Quase 15% dos acidentes na BR-153 desde 2022 ocorreram em trecho de 10 km situado em Goiânia
Levantamento exclusivo da PRF mostra que apenas 10 km da BR-153, entre os km 500 e 510, concentram 14,4% de todos os acidentes registrados em Goiás desde 2022
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Um trecho de apenas 10 quilômetros concentra 14,4% de todos os acidentes registrados na BR-153 em Goiás desde 2022. Entre os km 500 e 510, na região de Goiânia, foram 615 ocorrências até agosto de 2026, segundo levantamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF) feito especialmente para o Mais Goiás.
Em toda a extensão goiana da BR-153, foram registrados 4.272 acidentes, 4.818 feridos e 389 mortes no período analisado. Os dados abrangem os anos completos de 2022 a 2025 e os primeiros oito meses de 2026.
O que chama atenção é a repetição. Os km 500 a 510 aparecem como o trecho com maior número de acidentes em todos os anos analisados pela PRF. Na prática, cerca de um em cada sete acidentes registrados na BR-153 em Goiás desde 2022 ocorreu nesses dez quilômetros.
Percentual se mantém acima de 14%
Em 2022, foram 120 acidentes entre os km 500 e 510, o equivalente a 14% das 859 ocorrências registradas em toda a rodovia no estado. Em 2023, o número subiu para 126, ou 14,4% do total daquele ano.
A maior participação da série ocorreu em 2024. Dos 907 acidentes registrados na BR-153 em Goiás, 139 ocorreram nesse trecho, o equivalente a 15,3%.
Em 2025, foram 137 acidentes, ou 14,1% dos 973 registros. Entre janeiro e agosto de 2026, o trecho contabiliza 93 ocorrências e mantém participação de 14,2% no total estadual.
A variação pequena do percentual ao longo dos cinco períodos mostra que a concentração não está associada a um único ano.
Nove pessoas morreram no trecho em 2026
O mesmo segmento também aparece no topo do levantamento de mortes deste ano.
Entre janeiro e agosto, nove pessoas morreram entre os km 500 e 510, trecho identificado pela PRF no ranking de óbitos como Goiânia/Aparecida de Goiânia. É o maior número entre os intervalos de dez quilômetros apresentados no levantamento de 2026.
Na sequência aparecem os km 290 a 300, em Rialma, com seis mortes. Os km 490 a 500, em Goiânia, tiveram cinco. Campinorte, entre os km 160 e 170, e Porangatu, entre os km 30 e 40, registraram três mortes cada.
Somados, os cinco trechos respondem por 26 das 56 mortes registradas na BR-153 em Goiás até agosto, ou 46,4% dos óbitos do período.
A concentração na Região Metropolitana ocorre na área onde está previsto o novo Anel Viário de Goiânia e Aparecida. O projeto prevê um contorno para retirar parte do tráfego pesado da atual travessia urbana da BR-153.
Em agosto, o Tribunal de Contas da União (TCU) suspendeu a licitação de R$ 1,126 bilhão enquanto são discutidas as responsabilidades pela execução e pelo financiamento da obra.
Cinco trechos concentram 41% dos acidentes

Os números de 2026 mostram que os acidentes também se concentram em outros pontos da BR-153.
Depois dos km 500 a 510, com 93 ocorrências, aparecem os km 430 a 440, em Anápolis, com 58 acidentes. O trecho entre os km 490 e 500, em Goiânia, soma 50.
Entre os km 510 e 520, em Aparecida de Goiânia, foram 39 acidentes. Os km 440 a 450, em Anápolis, aparecem na sequência, com 30.
Os cinco segmentos somam 270 acidentes entre janeiro e agosto, o equivalente a 41,2% das 656 ocorrências registradas na BR-153 em Goiás neste ano.
Ou seja, quatro em cada dez acidentes registrados na rodovia em 2026 ocorreram em apenas cinco intervalos de dez quilômetros.
Outro levantamento exclusivo publicado pelo Mais Goiás mostrou uma concentração diferente quando são considerados apenas acidentes com caminhões no Centro-Norte do estado. Naquele recorte, Uruaçu aparece na primeira posição.
Acidentes na BR-153 em Goiás aumentaram 13,3% entre 2022 e 2025

