Laboratório da UFG transforma tampinhas em cadeiras de rodas que chegaram até a África
Quatro cadeiras personalizadas produzidas pelo laboratório foram enviadas para crianças na África com desenhos de animais como leão, girafa, tigre e elefante
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Um laboratório da Universidade Federal de Goiás (UFG) transforma materiais que seriam descartados em equipamentos capazes de dar mais autonomia a pessoas com deficiência. Tampinhas plásticas, MDF, banners e outros materiais são utilizados na produção de cadeiras de rodas, próteses, órteses, parapódios e dispositivos adaptados. O trabalho já ultrapassou as fronteiras do Brasil e quatro cadeiras de rodas personalizadas produzidas pelo projeto foram enviadas para crianças na África.
O Laboratório de Estudos Inventivos em Tecnologias Assistivas (Lab.EITA) foi criado em 2024 e já entregou 280 produtos, desenvolvidos a partir de 52 projetos diferentes. Entre eles estão 34 cadeiras de rodas, além de próteses de mão, orelha e nariz, adaptadores para pessoas com dificuldades motoras, brinquedos sensoriais e parapódios, estruturas que ajudam crianças com limitações motoras a permanecer em pé.
O trabalho do Lab.EITA chegou a outros países após um contato feito durante um congresso científico em São Paulo. A partir da indicação de uma fisioterapeuta, a equipe produziu quatro cadeiras de rodas personalizadas e enviou os equipamentos para crianças na África. As cadeiras receberam desenhos de animais como girafa, leão, tigre e elefante. A ideia foi transformar os equipamentos de mobilidade em objetos mais lúdicos e próximos do universo infantil.

Além das cadeiras enviadas ao continente africano, o laboratório já produziu equipamentos para pessoas de estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Bahia. O espaço também recebe cadeiras comerciais para conserto e posterior redistribuição a outras pessoas.
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O laboratório é coordenado pelo professor Pedro Henrique Gonçalves, da Faculdade de Artes Visuais (FAV) da UFG. A equipe conta com 15 bolsistas de áreas como design, fisioterapia, arquitetura e engenharia da computação. O trabalho é desenvolvido a partir de demandas reais de famílias e instituições de saúde.
Antes da produção dos equipamentos, os usuários passam por uma avaliação física realizada por fisioterapeutas da equipe, para que o dispositivo seja adequado às necessidades de cada pessoa. Após a entrega, o laboratório também realiza o acompanhamento. Cerca de três meses depois, a equipe entra em contato com o usuário para avaliar a adaptação ao equipamento e fazer possíveis ajustes.
Tampinhas viram equipamentos
A criatividade no reaproveitamento de materiais é uma das marcas do laboratório. Uma prensa financiada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) permite transformar tampinhas de polipropileno trituradas em placas resistentes, utilizadas na fabricação de equipamentos. Segundo Pedro Henrique, cerca de 240 mil tampinhas já foram retiradas do meio ambiente e reaproveitadas pelo projeto. Banners descartados pela própria UFG também são utilizados. O material é reaproveitado como reforço estrutural em cintas de fixação, contribuindo para a segurança dos usuários.
As cadeiras adaptadas produzidas pelo laboratório são feitas principalmente em MDF. Isso ocorre porque a prensa utilizada para transformar as tampinhas em placas ainda não consegue produzir peças grandes o suficiente para alguns equipamentos. A aquisição de uma nova máquina, capaz de fabricar pranchas maiores, teria custo estimado em R$ 80 mil.
O laboratório também desenvolve equipamentos de baixo custo que, no mercado convencional, podem ter preços elevados. Um dos exemplos é um andador que pode custar cerca de R$ 20 mil comercialmente e que foi desenvolvido pelo Lab.EITA utilizando impressão 3D e tubos de antena de televisão.
Outro projeto é a produção de capacetes cranianos para correção de assimetrias em bebês. No mercado tradicional, o equipamento pode chegar a cerca de R$ 10 mil. No laboratório, além da produção a um custo reduzido, a equipe acompanha o crescimento da criança e realiza ajustes no dispositivo sempre que necessário.
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Mais de 200 pessoas na fila de espera
Apesar dos resultados, a procura pelos equipamentos já supera a capacidade de produção do laboratório. Atualmente, mais de 200 pessoas aguardam pelos aparelhos. A maior fila é por parapódios, com 70 pessoas à espera. O laboratório consegue produzir cerca de quatro parapódios por mês. Com esse ritmo, somente a fila atual pelo equipamento representa aproximadamente dois anos de produção. Há ainda dez pessoas aguardando por cadeiras de rodas.
A expectativa é que a demanda aumente com a transferência do Lab.EITA para o Hospital das Clínicas da UFG. A mudança deve aproximar o laboratório de pacientes atendidos na unidade e facilitar a identificação de novas necessidades de tecnologias assistivas. Para ampliar a capacidade de produção, o laboratório também prepara uma parceria com o sistema penitenciário. A proposta é capacitar reeducandos para realizar etapas manuais da fabricação, como costura e montagem dos equipamentos.
Segundo Pedro Henrique, a iniciativa pretende atuar em duas frentes: promover a ressocialização por meio do trabalho e da capacitação profissional e, ao mesmo tempo, aumentar a quantidade de dispositivos produzidos para atender à comunidade. O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e tem previsão de início ainda no segundo semestre deste ano.