Médicos reagem contra prefeita de Porangatu, que atribuiu morte de bebê a expansão de faculdades na gestão Lula
Sindicato pede apuração criteriosa sobre atendimento médico e diz que críticas à formação profissional não devem desqualificar toda a categoria
Ir direto pra matéria
O Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego) manifestou preocupação com a exposição pública de um atendimento médico em Porangatu, no norte de Goiás, após a prefeita Vanusa Valadares, do União Brasil, atribuir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a responsabilidade por um suposto erro de diagnóstico que levou à perda de uma gestação. Em nota, a entidade defendeu que o caso seja apurado pelas instâncias competentes, com respeito à paciente e ao profissional envolvido.
A manifestação foi divulgada depois de a prefeita afirmar que “tem que fechar todas as faculdades de medicina do Brasil”, conforme noticiou o Mais Goiás. O sindicato não comenta a responsabilidade pelo atendimento em si e ressalta que as circunstâncias precisam ser verificadas com base nos registros assistenciais e nas condições de trabalho.

Leia mais
- Jovem perde bebê e família questiona demora para ultrassom em maternidade de Goiânia; vídeo
- Jovem descobre gravidez durante trabalho de parto em Rio Verde
“O Simego manifesta preocupação com a exposição pública de um atendimento médico em Porangatu e reforça a importância de que situações como essa sejam conduzidas com responsabilidade, respeito e apuração criteriosa”, diz a nota, assinada pela diretora administrativa da entidade, Sheila Ferro.
O Simego afirma que pacientes têm direito ao acolhimento e à avaliação de suas reclamações, mas que o médico também deve poder apresentar esclarecimentos, com respeito à honra e à imagem. Para a entidade, a exposição pública não substitui a apuração dos fatos.
A nota também reconheceu que problemas relacionados à formação médica precisam ser enfrentados com seriedade e critérios técnicos. “Essas questões não podem servir de justificativa para generalizações ou para desqualificar toda uma categoria profissional”, afirma o sindicato.
Ao final, a entidade defendeu diálogo com a administração municipal e reafirmou compromisso com a qualidade da assistência, a valorização dos profissionais e o respeito a todos os envolvidos.
Atendimento médico

Vídeo encaminhado ao Mais Goiás mostra a paciente relatando dores enquanto afirma que não recebeu medicamentos para tratar uma possível infecção urinária nos atendimentos anteriores. Diante da mãe em luto, a prefeita disse que “tem que fechar todas as faculdades de medicina do Brasil”, e atribuiu ao presidente Lula a responsabilidade pelo suposto erro de diagnóstico, o qual teria desencadeado a morte do bebê. Em seguida, dirigindo-se aos presentes, afirmou: “É vocês que estão fazendo isso com o nosso Brasil!”. A visita ocorreu no último sábado (24/10), às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais.
Na gravação, Vanusa afirma que as imagens deveriam ser divulgadas em todo o país para mostrar ‘a situação da saúde no interior’. “É para ser divulgado e espalhar em todo canto do Brasil, para mostrar a realidade do interior, o que o interior vive, o que as pessoas sofrem com a medicina do nosso país, que está acabada”, declarou.
A paciente relatou que procurou atendimento em um posto de saúde, onde, segundo ela, o médico não identificou a infecção urinária que teria sido constatada posteriormente no hospital em que estava internada. Ela também afirmou que recebeu diagnóstico de anemia, mas não foram prescritos medicamentos para tratar nenhuma das duas condições. “Ele disse que eu estava com anemia, que a anemia estava forte, nenhum remédio para anemia ele passou, nenhum remédio para infecção ele passou”, relatou à prefeita.
Em nota, a Prefeitura de Porangatu afirmou que as declarações da prefeita ocorreram em um momento de comoção diante do sofrimento da paciente. A gestão também defendeu a avaliação da formação médica no país e informou que o atendimento será apurado para esclarecer os fatos e identificar eventuais falhas.
Falhas no atendimento
Na gravação, a gestante afirma ter conseguido realizar um exame de ultrassom, cujo resultado teria confirmado a morte fetal. Na gravação, ela pede ajuda para conseguir uma vaga em outra unidade e afirma estar sentindo muita dor. “A única coisa que eu quero é que consigam uma vaga para mim, para transferir, para tirar o neném de dentro de mim, porque eu não aguento mais de tanta dor que eu estou sentindo”, disse.
