Lendas de Goiânia: a história da mulher de branco que aparecia à noite e assustava motoristas no setor Fama
Lenda do Setor Fama fala de uma mulher que teria morrido na estrada e voltado para assustar quem passava pela região; história foi registrada em pesquisa da UEG
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Entre as lendas urbanas mais famosas de Goiânia, está a de uma mulher vestida de branco que teria aparecido para motoristas durante a noite e causado uma série de acidentes nas proximidades da antiga fábrica Leite Gogó, no Setor Fama. O fantasma seria o de uma pessoa morta na região. Essa e outras histórias de assombração na cidade estão em uma pesquisa conduzida pelo historiador Luiz Felipe Pereira Nunes, da Universidade Estadual de Goiás (UEG).
O estudo se chama Pelas ruas de Goiânia: evocando lendas urbanas como patrimônio imaterial (2000-2023) e foi apresentado em 2024, listando 17 lendas urbanas. São histórias que se passam em cemitérios, edifícios comerciais, espaços culturais e antigas construções.
O relato da mulher de branco difere da maioria dos outros colhidos por Luiz Felipe porque a aparição de outras assombrações costuma ser em locais fechados. Já essa moça teria sido vista na rua, nas proximidades do antigo Leite Gogó e do Cemitério Jardim das Palmeiras.
Mulher teria morrido na estrada e voltado para assustar motoristas

Uma das versões mais antigas publicadas sobre a lenda apresenta a mulher de branco como o espírito de uma pessoa que teria morrido em um acidente de trânsito.
Segundo reportagem do portal Curta Mais, publicada em 2017, a personagem era associada a aparições noturnas na região do antigo Leite Gogó.
Na narrativa, a mulher surgia diante dos veículos e assustava os motoristas. Algumas versões atribuíam à aparição a ocorrência de acidentes.
A publicação também registrou que já não havia notícias recentes de fenômenos sobrenaturais naquele local.
Outro relato, reproduzido em 2016 pelo site Colecionador de Sacis a partir de uma reportagem sobre o folclore goiano, localizava a mulher de branco na baixada do antigo Leite Gogó.
O texto relacionava o desaparecimento dos relatos ao crescimento da cidade naquela região.
Esses registros permitem identificar pelo menos dois elementos da história: a associação com uma suposta morte na estrada e a localização da aparição em um ponto específico de Goiânia.
Não foram identificados, entretanto, documentos que comprovem a identidade da mulher ou estabeleçam um acidente real como origem da narrativa.
Pesquisa da UEG registra uma versão em que a mulher pede carona

O levantamento do historiador Luiz Felipe Pereira Nunes acrescenta outro detalhe à história.
Na tabela de lendas urbanas identificadas em Goiânia, o pesquisador registra a antiga fábrica Leite Gogó como cenário do avistamento de uma mulher vestida de branco que pede carona.
Essa descrição apresenta uma diferença em relação aos registros jornalísticos anteriores, nos quais a personagem aparece principalmente como uma figura que assusta motoristas.
A variação é importante porque mostra como uma mesma lenda pode adquirir características diferentes conforme é transmitida.
Na versão registrada pela UEG, o pedido de carona aproxima a personagem de um tipo de narrativa conhecido no folclore como fantasma caroneiro.
Nesse tipo de história, uma pessoa aparentemente comum aparece em uma estrada e solicita transporte. O elemento sobrenatural costuma ser revelado durante o trajeto ou depois do encontro.
O estudo não identifica um motorista específico que tenha transportado a mulher do Leite Gogó nem apresenta documentação que comprove o episódio.
O registro demonstra, porém, que a versão da carona passou a integrar a memória popular associada ao local.
Relato de assassinato também aparece em questionário da pesquisa
A investigação da UEG apresenta uma informação que amplia as possibilidades de análise da lenda.
Em um questionário aplicado durante o estudo, uma das respostas associa a região do antigo Leite Gogó ao assassinato de um casal.
O participante não informa nomes, data ou circunstâncias do suposto crime.
Por isso, a resposta não permite afirmar que o assassinato realmente aconteceu ou que tenha originado a história da mulher de branco.
O dado é relevante por outro motivo: mostra que diferentes narrativas sobre violência e morte passaram a circular em torno do mesmo endereço.
Enquanto uma versão fala de uma mulher morta em acidente, outra menciona um casal assassinado. Já o registro da carona concentra a história na aparição noturna.
As três informações não formam necessariamente uma única sequência de acontecimentos. Elas representam relatos distintos que foram associados à região.
A diferença entre essas versões é um dos aspectos que permitem estudar a transformação das lendas urbanas ao longo do tempo.
Por que a mulher de branco aparece em histórias de diferentes cidades?

