Antes de ser espremido pelo concreto, Córrego Botafogo foi decisivo para construção de Goiânia; conheça história
Córrego Botafogo ajudou na escolha da área onde Goiânia seria construída, abasteceu moradores e deveria correr cercado por vegetação antes de ser canalizado e incorporado à expansão urbana
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Antes de virar um canal cercado por concreto, pistas e pontes, o Córrego Botafogo ajudou a tornar possível a construção de Goiânia. Quando a nova capital começou a sair do papel, na década de 1930, água disponível, relevo e condições sanitárias estavam entre os fatores decisivos para definir onde a cidade seria erguida. O Botafogo fazia parte dessa equação e chegou, nos primeiros anos, a fornecer água para a população. Naquele momento, ele não era tratado apenas como um curso d’água a ser atravessado ou canalizado, mas como parte da estrutura natural que sustentaria a nova capital.
O primeiro plano urbanístico, elaborado por Attilio Corrêa Lima, reforçava essa ideia. O projeto previa cerca de 50 metros de vegetação em cada lado do córrego, formando uma faixa de aproximadamente 100 metros de largura ao longo de seu percurso. A área deveria proteger a qualidade e a quantidade da água e também reservar espaço para lazer e áreas verdes. Era uma lógica de cidade em que fundos de vale, nascentes e vegetação ajudariam a organizar a ocupação urbana, em vez de serem vistos apenas como áreas disponíveis para receber obras.
O Plano de Manejo do Parque Areião registra que o Botafogo nasce na região do Jardim Botânico e percorre aproximadamente 11,5 quilômetros até desembocar no Ribeirão Anicuns. Esse trajeto atravessa uma área que, desde os primeiros desenhos de Goiânia, aparecia associada à presença de água e vegetação. A importância do córrego, portanto, não começa com a avenida que posteriormente ocuparia suas margens. Começa antes da própria consolidação da cidade.
A escala prevista para Goiânia ajuda a entender aquele planejamento. A capital havia sido desenhada inicialmente para cerca de 50 mil moradores, número usado para dimensionar ruas, serviços, abastecimento e áreas de expansão. Dentro dessa cidade ainda pequena, o Botafogo tinha uma função que hoje parece distante da imagem de um canal urbano: era fonte de água, referência territorial e parte de uma paisagem que os primeiros urbanistas pretendiam preservar. O Mais Goiás já mostrou por que questões geográficas e sanitárias pesaram na escolha da região onde a capital nasceu
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Da faixa verde ao primeiro concreto

A cidade cresceu muito além daquele desenho. Em 1965, pouco mais de três décadas depois do início da construção, Goiânia já reunia cerca de 150 mil habitantes, três vezes a população prevista originalmente. O crescimento aparecia também no mapa: aproximadamente 125 novos bairros surgiram somente durante a década de 1960. A capital planejada em torno de um núcleo relativamente compacto começava a se espalhar e exigia novas redes de água, esgoto, drenagem, ruas e infraestrutura.
Foi nesse cenário que mudou também a forma como o poder público passou a lidar com o Botafogo. Em 21 de julho de 1962, a Lei Municipal nº 2.034 autorizou a canalização do córrego “em toda a extensão da zona urbana”. A decisão marcava uma mudança de função. O curso d’água que aparecia nos primeiros projetos associado ao abastecimento, à vegetação e ao lazer começava a ser tratado também como estrutura destinada a conduzir a água de uma cidade que ocupava cada vez mais território. A lei que autorizou a canalização permanece disponível no arquivo oficial da Prefeitura de Goiânia.
A transformação física avançou por etapas e ganhou força na década seguinte. Entre 1976 e 1977 começaram obras de retificação e canalização em trechos do Botafogo. Retificar significava modificar partes do traçado natural, reduzindo curvas e adequando o leito à ocupação urbana. Canalizar significava limitar a passagem da água dentro de uma estrutura construída. Aos poucos, trechos de um córrego acompanhado por solo e vegetação passaram a assumir a aparência de um canal urbano.
Para a bióloga Fernanda Flores, a intervenção física modifica a paisagem, mas não elimina o comportamento natural da bacia. “O concreto muda a paisagem, mas não transforma um córrego em uma tubulação. O Botafogo continua recebendo água das nascentes, das chuvas e da própria bacia. Quando a vegetação das margens e as áreas de infiltração diminuem, a água chega mais rapidamente ao canal e o sistema natural passa a funcionar dentro de um espaço muito mais limitado”, explica. A transformação avançava justamente sobre o espaço em que Attilio Corrêa Lima havia imaginado mata, água e áreas de lazer.
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O córrego ficou; a paisagem desapareceu