Ao ouvir o relato, Vanusa perguntou quem havia atendido a paciente e há quanto tempo ela estava internada. A prefeita prometeu identificar o profissional que atendeu a mulher no posto de saúde e afirmou que ele deveria sofrer consequências.
Crítica a médicos e cursos de medicina
Durante a conversa, Vanusa também defendeu que o governo federal pare de criar cursos de medicina e afirmou que há pessoas entrando no mercado de trabalho sem querer, de fato, exercer a profissão. “É esse desgoverno do PT que está acabando com o Brasil e colocando pessoas em risco!”, declarou. Em seguida, a prefeita se dirigiu à gestante e afirmou: “E nós vamos providenciar para que você seja transferida. E chega de votar em Lula!”.
Sobre a gestante, a Prefeitura de Porangatu informou que a paciente foi atendida em 13 de outubro, quando um exame não apontou infecção urinária. No retorno, dia 19, um novo exame identificou a infecção, e o tratamento foi iniciado. Após a confirmação da perda gestacional, ela permaneceu sob assistência médica e aguardou regulação. No dia 25, foi transferida para o Hospital Estadual do Centro-Norte Goiano (HCN), em Uruaçu.
Leia na íntegra as notas enviadas pela Prefeitura de Porangatu:
“A Prefeitura de Porangatu esclarece que as declarações da prefeita Vanuza Valadares foram feitas durante a escuta de uma paciente que vivenciava um momento de profunda dor, após a perda do bebê ainda durante a gestação. Naquela ocasião, a prefeita se manifestou não apenas como gestora pública, mas também como mulher e mãe, sensibilizada pelo sofrimento relatado e pela necessidade de garantir à população um atendimento de saúde digno, humanizado e resolutivo.
A preocupação com a qualidade da formação médica não se restringe à gestão municipal, integrando um debate nacional conduzido também pelos órgãos responsáveis pela avaliação do ensino superior. Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) de 2025, divulgados pelo Ministério da Educação em janeiro de 2026, apontaram que, dos 351 cursos avaliados, 107 obtiveram conceitos 1 e 2, considerados insatisfatórios. Esses indicadores reforçam a importância do acompanhamento, da avaliação e do aprimoramento contínuo da formação médica no Brasil.
A prefeita acompanha pessoalmente as demandas da população na rede municipal de saúde e tem buscado identificar dificuldades, cobrar soluções e promover melhorias contínuas no atendimento. Sua atuação parte do entendimento de que a gestão pública tem o dever de ouvir os cidadãos, acolher suas necessidades e buscar respostas concretas, especialmente nos momentos de maior vulnerabilidade.
Quanto ao atendimento prestado à paciente, a Prefeitura informa que a situação deverá ser apurada com responsabilidade, mediante análise dos registros assistenciais e das circunstâncias em que ocorreram os atendimentos, a fim de esclarecer os fatos e identificar eventuais falhas, adotando as providências cabíveis, caso sejam constatadas irregularidades, respeitando-se os critérios técnicos, o sigilo das informações e os direitos dos envolvidos.
Por fim, a Prefeitura de Porangatu reitera seu respeito aos profissionais médicos que exercem suas funções com ética, competência e dedicação, sua solidariedade às famílias que enfrentam situações de sofrimento e seu compromisso permanente com a defesa da população, a qualidade dos serviços públicos e a busca por uma assistência cada vez mais humanizada, segura e eficiente.”
“O Governo de Porangatu esclarece que, conforme o relato do médico responsável, a paciente foi atendida na unidade de saúde no dia 13 de outubro, quando realizou exame de urina que não indicou infecção urinária. No dia 19, retornou à unidade, quando um novo exame identificou a infecção, sendo iniciado o tratamento e realizada a internação.
Durante o atendimento, foi realizado ultrassom transvaginal, que constatou a ausência de batimentos cardíacos fetais, confirmando a perda gestacional. Após os procedimentos indicados, a paciente permaneceu sob assistência da equipe de saúde, com quadro clínico estável, aguardando regulação. No dia 25 de outubro, foi transferida para o Hospital Estadual do Centro-Norte Goiano (HCN), em Uruaçu, para continuidade do atendimento especializado.
Sobre as declarações feitas pela prefeita, o Governo esclarece que se tratou de um desabafo em um momento de preocupação diante da situação vivenciada. A manifestação ocorreu de forma pontual, e a prioridade permanece sendo a assistência à população e o esclarecimento responsável dos fatos.”