Sábado, 24 de Outubro de 2026
CIDADE PLANEJADA

Goiânia foi planejada para 50 mil habitantes, e hoje tem 1,5 milhão; o que sobrou daquela cidade?

Capital foi concebida para cerca de 50 mil habitantes e hoje tem população estimada em 1,51 milhão; traçado do Centro, Praça Cívica e eixos históricos ainda revelam o projeto original

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Vista aérea da região central de Goiânia, com a Praça Cívica em destaque e o adensamento urbano ao redor (Foto: Prefeitura de Goiânia)

Goiânia foi concebida inicialmente para cerca de 50 mil habitantes. Em 2026, a população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) chegou a 1.511.709 moradores. O salto ajuda a dimensionar a transformação da capital, mas não explica, sozinho, a cidade que surgiu depois.

Mais de nove décadas após a construção da nova capital, a principal estrutura do projeto original ainda pode ser reconhecida no Centro: a Praça Cívica como núcleo político e administrativo, as avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins como grandes eixos e parte dos espaços públicos, áreas verdes e edifícios concebidos naquele período.

O que não permaneceu da mesma forma foi a lógica de ocupação do território. A expansão para além do núcleo inicial ocorreu por sucessivos loteamentos, novas centralidades e mudanças no uso do solo. Parte da cidade cresceu sem a continuidade espacial prevista nos primeiros planos.

Essa é a principal conclusão das três especialistas ouvidas pelo Mais Goiás: o desenho fundador resistiu, mas passou a conviver com uma metrópole cuja expansão respondeu a decisões tomadas muito depois de Attilio Corrêa Lima e Armando Augusto de Godoy.

A reportagem ouviu a arquiteta e urbanista Thaissa Finotti, especialista em Desenho e Planejamento Urbano com Enfoque Ambiental e Direito Urbanístico; a engenheira civil Marielle Vieira Felix Rocha, mestre em Engenharia Aplicada e Sustentabilidade e doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pelo IAU/USP; e Maria Ester de Souza, arquiteta e urbanista, doutora em Geografia Urbana e pesquisadora do INCT Observatório das Metrópoles, Núcleo Goiânia.

O desenho original ainda pode ser reconhecido

Anúncio da década de 1930 apresenta o projeto da nova capital de Goiás, com o traçado urbano planejado e a venda de lotes em Goiânia (Foto: Acervo histórico UFG)
Anúncio da década de 1930 apresenta o projeto da nova capital de Goiás, com o traçado urbano planejado e a venda de lotes em Goiânia (Foto: Acervo histórico UFG)

A Praça Cívica concentra uma das permanências mais evidentes do primeiro projeto urbanístico de Goiânia.

O núcleo foi estruturado como centro político e administrativo da nova capital, com grandes avenidas direcionadas para a praça. Mais de nove décadas depois, essa organização continua legível no mapa e na paisagem.

“Mesmo com todas as transformações, quando caminhamos pelo Centro ainda conseguimos reconhecer a lógica concebida por Attilio Corrêa Lima e posteriormente desenvolvida por Armando Augusto de Godoy”, afirma Thaissa.

Essa permanência não é apenas visual. A estrutura viária remanescente do plano de Attilio integra o conjunto protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Thaissa Finotti, arquiteta e urbanista, analisa as permanências do desenho original de Goiânia e as mudanças no uso dos espaços urbanos (Foto: Acervo pessoal)
Thaissa Finotti, arquiteta e urbanista, analisa as permanências do desenho original de Goiânia e as mudanças no uso dos espaços urbanos (Foto: Acervo pessoal)

A Portaria nº 201, de 2024, estabelece a preservação da hierarquia da Praça Cívica como elemento irradiador do traçado e das perspectivas criadas pelas vias que convergem para ela, especialmente as avenidas Goiás, Tocantins e Araguaia.

Para Marielle, esse conjunto funciona como uma espécie de estrutura de leitura da primeira Goiânia dentro da capital atual.

“Sobrou a estrutura fundamental do Centro, a Praça Cívica como marco simbólico, os grandes eixos viários, parte das áreas verdes, edifícios históricos e, sobretudo, uma lógica urbana que ainda pode ser lida na paisagem”, afirma.

Essa herança aparece em trajetos cotidianos. Avenida Goiás, Teatro Goiânia, Grande Hotel, Coreto da Praça Cívica, Bosque dos Buritis e Parque Botafogo integram a formação do núcleo inicial.

O patrimônio, portanto, não se limita aos edifícios tombados. Também está na relação entre ruas, praças, parques e equipamentos que ainda organiza parte da experiência urbana no Centro.

O traçado permaneceu, mas os usos mudaram

Vista aérea noturna de Goiânia, com destaque para a região central da capital (Foto: Prefeitura de Goiânia)
Vista aérea noturna de Goiânia, com destaque para a região central da capital (Foto: Prefeitura de Goiânia)

A permanência do desenho não significa que os espaços mantenham as mesmas funções previstas no projeto.

Thaissa cita o caso de quadras da Avenida Goiás que possuíam acessos internos destinados à carga e descarga, solução criada para evitar a interrupção do fluxo na avenida. Parte desses acessos foi fechada; outros espaços passaram a funcionar como estacionamentos.

A antiga Praça do Bandeirante também sofreu alterações. A configuração urbana que colocava o monumento no centro da composição perdeu parte da leitura original ao longo das intervenções realizadas na região.

Esses exemplos mostram uma diferença central entre preservar o desenho e preservar a lógica de funcionamento de um projeto urbano.

