Terça-feira, 04 de Agosto de 2026
Santa Rita do Araguaia

Investigação iniciada em Goiás leva à denúncia de 33 pessoas por tráfico internacional

Justiça Federal bloqueou R$ 78,1 milhões em bens dos investigados; apuração começou após apreensão de quase meia tonelada de droga

Inglid Martins
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Imagem da operação

Uma investigação iniciada pela Polícia Civil de Goiás após a apreensão de quase meia tonelada de cocaína em uma pista clandestina de Santa Rita do Araguaia, no sudoeste do estado, avaliada em R$ 25 milhões, levou o Ministério Público Federal (MPF) a denunciar 33 pessoas por integrar uma organização criminosa transnacional especializada no tráfico internacional de drogas e na lavagem de dinheiro. A pedido do MPF, a Justiça Federal determinou o bloqueio de R$ 78,1 milhões em bens e valores dos investigados, incluindo imóveis, aeronaves, veículos de alto padrão e recursos financeiros.

A investigação começou em 20 de abril de 2025, quando uma aeronave realizou um pouso clandestino na zona rural do município. No interior do avião foram encontrados 450 tabletes de cloridrato de cocaína, que totalizaram 470,8 quilos da droga. Os dois ocupantes tentaram fugir para uma área de mata, mas foram localizados e presos em flagrante.

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Com os pilotos, as equipes apreenderam celulares, equipamentos de navegação aérea e anotações com coordenadas geográficas relacionadas à Bolívia. A perícia em um GPS aeronáutico permitiu reconstituir a rota percorrida pela aeronave entre a região do Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS), na Bolívia, e o estado de Goiás.

Imagem da operação
Avião com meia tonelada de drogas é apreendido no oeste goiano (Foto: PMGO)

Estrutura criminosa e lavagem de dinheiro

Segundo o MPF, a análise dos equipamentos eletrônicos, somada ao cruzamento de informações bancárias, fiscais e telemáticas, revelou uma estrutura criminosa organizada em quatro núcleos. O primeiro era responsável pela logística aérea, incluindo a aquisição, financiamento e utilização de aeronaves para transportar cocaína. O segundo financiava as operações e ocultava a origem dos recursos por meio de empresas de fachada, contas de passagem e pessoas interpostas.

Já o terceiro núcleo administrava o patrimônio do grupo, utilizando empresas do setor de transportes para dar aparência de legalidade aos bens. O quarto era voltado à lavagem de dinheiro, envolvendo empresas de construção civil, comércio de gás, veículos de luxo, imóveis e um esquema de concessão de crédito e desconto de cheques descrito pelos investigadores como um “banco paralelo”.

As investigações também identificaram o uso do sistema conhecido como “dólar-cabo”, utilizado para enviar recursos clandestinamente à Bolívia sem passar pelos canais oficiais de câmbio. Conforme o MPF, o dinheiro era destinado ao pagamento de pilotos, abastecimento e manutenção das aeronaves empregadas no transporte da droga.

Imagem da operação
Aeronave era pilotada por um boliviano e um venezuelano (Foto: PMGO)

Suspeita de morte forjada

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores é a situação de Arnaldo Agostinho Sottani, apontado como um dos financiadores da organização e comprador oculto da aeronave apreendida em Goiás. Após familiares informarem que ele teria morrido em um acidente aéreo, a investigação não encontrou registros do voo, destroços ou qualquer elemento que confirmasse o suposto acidente.

Dias antes do desaparecimento, segundo o MPF, Sottani havia concedido uma procuração com amplos poderes para administração e transferência de seus bens. Diante das circunstâncias, o órgão passou a investigar a hipótese de simulação da própria morte, pediu sua prisão preventiva e solicitou a inclusão do nome do investigado na Difusão Vermelha da Interpol.

A fase ostensiva da Operação Rota Andina foi deflagrada em maio deste ano, com o cumprimento de mandados de prisão, busca e apreensão e bloqueio de bens em Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Amazonas, Rio Grande do Norte, Maranhão e no Distrito Federal. As investigações continuam, e o MPF não descarta o oferecimento de novas denúncias à medida que surgirem novos elementos.

O Mais Goiás não conseguiu contato com as defesas dos investigados até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestações e eventuais posicionamentos serão incluídos no texto assim que forem encaminhados.

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