A série da PRF aponta crescimento no número anual de acidentes em toda a extensão da BR-153 em Goiás. Foram 859 ocorrências em 2022, 877 em 2023, 907 em 2024 e 973 em 2025. Entre o primeiro e o último ano completo da série, o aumento foi de 13,3%.
O número de mortes na rodovia também cresceu no mesmo intervalo. Passou de 76 óbitos em 2022 para 91 em 2025, alta de 19,7%. Em 2023, foram registradas 84 mortes e, em 2024, 82.
Os dados de 2026 não entram nessa comparação porque abrangem apenas os primeiros oito meses do ano. Até agosto, a PRF contabiliza 656 acidentes, 714 feridos e 56 mortes na BR-153 em Goiás.
No trecho específico entre os km 500 e 510, os acidentes passaram de 120 em 2022 para 137 em 2025, alta de 14,2%. Apesar das oscilações anuais, esse segmento permaneceu na primeira posição do ranking de concentração de acidentes em todos os anos analisados.
Quase metade dos acidentes da BR-153 em Goiás ocorre de sexta a domingo

A distribuição por dia da semana mostra outro padrão na BR-153 em Goiás.
Entre janeiro de 2022 e agosto de 2026, sexta-feira, sábado e domingo somaram 2.010 acidentes em toda a extensão goiana da rodovia. O número representa 47,1% das 4.272 ocorrências registradas no período.
O sábado concentra o maior número, com 684 acidentes. O domingo aparece em seguida, com 673, enquanto a sexta-feira soma 653.
Em 2022, o sábado liderou, com 153 ocorrências. Em 2023, a sexta-feira ficou em primeiro lugar, com 152. Em 2024 e 2025, o domingo teve o maior número de acidentes, com 139 e 163 registros, respectivamente.
Em 2026, até agosto, o domingo soma 104 ocorrências, seguido pelo sábado, com 101, e pela sexta-feira, com 98.
Na soma dos cinco períodos analisados, quase metade de todos os acidentes registrados na BR-153 em Goiás ocorreu entre sexta-feira e domingo.
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Falhas de reação aparecem em um terço dos acidentes
A reação tardia ou ineficiente do motorista aparece como a principal causa registrada pela PRF em 2026, com 114 ocorrências. A ausência de reação aparece em outros 98 casos.
Juntas, as duas situações representam 212 acidentes, ou 32,3% do total registrado entre janeiro e agosto.
Não manter distância do veículo da frente aparece em 56 ocorrências, equivalentes a 8,5%. A ingestão de álcool pelo motorista soma 53 casos, ou 8,1%. Falhas mecânicas ou elétricas aparecem em 39 acidentes, 5,9% do total.
Os números se referem a toda a extensão da BR-153 em Goiás. A base fornecida à reportagem não permite relacionar essas causas especificamente aos acidentes ocorridos entre os km 500 e 510.
Colisão traseira lidera registros

A colisão traseira é o tipo de acidente mais frequente na BR-153 em Goiás em 2026.
Foram 168 registros entre janeiro e agosto, o equivalente a 25,6% das ocorrências. As saídas de pista aparecem na sequência, com 130 casos, ou 19,8%.
Tombamentos somam 60 acidentes, 9,1%. Colisões laterais no mesmo sentido representam 8,1%, com 53 registros, enquanto batidas contra objetos somam 50 casos, ou 7,6%.
Colisões traseiras e saídas de pista, juntas, representam 45,4% dos acidentes registrados na rodovia neste ano.
Os dados ajudam a dimensionar o perfil das ocorrências, mas não permitem estabelecer uma relação direta entre determinado tipo de acidente e o trecho dos km 500 a 510.
Ecovias aponta redução de acidentes em trecho sob sua concessão

