Áspera espera: réplica da cápsula de césio-137 é instalada em quatro pontos de Goiânia
A instalação homenageia Maria Gabriela Ferreira e chama atenção para a memória e o reconhecimento das vítimas do acidente
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Uma réplica da cápsula de césio-137 será instalada em quatro pontos de Goiânia nesta segunda-feira (28), 39 anos após Maria Gabriela Ferreira levar o material radioativo até a Vigilância Sanitária, em uma decisão que deu início ao enfrentamento da contaminação. A intervenção urbana “Áspera espera”, do artista visual, professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) Glauco Gonçalves, homenageia Maria Gabriela e questiona o que, segundo o autor, ainda permanece sem reconhecimento quase quatro décadas após a tragédia.
“É uma ação de reparação histórica, de agradecimento e de uma, ainda que singela, necessária homenagem a essa mulher que foi a Maria Gabriela, uma das quatro vítimas fatais, como se sabe. Essa mulher, aliás, como quase todo mundo nessa história, não teve nem o mínimo do devido e grandioso reconhecimento que ela deveria ter. Sequer a gratidão da sociedade e, sobretudo, do poder público, essa mulher recebeu”, disse Glauco, em entrevista ao Mais Goiás.

A obra será instalada no portão do Centro de Convenções, no terreno da Rua 57, na Rua 26-A e em frente ao Palácio das Esmeraldas. Em cada ponto, além da réplica da cápsula, será colocada uma cadeira semelhante à que aparece em registros históricos do momento em que o material foi deixado na Vigilância Sanitária.
Os locais foram escolhidos por sua relação com diferentes momentos da trajetória da cápsula e com a maneira como a história do acidente foi construída.
No Centro de Convenções, onde funcionava o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), está o ponto de origem da tragédia. Foi das ruínas da clínica que o aparelho de radioterapia foi retirado por dois catadores. Dentro do equipamento estava a cápsula que continha o material radioativo.
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Na Rua 57, ficava a casa de Roberto Santos Alves, para onde o aparelho foi levado depois de ser retirado do antigo IGR. Foi nesse endereço que o equipamento foi desmontado e a cápsula foi aberta, expondo o césio-137.
Já a Rua 26-A era o endereço do ferro-velho de Devair Alves Ferreira, para onde a peça foi vendida cinco dias depois. Foi ali que o material radioativo continuou sendo manipulado e distribuído entre familiares e amigos, ampliando a contaminação.
Em frente ao Palácio das Esmeraldas, sede do governo de Goiás, a cadeira ganha outro significado. Segundo Glauco, a escolha do local é uma provocação ao poder público, que, na avaliação dele, ainda precisa reconhecer e cuidar das vítimas e dos profissionais envolvidos no enfrentamento da emergência.
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Homenagem à Maria Gabriela
A escolha do dia 28 de setembro também não é aleatória. Foi nesta data, em 1987, que Maria Gabriela, em um “ato silencioso, solitário e heroico”, como define Glauco, levou o material até a Vigilância Sanitária ao perceber os efeitos que o césio estava causando. Depois de descer de um ônibus, ela entregou o recipiente no local, onde um funcionário colocou a peça sobre uma cadeira. Em referência a essa situação, surge o nome da obra: “Áspera espera”.
Para o artista, de forma metafórica, a cadeira representa a espera do objeto por uma ação diante do risco que carregava. Mas, 39 anos depois, essa espera ganhou também um outro significado: “Já não se trata de combater a emissão de radiação, mas de combater a produção da amnésia, a falta de reconhecimento”, explica.
Segundo Glauco, a obra também faz referência aos profissionais que atuaram na resposta à emergência, como policiais, bombeiros, enfermeiros, trabalhadores da saúde, garis e motoristas. Para ele, essas pessoas deveriam receber reconhecimento público pelo trabalho realizado durante a tragédia. A espera, na interpretação do artista, também permanece para as vítimas que sobreviveram, para aquelas que morreram e para seus familiares, que ainda aguardam reconhecimento e acompanhamento adequado.
“Essa áspera espera versa sobre tudo o que ainda não foi resolvido, tudo o que ainda não foi reconhecido, tudo o que ainda não foi agradecido”, afirma.
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13 ou 28 de setembro?
A escolha do dia 28 para a instalação expressa uma tentativa de mudar a forma como a história do acidente é lembrada em Goiânia. O dia 13 de setembro de 1987 é tradicionalmente associado ao início do acidente porque foi quando os catadores Roberto e Wagner encontraram a cápsula abandonada no antigo Instituto Goiano de Radioterapia.
Glauco questiona essa centralidade. Para o artista, a história deveria começar a ser contada a partir do abandono da cápsula pela clínica. “Esses dois pobres catadores pegaram aquele pedaço de metal como pegariam qualquer outro. Então, insisto, o dia 13 de setembro não é a data para dizer que a tragédia criminosa começa. A data para começar a contar essa história é o dia em que a clínica foi abandonada com essa peça dentro”, explica.
Na avaliação do artista, associar o início da tragédia ao momento em que os catadores encontraram o material acaba deslocando a atenção para aqueles que foram vítimas de uma situação que, segundo ele, já estava em curso.
O dia 28, por outro lado, seria uma data para lembrar o momento em que Maria Gabriela procurou as autoridades e deu um passo decisivo para que o problema começasse a ser enfrentado. “Sem essa mulher, a gente não sabe aonde a gente poderia ter ido, a gente não sabe se essa cidade poderia seguir sendo habitada. A gente não sabe quantas pessoas teriam morrido no primeiro momento e seguiriam morrendo até agora.”
Uma instalação que vai desaparecer
As cadeiras ficarão nos quatro pontos escolhidos por tempo indeterminado, até que alguém decida retirá-las. O desaparecimento das peças também faz parte da intervenção e cria uma relação simbólica com o próprio abandono que está no centro da obra: “Abandoná-las lá, tal qual os donos de uma clínica abandonaram uma peça radioativa um dia”, explica Glauco.
Do quadrinho à cidade
“Áspera espera” é o segundo trabalho de Glauco relacionado à memória do acidente com césio-137. Antes, ele participou da produção de “Césio em quadrinhos: a geo-história de uma tragédia”, ao lado de Ricardo Oliveira e do ilustrador Jorginho. O trabalho foi publicado em formato de e-book gratuito e também pensado para levar o debate sobre o acidente às escolas de ensino fundamental e médio.
As fotografias da instalação são de Tarsilla Couto de Brito e a coprodução de Henrique De La Fonte. Glauco é professor e pesquisador da UFG desde 2016 e atua como docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Projeto e Cidade (Procidades-FAV-UFG).
Por tempo indeterminado, quatro cadeiras ficarão espalhadas por Goiânia. Sobre elas, a réplica de uma cápsula que mudou a história da cidade. A espera, desta vez, não é pela descoberta da radiação, mas pelo reconhecimento de uma história que, para o artista, ainda aguarda para ser lembrada, contada e reconhecida.
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