Médico goiano muda de vida, abandona vícios e seis anos depois chega ao Mundial de Ironman na França
Cirurgião plástico Hugo Santos Vieira deixou cigarro e bebida, reorganizou a rotina e transformou o esporte em parte central da própria vida; agora, disputa o Mundial de IRONMAN 70.3 em Nice, na França
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Hugo Santos Vieira não começou a correr, pedalar e nadar pensando em disputar um campeonato mundial. A mudança começou de forma mais íntima, quando decidiu que não queria que a filha caçula crescesse vendo o pai fumar. A pandemia, as mortes de amigos e a percepção de que precisava rever hábitos aceleraram uma transformação que depois incluiria também o abandono da bebida. Seis anos mais tarde, o cirurgião plástico goiano está prestes a disputar o Mundial de Ironman 70.3, em Nice, na França.
A vaga foi conquistada em abril, no Ironman 70.3 Brasília, quando Hugo completou os 113 quilômetros de prova em 4h36min. O resultado o classificou para a competição mundial, marcada para os dias 12 e 13 de setembro, com a prova masculina no domingo (13). O Mundial reúne atletas classificados em etapas realizadas em diferentes países e terá como cenário o Mediterrâneo, os Alpes Marítimos e a Promenade des Anglais.
A mudança começou com uma decisão dentro de casa
O ponto de virada ocorreu por volta de 2019 e 2020, quando a filha mais nova de Hugo ainda tinha entre um e dois anos. Ele conta que não queria que ela o visse fumando e começou a enxergar o hábito por outra perspectiva. Quase ao mesmo tempo, veio a pandemia e a experiência de acompanhar a morte de pessoas próximas por complicações respiratórias. A combinação desses fatores transformou uma vontade antiga em uma decisão concreta.
“O momento foi por volta de 2019, 2020, que minha filha caçula estava ali com um, dois anos de idade e eu não gostaria que ela me visse fumando de jeito nenhum”, afirma. Hugo também lembra que viu amigos morrerem por falta de ar durante a pandemia. “Foram dois pontos importantes que colaboraram para essa minha iniciativa de parar de fumar”, relata. Mais tarde, a mudança de hábitos incluiria também o abandono da bebida alcoólica.
O esporte apareceu depois como uma das ferramentas utilizadas para sustentar essa nova fase. Aos poucos, a atividade física deixou de ocupar um espaço complementar e passou a exigir disciplina, planejamento e constância. O triatlo acabou reunindo natação, ciclismo e corrida dentro de uma rotina que precisava coexistir com medicina, família e vida pessoal. O que começou como uma escolha pela saúde ganhou dimensão muito maior.
Não foi apenas o corpo que mudou
Resumir a trajetória de Hugo à transformação de ex-fumante em triatleta explica apenas parte da história. Nos últimos anos, ele também concluiu uma graduação em Filosofia, manteve a atuação como médico e continuou desenvolvendo uma relação com a música. Hugo já gravou dois discos e afirma que ainda pretende cursar Física. Para ele, a vida adulta não precisa significar o encerramento das possibilidades de aprendizagem.
“Eu sou entusiasta da vida”, afirma. A maneira como ele descreve a própria trajetória passa pela ideia de que as pessoas podem desenvolver diferentes habilidades ao longo do tempo. “Acredito que nós nascemos com várias potências e, ao longo da vida, a gente pode ir desenvolvendo algumas delas”, diz. O esporte entrou justamente como uma dessas novas possibilidades.
Essa disposição para recomeçar se tornou também uma forma de organizar a própria identidade. Hugo não abandonou a medicina para se tornar atleta, nem deixou outras atividades em segundo plano de maneira definitiva. Em vez disso, passou a acumular experiências diferentes em uma mesma trajetória. A mudança de hábitos acabou produzindo também uma mudança na forma como ele entende o tempo.
A vaga para o Mundial apareceu quase de surpresa
A classificação em Brasília não era o objetivo principal daquela etapa da temporada. Hugo estava em um ciclo de treinamento para o Ironman Full de Florianópolis, previsto para o mês seguinte. Por isso, carregava um volume elevado de treino, mas não havia feito uma preparação específica para buscar a vaga no Mundial. Mesmo assim, decidiu competir forte.
“Eu estava com bastante volume de treino, mas não foi uma preparação específica para Brasília”, explica. Como se sentia bem, pediu ao treinador autorização para aumentar o ritmo e terminou os 113 quilômetros em 4h36min. Durante a prova, ainda não sabia se o desempenho seria suficiente para garantir a classificação. A confirmação veio apenas depois.
“Meu técnico falou: ‘Vamos lá para a premiação porque eu acho que você classificou’”, lembra. Foi então que Hugo percebeu que havia conquistado a vaga para Nice. O resultado também foi registrado em cobertura publicada à época, que confirmou o tempo de 4h36min no Ironman 70.3 Brasília e a classificação para o Mundial.
Na França, o maior desafio estará sobre a bicicleta
O Ironman 70.3 reúne 1,9 quilômetro de natação, 90 quilômetros de ciclismo e 21,1 quilômetros de corrida. Em Nice, o desenho do percurso acrescenta um grau importante de dificuldade, especialmente no trecho de bicicleta. O circuito atravessa a região dos Alpes Marítimos e combina subidas prolongadas com descidas técnicas. Para Hugo, essa será a parte que exigirá maior atenção.
“O percurso de Nice é extremamente técnico, especialmente a bicicleta”, afirma. Segundo ele, há subidas longas e duras, além de descidas com curvas e trechos que exigem controle. Hugo pretende reconhecer parte do trajeto antes da prova e participar de um briefing técnico com a equipe. “Creio que nessa prova, com certeza, o ciclismo é a parte mais desafiadora.”