Embora não administre os km 500 a 510, a Ecovias Araguaia foi consultada pela reportagem sobre as medidas de segurança adotadas no trecho da BR-153 sob sua responsabilidade, a partir de Anápolis em direção ao Norte de Goiás.
A concessionária informou que mantém um Programa de Redução de Acidentes (PRA), que reúne profissionais de diferentes áreas para identificar pontos críticos e discutir intervenções de engenharia e segurança viária. Entre as medidas estão melhorias de sinalização e instalação de dispositivos de proteção, mediante acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Segundo a Ecovias, o número de acidentes nos trechos administrados pela empresa caiu 64% na comparação entre o primeiro semestre de 2023 e o mesmo período de 2026.
Na comparação entre os primeiros seis meses de 2025 e 2026, a concessionária informa redução de 60% no número de acidentes e de 29% no número de vítimas.
A empresa associa parte da queda à implantação de faixas sonoras e vibratórias, conhecidas como rumble strips, e de balizadores longitudinais. Os equipamentos foram instalados, segundo a concessionária, principalmente em locais com maior incidência de ultrapassagens proibidas.
Na BR-414, onde houve maior volume de instalação desses equipamentos, a Ecovias informa que os acidentes diminuíram 74%. O percentual é apresentado pela própria concessionária e se refere ao comparativo realizado pela empresa.
A Ecovias também cita o programa “Infração Assistida”, desenvolvido em parceria com a PRF. A iniciativa integra o videomonitoramento da concessionária à fiscalização policial. Motoristas flagrados em ultrapassagens proibidas podem ser abordados pela PRF e visualizar as imagens da própria infração.
Nos 850,7 quilômetros administrados nas BRs 153, 414 e 080 entre Anápolis e Aliança do Tocantins, a empresa informa manter 533 câmeras, aproximadamente uma a cada dois quilômetros. Segundo a concessionária, os equipamentos receberam investimento de R$ 50 milhões.
Trecho dos km 500 a 510 está sob concessão da Concebra

O trecho que lidera o levantamento da PRF não pertence à concessão da Ecovias Araguaia. Os km 500 a 510 estão dentro da área administrada pela Concebra, empresa controlada pela Triunfo Participações e Investimentos. A concessão remanescente engloba as BRs 060 e 153 entre Brasília e Hidrolândia, incluindo a travessia da Região Metropolitana de Goiânia.
Procurada pelo Mais Goiás, a Concebra informou que, entre 2022 e 2026, 66% dos sinistros registrados entre os km 500 e 510 resultaram apenas em danos materiais. Segundo a concessionária, as ocorrências estariam relacionadas principalmente a comportamentos no trânsito como excesso de velocidade, falta de distância de segurança entre os veículos e distrações provocadas pelo uso do celular.
A avaliação apresentada pela empresa não substitui os dados da PRF. O levantamento obtido pelo Mais Goiás aponta 615 acidentes no trecho desde 2022, mas as informações sobre causas fornecidas pela corporação abrangem toda a extensão da BR-153 em Goiás e não permitem determinar isoladamente o motivo dos acidentes entre os km 500 e 510.
A Concebra afirma que realizou mais de 200 ações de segurança viária em 2026, com orientações a motoristas e usuários em escolas, postos de combustíveis, passarelas, praças de pedágio, pontos de ônibus e outros locais considerados estratégicos.
A empresa informa ainda ter realizado intervenções pontuais no pavimento, na sinalização horizontal e vertical, nos elementos de proteção e segurança e nos serviços de conservação da rodovia.
Entre as iniciativas citadas está o apoio ao Cinema Rodoviário da PRF, com ações direcionadas principalmente a motociclistas que circulam pelo perímetro urbano de Goiânia e Aparecida de Goiânia.
Segundo a concessionária, permanecem também os atendimentos médico e mecânico de emergência 24 horas por dia e os serviços de conservação no trecho.
Questionada sobre novos investimentos, a Concebra informou que novas intervenções dependerão do desfecho do processo de otimização do contrato de concessão, iniciado a partir da Portaria nº 848, de agosto de 2023, do Ministério dos Transportes, em articulação com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
A concessionária não detalhou, na resposta enviada ao Mais Goiás, quais novas obras estão previstas especificamente entre os km 500 e 510, nem apresentou cronograma para possíveis intervenções. Também não informou o volume diário de veículos, a participação do tráfego pesado ou se existem pontos dentro desses dez quilômetros que concentram número maior de acidentes.