vida antes da overdose, João Paulo se define como um jovem sonhador, que queria vencer na vida. Hoje, o sonho de se tornar juiz representa a possibilidade de olhar para trás e reconhecer tudo o que enfrentou para chegar até ali.

Ele conta que imagina o dia em que poderá avaliar a própria trajetória e perceber que as noites mal dormidas e os dias em que precisou acordar cedo valeram a pena. Para ele, a música Resiliência, de Duck Jay da Periferia, traduz esse sentimento e serve de inspiração para continuar perseguindo seu objetivo.

“Ah, vou poder olhar para trás e falar: valeu a pena todo o esforço, todas as vezes que dormi tarde e acordei cedo. Vai ser o dia, nem imagino. Essa música me inspira demais e diz tudo”, afirmou, ao citar a canção.

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