Ônibus que fazia Goiânia-Campinas quando a capital nasceu andava a 10 km/h, sofria em ladeiras e tinha nome engraçado
Conhecido como Tareca, veículo tinha as laterais abertas, levantava poeira e enfrentava dificuldades para subir ladeiras entre Campinas e a nova capital
Ir direto pra matéria
Já imaginou pegar um ônibus que andava a apenas 10 km/h, tinha as laterais abertas e ainda enfrentava dificuldades para subir ladeiras? Era assim que parte dos moradores de Goiânia viajava nas primeiras décadas da capital. O veículo, conhecido como “Tareca”, fazia o trajeto entre Campinas e o centro da cidade, em uma época em que as ruas eram precárias e caminhar longas distâncias fazia parte da rotina.
O Tareca era um antigo veículo Ford adaptado para transportar passageiros. Segundo relatos históricos, o ônibus rangia nas subidas, levantava poeira e tinha dificuldades para vencer a ladeira do córrego Capim-Puba. A ligação era importante porque Campinas já existia antes da construção de Goiânia e concentrava comércio, moradores e serviços. A história do bairro começou em 1810, conforme mostrou o Mais Goiás em uma reportagem sobre a origem de Campinas, o bairro mais antigo da capital.
Perdeu o último ônibus? Eram quase 10 km de caminhada

O problema não era apenas a velocidade. Quem saía para se divertir em Campinas precisava ficar de olho no relógio. As jardineiras, nome dado aos antigos ônibus, circulavam até a meia-noite. Quem perdia o último transporte precisava esperar pelo próximo ou enfrentar uma caminhada que podia chegar a quase 10 quilômetros.
Um episódio registrado em um processo criminal de 1949 mostra como era essa rotina. Cinco rapazes passaram a noite em bares de Campinas e retornaram a pé para o Bairro Popular. Durante o caminho, encontraram uma jovem dormindo em um banco próximo a um ponto de ônibus, na região das avenidas Anhanguera e Araguaia. O caso revela as dificuldades enfrentadas por quem precisava circular entre os bairros quando o transporte coletivo já havia encerrado as viagens.
Goiânia tinha bailes, pescarias e banhos no Lago das Rosas
Apesar das dificuldades para se deslocar, os moradores encontravam maneiras de aproveitar a cidade. Bailes, festas nas casas, pescarias nos córregos e banhos no Lago das Rosas estavam entre as opções de diversão. O lago chegou a funcionar como um balneário público, com trampolim e espaço para nadar, conforme mostrou outra reportagem do Mais Goiás sobre a antiga área de banho.
As histórias do Tareca e das caminhadas aparecem na tese Notas sobre a formação de Goiânia: uma história da vida cotidiana nas primeiras décadas da capital goiana (1930-1955), defendida em 2019 pelo historiador Matheus Nascimento Germano, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
O pesquisador analisou processos criminais, jornais, documentos públicos e entrevistas para reconstruir a rotina dos moradores e mostrar como era viver em Goiânia antes da expansão da cidade.