Ninguém sobe mais no trampolim: por que nadar no Lago das Rosas deixou de ser permitido
Durante décadas, o Lago das Rosas funcionou como balneário público, com área para banho, trampolim e famílias ocupando as margens nos fins de semana.
Ir direto pra matéria
Durante parte das décadas de 1940, 1950 e 1960, moradores de Goiânia entravam na água do Lago das Rosas para nadar, mergulhar e passar os fins de semana com a família. O parque do Setor Oeste funcionava como balneário público e possuía uma área de banho com 1,5 metro de profundidade e trampolim, segundo a Prefeitura de Goiânia. A estrutura atendia moradores de Goiânia e da então Campininha das Flores, atual Campinas, em uma capital que ainda tinha menos de 50 mil habitantes. Era, guardadas as diferenças com uma praia natural, uma das alternativas públicas da cidade para quem queria passar o dia dentro d’água.
A comparação mostra o tamanho da transformação urbana ocorrida desde aquele período. O Censo Demográfico do IBGE registra 48.166 habitantes no município de Goiânia em 1940, enquanto a estimativa oficial para 2025 chega a 1.503.256 moradores. A população municipal, portanto, torna-se mais de 31 vezes maior em relação ao início da década em que o balneário é implantado. O lugar que hoje está cercado por avenidas, edifícios e bairros consolidados surgiu quando Campinas e a nova capital ainda formavam núcleos urbanos separados.
Antes do lago, existia o Horto Florestal

A história da área começa antes da criação do balneário. A dissertação “Os parques urbanos de Goiânia como equipamentos de valorização dos seus entornos”, apresentada por Ana Flávia Oliveira Martinho ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Planejamento Territorial da PUC Goiás em 2016, aponta a incorporação de aproximadamente 50 alqueires ao território da nova capital em 1933. Quatro anos depois, a área passa a abrigar o Horto Florestal de Goiânia. Em 1941, recebe a denominação de Balneário Lago das Rosas.
A implantação ocorre em uma área estratégica para a expansão da nova cidade. O estudo acadêmico aponta o Lago das Rosas como a primeira construção do Setor Oeste e associa sua criação à ligação entre Goiânia e Campinas. A própria Prefeitura registra que a mureta construída em 1941 ficava na via que conectava a antiga Campininha das Flores ao núcleo da nova capital. O lago surge, portanto, também como parte da ocupação do espaço existente entre os dois núcleos urbanos.
Lago tinha 1,5 metro de profundidade e trampolim
A represa aproveita águas relacionadas à nascente do Córrego Capim Puba e recebe estruturas destinadas ao uso recreativo. De acordo com o roteiro oficial de patrimônio da Prefeitura, o balneário tinha área para banho com 1,5 metro de profundidade e um trampolim. A existência do equipamento mostra que entrar na água fazia parte do uso previsto para aquele espaço e não resultava apenas de uma prática informal dos moradores. Hoje, o trampolim permanece no lago, mas sem a função recreativa para a qual foi construído.
Outra pesquisa acadêmica confirma o uso do local como piscina. Na dissertação “Revitalização e preservação do patrimônio arquitetônico e urbanístico do Centro de Goiânia”, defendida em 2006 na então Universidade Católica de Goiás, Ciro Augusto de Oliveira e Silva registra que o Lago das Rosas era frequentado por moradores de Campinas e do Centro. O pesquisador descreve a piscina como espaço utilizado principalmente pela juventude e menciona o trampolim instalado no local. O estudo integra um mestrado profissional em Gestão do Patrimônio Cultural.
Balneário funcionava como um clube popular
O banho não era a única atividade relacionada ao Lago das Rosas. A pesquisa de Ana Flávia Martinho classifica o espaço naquele período como um “clube popular”, no qual moradores nadavam enquanto famílias ocupavam as matas do antigo Horto Florestal para piqueniques e encontros. O estudo também aponta que a área de banho oferecia uma alternativa de lazer para parcelas da população com menos acesso aos clubes existentes na cidade. O caráter público ajuda a explicar por que o local passa a ocupar espaço na memória dos primeiros moradores de Goiânia.
A vida social do entorno ia além da piscina. A dissertação de Ciro Augusto de Oliveira e Silva registra a existência do Castelinho, espaço frequentado por estudantes e fechado em 1964. Estudos sobre o Lago das Rosas também registram atividades de convivência no Horto e a ocupação das margens do lago por moradores nos fins de semana. A área funcionava, assim, como um dos pontos de encontro de uma cidade cujo sistema de lazer ainda estava em formação.
O nome veio das roseiras
O nome Lago das Rosas não está relacionado ao formato da represa. Segundo a Agência Municipal de Turismo e Eventos, a área abrigava um grande canteiro de rosas, que serviu de referência para a denominação do parque. O jardim integrava a paisagem formada pelo lago, pelo Horto Florestal e pelas estruturas de recreação. A denominação permanece mesmo depois das mudanças de uso ocorridas nas décadas seguintes.