Goiânia manteve trechos importantes da geometria concebida para a nova capital, mas os usos se adaptaram às necessidades e às escolhas de uma cidade muito maior.

Os 1,5 milhão de habitantes explicam a escala, não a causa

Vista aérea da região central de Goiânia, com destaque para a Praça Cívica e o entorno urbano da capital (Foto: Prefeitura de Goiânia)
Vista aérea da região central de Goiânia, com destaque para a Praça Cívica e o entorno urbano da capital (Foto: Prefeitura de Goiânia)

A diferença entre os cerca de 50 mil habitantes considerados na concepção inicial e os mais de 1,5 milhão estimados atualmente ajuda a compreender a dimensão da mudança. As especialistas, porém, alertam que o crescimento populacional não pode ser tratado como causa automática dos problemas urbanos.

“Uma cidade pode crescer muito além de sua escala original e continuar sendo planejada. A questão fundamental é como esse crescimento é conduzido”, afirma Marielle.

Thaissa faz avaliação semelhante.

“O plano original não poderia, obviamente, prever a Goiânia do século XXI. O que precisamos questionar é se conseguimos construir bons planos sucessivos para responder às novas condições”, afirma.

A distinção altera a interpretação da história urbana da capital. O problema não é Goiânia ter ultrapassado a população imaginada nos anos 1930, mas entender como o território foi ocupado depois que a cidade rompeu os limites daquele primeiro projeto.

Expansão muda a lógica da cidade

Vista panorâmica de Goiânia, capital de Goiás (Foto: Prefeitura de Goiânia)
Vista panorâmica de Goiânia, capital de Goiás (Foto: Prefeitura de Goiânia)

Uma das mudanças ocorre ainda nas primeiras décadas.

Pesquisa acadêmica da Universidade Federal de Goiás (UFG) aponta que, após a abertura do parcelamento do solo à iniciativa privada, o número de lotes existentes passou de cerca de 12 mil para quase 120 mil em 1950.

O dado não demonstra, sozinho, uma relação de causa e efeito entre loteamentos privados e os problemas atuais da capital. Ele mostra, porém, a velocidade da mudança na forma de produção do espaço urbano e ajuda a identificar um momento em que Goiânia começa a ultrapassar a estrutura compacta do núcleo planejado.

A expansão inclui loteamentos não necessariamente contíguos entre si e áreas mantidas sem ocupação imediata.

É nesse ponto que Maria Ester destaca o peso econômico da terra na formação da cidade posterior ao plano inicial.

“O valor da terra, a terra valorizada para um negócio imobiliário, interfere demais em qualquer ideia de planejamento e a lógica fica sendo a lógica do mercado”, afirma.

Para a pesquisadora, a relação entre loteamento, valorização imobiliária e chegada posterior de infraestrutura passa a ocupar espaço crescente na organização territorial da capital.

Não existe, portanto, uma ruptura única capaz de explicar a Goiânia atual. O que há é uma sucessão de decisões urbanísticas, econômicas e políticas que, ao longo das décadas, produz uma cidade cada vez mais distante da escala do núcleo inicial.

Preservar não significa reconstruir a Goiânia de 1930

CMaria Ester de Souza, arquiteta, urbanista e pesquisadora do Observatório das Metrópoles, avalia o impacto da valorização da terra e do mercado imobiliário na expansão de Goiânia (Foto: Acervo pessoal)
Maria Ester de Souza, arquiteta, urbanista e pesquisadora do Observatório das Metrópoles, avalia o impacto da valorização da terra e do mercado imobiliário na expansão de Goiânia (Foto: Acervo pessoal)

A preservação do primeiro projeto não exige que o Centro volte a funcionar como uma cidade projetada para dezenas de milhares de moradores.

Maria Ester defende que novas construções e patrimônio histórico podem coexistir.

“Você não precisa demolir o que estava aqui no passado para tornar novas construções importantes. Não, eu acho que tem espaço demais para todo mundo”, afirma.

Marielle Vieira Felix Rocha, engenheira civil e pesquisadora em Arquitetura e Urbanismo, destaca como o crescimento da capital alterou a lógica de ocupação do território (Foto: Acervo pessoal)
Marielle Vieira Felix Rocha, engenheira civil e pesquisadora em Arquitetura e Urbanismo, destaca como o crescimento da capital alterou a lógica de ocupação do território (Foto: Acervo pessoal)

Marielle também diferencia preservação de imobilização urbana.

“Preservar não significa congelar a cidade”, afirma.

Para ela, políticas de moradia, comércio, serviços, cultura e ocupação dos espaços públicos podem reforçar a função do Centro e ampliar o aproveitamento de uma região que já dispõe de infraestrutura consolidada.

Thaissa direciona a discussão para o futuro.

“O desafio é justamente usar o planejamento original como referência para construir a próxima Goiânia, e não tentar congelá-la no passado”, afirma.

Monumento na Praça Cívica, no Centro de Goiânia (Foto: Prefeitura de Goiânia)
Monumento na Praça Cívica, no Centro de Goiânia (Foto: Prefeitura de Goiânia)

A Goiânia desenhada para uma escala de 50 mil habitantes não existe mais como cidade inteira. O que permanece é sua estrutura mais reconhecível: o Centro, a Praça Cívica, os grandes eixos, áreas verdes e parte do patrimônio construído.

A transformação posterior mostra outra camada da história da capital. O plano original não desapareceu: tornou-se a base de uma cidade que cresceu muito além dele. A questão que permanece é se os próximos ciclos de expansão conseguirão preservar essa leitura enquanto respondem às necessidades de uma metrópole de mais de 1,5 milhão de habitantes.

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