A personagem não é exclusiva de Goiânia.
Histórias sobre mulheres vestidas de branco aparecem em diferentes regiões brasileiras, principalmente em narrativas ambientadas em estradas, curvas e locais associados a acidentes.
Em algumas versões, a personagem pede carona. Em outras, permanece parada à margem da pista ou desaparece quando alguém tenta se aproximar.
O folclorista Luís da Câmara Cascudo registrou a chamada Dama de Branco entre as figuras conhecidas das tradições populares.
Essas narrativas não possuem necessariamente a mesma origem. Em cada região, a personagem pode receber uma identidade, um passado e uma explicação diferentes.
No caso de Goiânia, o antigo Leite Gogó funciona como referência geográfica da história. A lenda não depende apenas da descrição de uma mulher fantasma, mas também da memória de um lugar que passou por mudanças.
O estudo da UEG considera essa ligação entre narrativa e território um elemento importante para compreender a permanência das histórias populares.
Crescimento de Goiânia mudou a região associada à aparição

Os registros mais antigos consultados indicam que os relatos sobre a mulher de branco perderam força com as transformações urbanas da região.
A reportagem reproduzida em 2016 pelo Colecionador de Sacis já observava que a personagem havia deixado de ser mencionada com frequência à medida que a cidade crescia no entorno do antigo Leite Gogó.
Isso não permite determinar quando a lenda surgiu ou deixou de circular. Mostra apenas que, na época dessas publicações, a história já era apresentada como uma lembrança de outros tempos.
A referência à antiga fábrica continua importante porque permite localizar a narrativa mesmo depois das mudanças ocorridas na paisagem urbana.
Em vez de estar associada a um endereço residencial ou a um prédio ainda reconhecido por sua função original, a história sobrevive vinculada ao nome de um estabelecimento do passado.
Lenda pode integrar roteiro de turismo sombrio em Goiânia
A pesquisa de Luiz Felipe Pereira Nunes propõe utilizar as lendas urbanas como referências para a construção de roteiros culturais em Goiânia.
O trabalho considera a possibilidade de organizar visitas a locais associados a histórias de mortes, aparições e acontecimentos misteriosos, dentro de uma proposta de turismo sombrio.
A iniciativa parte da documentação das narrativas e de sua relação com a memória da cidade.
O levantamento reúne informações sobre os locais, as personagens e as fontes em que as histórias foram registradas. Também utiliza questionários para investigar o conhecimento da população sobre essas narrativas.
A mulher de branco do antigo Leite Gogó aparece entre as 17 lendas catalogadas na capital.
Sua inclusão mostra que as histórias urbanas não estão restritas a monumentos ou construções históricas. Ruas, antigas fábricas e pontos de passagem também podem adquirir significados próprios na memória coletiva.
Não há comprovação de que uma mulher fantasma tenha aparecido diante de motoristas no Setor Fama. O que permanece documentado é a circulação da narrativa e sua associação com um lugar real de Goiânia.
Décadas depois, a pergunta que sustenta a lenda continua sem resposta: quem seria a mulher de branco que, segundo as histórias, aparecia à noite nas proximidades do antigo Leite Gogó.