Brasileiros desistem de morar em Portugal e pedidos de ajuda para voltar ao Brasil crescem 52%
Alto custo de vida, dificuldades para conseguir emprego e regras mais rígidas de imigração levam brasileiros a abandonar planos de viver na Europa
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O número de brasileiros que procuram ajuda para deixar Portugal e voltar ao Brasil cresceu 52% em 2026, na comparação entre as médias mensais deste ano e de 2025. Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), vinculada à ONU, mostram que 534 brasileiros se inscreveram no programa de retorno voluntário entre janeiro e agosto, superando os 527 pedidos registrados durante todo o ano passado. O alto custo de vida, as dificuldades para encontrar emprego e as exigências para regularização migratória estão entre os principais motivos para a desistência.
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A média mensal de pedidos passou de aproximadamente 44 em 2025 para 67 neste ano. Dos 677 estrangeiros de diferentes nacionalidades que procuraram assistência nos oito primeiros meses de 2026, cerca de 79% eram brasileiros.
A procura pelo programa tem aumentado desde 2024, quando foram registradas 432 inscrições de brasileiros. O auxílio é destinado a imigrantes que desejam retornar aos países de origem, mas não possuem condições financeiras para pagar a viagem.
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Até agosto, cerca de 250 brasileiros haviam efetivamente retornado com apoio da organização. Em todo o ano passado, foram 289. Os números mostram que os pedidos de assistência cresceram, mas ainda não permitem afirmar que o total de retornos realizados em 2026 superou o de 2025.
A estatística também não inclui brasileiros que deixam Portugal por conta própria, utilizando recursos pessoais para custear a mudança.
Brasileiros relatam dificuldades para continuar em Portugal
A tatuadora Aline Pinheiro, que morou em Portugal durante cinco anos, decidiu retornar ao Brasil. Em entrevista à TV Globo, ela contou que a saudade da família e as dificuldades financeiras pesaram na decisão.
Segundo Aline, outros brasileiros de seu círculo de amizades também estão planejando voltar ou já deixaram o país europeu.
Outro brasileiro ouvido pela emissora, um maranhense de 32 anos que preferiu não se identificar, relatou que permaneceu menos de um ano em Portugal antes de desistir.
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Ele dividia um quarto com outros cinco brasileiros e, sem conseguir emprego na área em que pretendia trabalhar, passou a atuar na construção civil. Diante das dificuldades financeiras, procurou o programa da OIM para conseguir retornar ao Brasil.
Os relatos ilustram situações identificadas pela organização entre os candidatos ao retorno voluntário.
Segundo Vasco Malta, chefe da missão da OIM em Portugal, três fatores aparecem com frequência nos pedidos: dificuldades para regularizar a documentação, mudanças nas condições de emprego e problemas financeiros relacionados aos salários e às despesas de permanência.
A organização também alerta que parte dos brasileiros chega a Portugal com expectativas de trabalho e renda que não correspondem às condições encontradas no país.
Aluguéis caros e salários pressionam orçamento dos imigrantes
A moradia está entre os principais gastos enfrentados pelos brasileiros que vivem em Portugal, especialmente em cidades como Lisboa e Porto.
O custo dos aluguéis, somado às despesas com alimentação, transporte e serviços, compromete parte significativa da renda de trabalhadores que recebem salários próximos ao mínimo português.
Em muitos casos, imigrantes recorrem ao aluguel de quartos ou à divisão de apartamentos com outras pessoas para conseguir permanecer no país.
As dificuldades não atingem apenas quem chega sem emprego ou documentação. Brasileiros que se mudaram com trabalho previamente acertado também relatam problemas para equilibrar o orçamento diante das despesas com habitação.
Além das questões financeiras, a distância da família aparece entre os motivos mencionados por brasileiros que decidem regressar.
Portugal endureceu regras para brasileiros que querem morar no país
As mudanças na política migratória portuguesa também passaram a interferir nos planos de permanência dos estrangeiros.
Uma das principais alterações foi o encerramento do mecanismo conhecido como manifestação de interesse, que permitia a determinados imigrantes solicitar autorização de residência depois de entrar legalmente no país e estabelecer vínculo de trabalho.
O governo português também restringiu regras para vistos de procura de emprego e alterou procedimentos relacionados ao reagrupamento familiar.
As mudanças atingem brasileiros que pretendem se estabelecer em Portugal ou levar familiares para viver no país.
Apesar do aumento dos pedidos de retorno, os brasileiros continuam formando a maior comunidade estrangeira em território português. Os registros da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) apontam mais de 480 mil residentes brasileiros ao fim de 2024, enquanto estimativas mais recentes, que utilizam critérios diferentes, indicam contingente superior a 570 mil.
Como funciona a ajuda para voltar ao Brasil
O Programa de Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração (ARVoRe), administrado pela OIM, oferece assistência a estrangeiros em situação de vulnerabilidade que desejam regressar ao país de origem.
O atendimento inclui orientação sobre as condições do retorno, organização da viagem e pagamento da passagem aérea. Os beneficiários também recebem uma ajuda de custo de 70 euros para despesas imediatas.
A participação depende de avaliação individual das condições econômicas e migratórias do solicitante.
O retorno é voluntário e não equivale a uma deportação. O programa também possui condições específicas que podem afetar uma eventual tentativa de voltar a Portugal ou de entrar em outros países europeus.
Em 2025, 85 crianças brasileiras retornaram ao país com apoio da OIM, demonstrando que os pedidos também envolvem famílias com filhos.
O aumento das inscrições em 2026 revela uma procura maior por auxílio entre brasileiros que enfrentam dificuldades para permanecer em Portugal. Não há, entretanto, um levantamento consolidado que permita determinar quantos brasileiros, no total, deixaram o país europeu e regressaram ao Brasil neste ano.