Já viu um ipê-verde? Conheça árvore rara que chama atenção em Goiás
Espécie nativa do Cerrado pode florescer várias vezes ao ano e tem frutos com sementes em formato de coração. Biólogo de Palmeiras de Goiás levou cerca de oito anos para encontrar o primeiro exemplar
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Quem está acostumado a esperar pelos ipês amarelos, rosas, brancos ou roxos pode passar por um ipê-verde sem sequer perceber que a árvore está florida. Em vez de formar uma copa coberta por flores de cores vibrantes, o Cybistax antisyphilitica mantém as folhas durante a floração e produz pequenas flores esverdeadas que se confundem com a vegetação. Alguns exemplares foram registrados pelo biólogo Hugo Teodoro nas proximidades de Palmeiras de Goiás, na região Oeste do Estado.
A aparência discreta é justamente uma das características que mais chamam a atenção. Segundo Hugo, a diferença fica clara quando o ipê-verde é comparado às espécies mais conhecidas. “Suas flores têm coloração esverdeada, muitas vezes discreta, e podem passar despercebidas no meio da vegetação. Enquanto o amarelo, por exemplo, costuma proporcionar aquele espetáculo visual facilmente percebido à distância, o ipê-verde é mais sutil e curioso, exigindo um olhar mais atento”, explica.
As folhas também ajudam a entender por que a florada não produz o mesmo efeito visual dos outros ipês. “Nos ipês roxo, branco e amarelo, as folhas caem e só ficam as flores. No ipê-verde e no ipê-rosa ocorre o contrário: as folhas não caem e a florada acontece com a árvore possuindo folhas”, conta Hugo.
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Outra particularidade está no período de floração. Embora setembro e outubro sejam os meses em que a espécie costuma atingir o auge da florada, o ipê-verde pode apresentar flores em outras épocas do ano.
Por isso, encontrar um ipê-verde florido não depende necessariamente da chegada de uma única temporada ou estação. A árvore pode surpreender em diferentes períodos, embora o fim do inverno e o início da primavera sejam especialmente favoráveis para observar a espécie em plena floração.
Fruto é a principal pista para identificar a árvore

Além das flores, há outra característica que pode facilitar a identificação do ipê-verde: o fruto. Segundo Hugo, a estrutura em forma de cápsula é um dos sinais mais seguros de que a árvore pertence à espécie.
“O fruto é o grande diferencial. Quando vejo o fruto, é certeza que é o ipê-verde. Depois que vi o primeiro, os outros que encontrei foi tudo por causa do fruto. Ele é em forma de cápsula e dentro fica cheio de sementes. E a semente tem formato de coração. Um coração envolvido por uma membrana branca.”, explica o biológo.

A própria árvore também apresenta características típicas da vegetação do Cerrado. O tronco e os galhos podem ser retorcidos e a casca é grossa e corticosa. As flores lembram as de outros ipês, mas são menores.
Em relação ao tamanho, Hugo conta que inicialmente encontrava exemplares pequenos. Mais recentemente, encontrou árvoresmaiores. “Os primeiros que encontrei não passavam de três metros, mas ano passado e esse ano, para minha surpresa, encontrei três que passam de quatro metros de altura fácil”, relata.
Flores são visitadas por morcegos
O ipê-verde também apresenta uma diferença no modo como é polinizado. De acordo com o biológo, as flores são polinizadas principalmente por morcegos. “Suas flores são polinizadas principalmente à noite por morcegos, ao contrário dos outros ipês, que são polinizados por abelhas. Mas as abelhas também visitam as flores”, explica.

A característica ajuda a explicar por que uma observação durante o dia pode não revelar toda a relação da árvore com os animais que participam de sua reprodução.
Tratamento contra a sífilis
O nome científico Cybistax antisyphilitica também chama atenção. A denominação está relacionada ao uso tradicional da planta contra a sífilis. Segundo Hugo, a espécie já foi utilizada na medicina popular também para problemas como úlceras, feridas, infecções urinárias e inflamações.
A denominação também aparece relacionada aos registros e estudos do naturalista Carl Friedrich Philipp von Martius, que documentou espécies e práticas medicinais utilizadas no Brasil. Apesar da referência histórica, isso não significa que o ipê-verde seja hoje reconhecido como tratamento para sífilis. O uso tradicional não deve ser confundido com comprovação científica de eficácia ou com indicação para tratamento médico.
Não é tão raro na natureza quanto parece
Apesar de ser pouco conhecido, o ipê-verde não é necessariamente uma espécie rara em Goiás, segundo o biólogo. O que faz com que pareça raro é a dificuldade de identificá-lo no meio da vegetação. A espécie é nativa do Cerrado, mas não está restrita ao bioma. Também pode ser encontrada em áreas de Mata Atlântica, Pantanal e Caatinga.
Hugo já encontrou exemplares em Morrinhos e Pontalina de Goiás, mas a maior parte de seus registros está em Palmeiras de Goiás, onde já catalogou cerca de 15 exemplares encontrados em áreas de vegetação natural e quatro árvores plantadas na área urbana.
Uma árvore procurada durante oito anos
Para Hugo, encontrar o primeiro ipê-verde em Palmeiras de Goiás foi mais do que um registro botânico. A descoberta foi resultado de uma busca que começou ainda durante a faculdade de Biologia, em 2015.
Segundo ele, o professor Luiz Gonzaga, a quem considera uma importante referência durante sua formação, costumava falar sobre a espécie. A partir daí, encontrar um ipê-verde virou uma espécie de objetivo pessoal.
“Eu demorei uns oito anos procurando ele. Quando comecei a faculdade, em 2015, eu sonhava com esse ipê-verde. Onde eu ia, ficava olhando as árvores para ver se encontrava um”, conta.

A descoberta finalmente aconteceu de maneira inesperada. Hugo estava voltando de uma fazenda quando sua moto apresentou um problema. Enquanto parou para fazer o conserto, olhou para uma árvore próxima. “De repente eu olhei para cima e vi uma árvore com uma florzinha verde. O formato parecia de flor de ipê. Aí analisei, olhei e me emocionei. Percebi que era o ipê-verde”, relembra.
Como estava em uma área sem internet ou sinal de celular, ele precisou esperar para confirmar a identificação. “Fui para casa para confirmar, olhar meus livros. Aí foi a primeira vez que achei o ipê-verde em Palmeiras”, conta.
Depois daquele primeiro encontro, vieram outros. Hoje, o biólogo continua procurando e catalogando exemplares na região.