Geórgia, berço de Martin Luther King e palco da segregação racial, elege primeira governadora negra nos EUA
Keisha Lance Bottoms, do Partido Democrata, encerra mais de duas décadas de domínio republicano no estado
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A democrata Keisha Lance Bottoms, ex-prefeita de Atlanta, venceu a eleição para o governo da Geórgia e se tornará a primeira mulher negra a governar um estado na história dos Estados Unidos. A vitória sobre o republicano Rick Jackson foi projetada pela CBS News quando Bottoms tinha mais de 54,6% dos votos, com 80% das urnas apuradas. O resultado tem forte significado político e histórico, especialmente por ocorrer em um estado marcado pela escravidão, pela segregação racial e pela luta pelos direitos da população negra americana.
Localizada no sul dos Estados Unidos, a Geórgia foi um dos estados que mais utilizaram a mão de obra escravizada durante o período colonial e manteve práticas de segregação racial mesmo após o fim da escravidão, no século 19. As leis conhecidas como Jim Crow institucionalizaram a separação entre negros e brancos em espaços públicos, escolas, transportes e estabelecimentos comerciais. As restrições também dificultavam o acesso da população negra ao voto e a direitos básicos.
A capital, Atlanta, ocupa um lugar central nessa história. A cidade é o local de nascimento de Martin Luther King Jr., em 1929, e foi um dos principais centros do movimento pelos direitos civis nos anos 1950 e 1960. Pastor batista e ativista, King liderou manifestações pacíficas contra a segregação e a discriminação racial, tornando-se uma das figuras mais importantes da luta por igualdade nos Estados Unidos. Em 1963, ele fez em Washington o histórico discurso “I Have a Dream” (Eu Tenho um Sonho).
Atlanta também abrigou organizações importantes do movimento negro e foi palco de mobilizações contra as leis segregacionistas. A cidade se tornou um símbolo da resistência e da transformação política da população negra no país. Apesar desse legado e de cerca de um terço dos habitantes da Geórgia serem negros, o estado nunca havia sido governado por uma mulher negra.
Primeira democrata desde 1998
Bottoms também será a primeira mulher a ocupar o governo da Geórgia e a primeira democrata eleita para o cargo desde 1998. Os republicanos controlam o governo estadual desde 2003, em uma região que se tornou um dos principais campos de disputa entre os dois partidos nos últimos anos.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, venceu a disputa na Geórgia nas eleições presidenciais de 2024, quatro anos depois de perder no estado para Joe Biden. A vitória de Bottoms representa, portanto, uma mudança de partido no comando estadual durante o segundo mandato do republicano.
A democrata foi assessora do governo Biden e chegou a ser considerada uma possível candidata a vice-presidente. Nesta eleição, fez campanha com propostas de ampliar o acesso à saúde, elevar o salário mínimo e combater restrições ao aborto. Também buscou associar seu adversário às políticas de Trump.
Bottoms sucede o republicano Brian Kemp, impedido de concorrer a um terceiro mandato consecutivo. Seu adversário, Rick Jackson, é um empresário bilionário do setor de saúde que investiu mais de US$ 200 milhões de recursos próprios na campanha. Ele procurou se apresentar como alguém de fora da política tradicional e defendeu cortes de impostos e redução de regulações.
Campanha
Durante a campanha, a democrata concentrou suas propostas no custo de vida, na ampliação do acesso à saúde e na educação. Entre suas promessas estavam a expansão do Medicaid, programa público de assistência médica destinado à população de baixa renda, e medidas para reduzir os gastos das famílias com moradia e alimentação.
Antes de chegar à disputa pelo governo estadual, Bottoms, de 56 anos, construiu sua carreira política em Atlanta, onde foi vereadora entre 2010 e 2018 e prefeita de 2018 a 2022. À frente da cidade, enfrentou a pandemia de Covid-19 e os protestos contra o racismo desencadeados pelo assassinato de George Floyd, em 2020. Depois de deixar a prefeitura, passou a integrar o governo de Joe Biden como assessora da Casa Branca.