A própria organização do Mundial destaca a combinação entre o Mediterrâneo, o relevo dos Alpes Marítimos e a atmosfera da Côte d’Azur como características centrais da competição. A edição de 2026 terá a prova feminina no sábado (12) e a masculina no domingo (13). Nice volta a receber atletas classificados em etapas do circuito internacional.
A mudança de vida também cobra um preço
A rotina de um atleta amador de alto rendimento não depende apenas de disposição. Hugo afirma que o triatlo exige investimento alto em equipamentos, inscrições, viagens, treinamento e estrutura. A bicicleta, especialmente em níveis competitivos, pode representar uma das maiores despesas. Para ele, essa realidade restringe o acesso ao esporte.
“O custo de ser um atleta amador hoje é alto”, afirma. Hugo avalia que ainda faltam patrocínio e apoio para atletas que conseguem competir em nível internacional. Segundo ele, grande parte dos investimentos esportivos permanece concentrada em modalidades com maior visibilidade, especialmente o futebol. No triatlo, quem pretende performar precisa arcar com uma estrutura que nem sempre está ao alcance da maioria.
O preço não é apenas financeiro. Os treinos exigem abrir mão de parte da vida social, viagens de lazer e férias prolongadas. A preparação precisa ser encaixada entre consultório, família e compromissos cotidianos. “Esse é o custo pessoal que eu acho”, resume.
O tempo virou um recurso tão importante quanto o preparo físico
Conciliar medicina e esporte passou a exigir uma reorganização minuciosa da rotina. O treino não substituiu o trabalho, as responsabilidades familiares nem outros interesses pessoais. Cada sessão de natação, bicicleta ou corrida precisa encontrar espaço em uma agenda já preenchida. Para um atleta amador, o Mundial é construído nas horas que sobram — ou que precisam ser criadas.
Essa mudança talvez seja uma das partes menos visíveis da história. A transformação não aconteceu apenas quando Hugo deixou de fumar ou quando começou a competir. Ela apareceu também na forma como passou a administrar prioridades. O esporte exigiu constância onde antes havia improviso.
O resultado dessa disciplina aparece hoje no calendário. Hugo chega a Nice depois de anos acumulando treinos, provas e mudanças de hábitos. A classificação mundial é a parte mais visível de um processo muito mais longo. Para ele, porém, o sentido final ainda está fora do cronômetro.
Na chegada, ele quer procurar as filhas antes de olhar o relógio

Quando imagina o momento em que cruzará a linha de chegada em Nice, Hugo não fala primeiro sobre colocação. As duas filhas estarão presentes para acompanhá-lo na França. Para ele, esse encontro simboliza o fechamento de um ciclo iniciado justamente por causa da mais nova. A mesma relação que ajudou a motivar o abandono do cigarro estará diante dele no final da prova.
“Quando eu cruzar o pórtico lá em Nice, a coisa mais importante para mim vai estar diante dos meus olhos, que são as minhas duas filhas”, afirma. Hugo diz que o tempo e a classificação final ficam em segundo plano. O que importa, segundo ele, é o legado e o exemplo deixados aos filhos. A possibilidade de transformar uma mudança pessoal em referência para elas tem peso maior do que qualquer resultado esportivo.
Ele descreve essa expectativa usando a imagem de uma árvore. “É uma sensação de dever cumprido, de perceber os frutos dessa árvore frutífera que é a vida e que esses frutos possam gerar semente no coração dos nossos filhos”, diz. Hugo acredita que o momento será de forte emoção. Para ele, a chegada terá um significado que o esporte, sozinho, não explica.
A fé também ocupa espaço nessa transformação
Hugo relaciona parte dessa trajetória à própria fé. Ele afirma que pediu ajuda a Deus quando decidiu abandonar o vício e considera as mudanças seguintes como parte de um processo de transformação pessoal. O Mundial aparece, dentro dessa leitura, como uma consequência inesperada. A classificação não é tratada apenas como resultado físico.
“Acredito que seja uma bênção eu ter tido essa oportunidade de participar desse Mundial”, afirma. Segundo ele, a decisão de mudar de vida começou quando pediu força para abandonar o cigarro. “Eu sou uma pessoa de fé, então para mim é mais uma bênção receber essa oportunidade.” A frase revela como o médico interpreta a sequência de acontecimentos dos últimos anos.
Essa dimensão também ajuda a afastar a história de uma narrativa puramente esportiva. Para Hugo, a conquista não se resume a desempenho, técnica e preparação. Ela é atravessada por família, fé, disciplina e escolhas pessoais. O esporte acabou se tornando o lugar onde essas mudanças ganharam forma concreta.
Seis anos depois, o Mundial é consequência, não ponto de partida

O que mudou na vida de Hugo começou antes de qualquer inscrição em prova. Primeiro veio a decisão de abandonar o cigarro, depois a bebida e, em seguida, a reorganização da rotina. O triatlo cresceu dentro desse processo até se transformar em uma atividade de alto rendimento amador. O Mundial apareceu apenas quando a transformação já estava consolidada.
Por isso, Nice funciona mais como consequência do que como objetivo inicial. Hugo não começou a mudar porque queria um pórtico internacional, uma medalha ou uma classificação. Começou porque queria viver de outra forma e ser visto de outra maneira pelas próprias filhas. O esporte acabou levando essa decisão mais longe do que ele imaginava.
Seis anos depois, o ex-tabagista que decidiu rever hábitos estará entre atletas classificados de diferentes partes do mundo. Quando entrar no Mediterrâneo, subir na bicicleta e correr pela Promenade des Anglais, haverá um número no peito e um cronômetro funcionando. Para Hugo, porém, a maior medida dessa transformação estará fora da classificação. Estará na distância entre o homem que decidiu parar de fumar e aquele que chegará ao Mundial na França.