Depois da canalização, faltava uma transformação que mudaria definitivamente a forma como o goianiense enxergava o Botafogo. No início da década de 1990, o fundo de vale passou a receber uma via expressa destinada a criar uma ligação pelo eixo norte-sul da capital e desafogar parte do trânsito da região central. A Universidade Federal de Goiás registra a construção da Marginal Botafogo em 1991, em um período em que Goiânia ampliava a malha urbana e buscava novas alternativas de circulação. O curso d’água permaneceu no centro do vale, mas passou a dividir o espaço com pistas, pontes e estruturas de drenagem.
A mudança alterou também a relação da cidade com o solo ao redor do córrego. Superfícies que conseguiam absorver parte da água das chuvas foram substituídas por asfalto, construções e outros materiais impermeáveis. O Mais Goiás já mostrou que engenheiros relacionam problemas estruturais da região ao crescimento urbano e à impermeabilização do solo. Na prática, quanto menor a capacidade de infiltração, maior é a quantidade de água que tende a alcançar rapidamente o sistema de drenagem durante uma chuva intensa.
Para o engenheiro ambiental Arthur, canalizar um curso d’água pode modificar a velocidade de escoamento, mas não reduz o volume produzido pela bacia. “Quando um córrego é retificado e revestido, a água tende a ganhar velocidade naquele trecho. Isso pode aumentar a capacidade de escoamento local, mas não elimina o volume produzido por uma bacia cada vez mais impermeabilizada. Quanto mais asfalto, telhado e concreto existem ao redor, menor é a infiltração no solo e maior é a quantidade de água que precisa chegar ao sistema de drenagem em pouco tempo”, explica.
O resultado criou duas leituras do mesmo Botafogo. Para quem passa pelas pistas, ele aparece como o canal que acompanha um dos principais corredores de circulação de Goiânia. Ambientalmente, continua sendo um curso d’água que recebe chuva, escoamento superficial e água de sua bacia. O córrego permaneceu no fundo do vale; o que mudou foi o espaço construído ao redor dele.
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Quase um século depois, a água ainda cobra espaço

O concreto resolveu parte das necessidades de circulação e drenagem de uma capital em expansão, mas não retirou o Córrego Botafogo da equação urbana. Ao longo das décadas, a estrutura construída para conter e conduzir a água passou a exigir manutenção permanente. Em fevereiro de 2026, uma erosão entre a Rua 21 e a Rua 10 obrigou a Prefeitura de Goiânia a executar uma obra emergencial para recompor a encosta e recuperar parte do leito. A Secretaria Municipal de Infraestrutura informou, na ocasião, que aquele trecho do canal havia sido construído em 1978. Quase meio século depois, a estrutura precisava ser recuperada para continuar cumprindo a função para a qual havia sido implantada.
O Mais Goiás acompanhou a intervenção realizada para conter os danos. Em períodos de chuva, o nível da água também precisa ser acompanhado por sensores capazes de acionar cancelas e interromper o trânsito em trechos considerados de risco. O portal registrou ainda o funcionamento do sistema quando a elevação do córrego exigiu a interrupção da passagem de veículos.
Os sinais de pressão sobre a estrutura não começaram agora. Em 2018, a Prefeitura chegou a decretar situação de emergência após identificar 17 pontos críticos no canal e nas vias marginais, em meio a ocorrências de inundação, erosão e desmoronamento. A situação ajuda a explicar por que o problema não depende apenas da água que já está dentro do córrego. A expansão urbana multiplicou as áreas cobertas por asfalto, telhados e concreto. Com menos solo disponível para absorver a chuva, mais água escoa pela superfície e precisa alcançar rapidamente a rede de drenagem.
Mais de 90 anos depois da escolha do local onde Goiânia começaria a ser construída, o percurso do Botafogo resume uma parte da transformação da própria capital. O córrego ajudou a definir onde a cidade poderia nascer, forneceu água à população e depois passou a compartilhar o fundo de vale com estruturas de concreto e automóveis. Ele não desapareceu. O que desapareceu em grande parte do trajeto foi a paisagem que os primeiros urbanistas imaginaram ao redor dele. A cidade conseguiu redesenhar suas margens, mudar seu leito e ocupar seu entorno, mas não retirou a água da história.