O espaço também está relacionado à nascente do Córrego Capim Puba, curso d’água que atravessa a região central. Pesquisa publicada pela PUC Goiás sobre os parques urbanos da cidade identifica o Lago das Rosas como área localizada na bacia do Capim Puba e vinculada ao sistema hídrico local. O conjunto Lago das Rosas e Parque Zoológico soma atualmente 315 mil metros quadrados, segundo cadastro da Prefeitura de Goiânia. A dimensão atual resulta de uma trajetória de mudanças de uso, intervenções e reorganizações do espaço.
Zoológico muda o perfil da área em 1956
Uma nova etapa começa em 1956, quando surge o Parque Zoológico de Goiânia. A Prefeitura atribui a criação ao encarregado e morador do Lago das Rosas Saturnino Maciel de Carvalho, com posterior incorporação de animais doados pelo professor e ornitólogo José Hidasi. O registro municipal ressalta que o lago já funcionava como espaço tradicional de recreação antes da instalação do zoológico. A nova atividade amplia as opções de lazer e modifica gradualmente a relação dos visitantes com o parque.
A data de 1956 também aparece em pesquisa acadêmica publicada em 2017 na Revista Baru, da PUC Goiás. O artigo de Ana Paula Moreira Rodrigues, Antonio Pasqualetto e Anna Luiza Oliveira Garção reconstrói a trajetória da área desde a criação do Horto Florestal em 1937 e do Balneário Lago das Rosas em 1941. Os autores analisam ainda a transformação posterior do parque e os efeitos da urbanização sobre o espaço. O estudo insere o Lago das Rosas na formação das áreas verdes que acompanham o crescimento de Goiânia.
Banhos terminam após casos de afogamento

A fase em que a população utiliza o lago como piscina termina nos anos 1960. A dissertação de Ana Flávia Martinho registra que os banhos são proibidos após casos de afogamento, embora a documentação consultada não estabeleça uma data exata para o encerramento definitivo da atividade. A Assembleia Legislativa de Goiás também situa a utilização do local como clube público até aproximadamente 1960. Por isso, afirmar um ano específico para o último banho não encontra sustentação suficiente nas fontes institucionais e acadêmicas consultadas.
A pesquisa de 2016 reúne ainda registros históricos que indicam como a função do lago muda depois desse período. Já na década de 1970, documentos citados pelo estudo tratam da impossibilidade de o Lago das Rosas voltar a funcionar como piscina e registram problemas relacionados à conservação da área. O crescimento urbano também acelera a verticalização do entorno, especialmente depois de 1975. O antigo balneário passa, então, a exercer principalmente funções de parque, paisagem e lazer fora da água.
Trampolim virou patrimônio art déco de Goiânia
O equipamento usado pelos banhistas ganha outro significado com o passar das décadas. A mureta e o trampolim do Lago das Rosas integram hoje o Acervo Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Segundo o Iphan, o conjunto federal reúne 20 edifícios e equipamentos urbanos, além de elementos do traçado dos núcleos pioneiros. O Lago das Rosas aparece nessa relação ao lado de bens como Grande Hotel, Teatro Goiânia, Estação Ferroviária, Palácio das Esmeraldas e Torre do Relógio.
O tombamento federal do acervo é homologado pela Portaria nº 507, de 18 de novembro de 2003. Em 3 de fevereiro de 2005, os bens são inscritos nos livros do Tombo Histórico, Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e de Belas Artes. O próprio Iphan relaciona a proteção à importância histórica, paisagística, artística e arquitetônica do conjunto construído durante a formação da nova capital. Com isso, a estrutura criada para que moradores mergulhassem no lago passa também a funcionar como documento material da Goiânia dos anos 1940.
De balneário popular a parque cercado por edifícios
A transformação do entorno também aparece nas pesquisas sobre a cidade. A dissertação de Ana Flávia Martinho mostra que fotografias de 1975 ainda registravam predominância de construções de poucos pavimentos próximas ao Lago das Rosas e que a verticalização se intensifica posteriormente. O estudo analisa ainda a relação entre os parques e a valorização imobiliária do Setor Oeste. O espaço que nasce como alternativa pública de lazer entre Goiânia e Campinas passa a ocupar uma área cercada por uma das regiões consolidadas da capital.
Pesquisa publicada no Boletim Goiano de Geografia, da Universidade Federal de Goiás, também identifica o Lago das Rosas entre os parques antigos inseridos em áreas urbanas consolidadas de Goiânia. O estudo aponta a presença de hospitais, bancos, supermercados e ocupação urbana no entorno do parque. Essa mudança ajuda a dimensionar a distância entre a cidade do balneário e a Goiânia contemporânea. Em 1940 eram 48.166 habitantes; em 2025, a estimativa do IBGE chega a 1,503 milhão.
Parque passa por nova transformação em 2026
A história do Lago das Rosas continua em transformação. Em maio de 2026, o Mais Goiás mostrou que o parque entrou em um projeto de revitalização de R$ 2,7 milhões, com previsão de obras até o fim do ano. O plano inclui intervenções em equipamentos de lazer, acessibilidade e infraestrutura e provocou discussão sobre a retirada de árvores previstas no projeto. A Justiça chegou a suspender o corte de dezenas de árvores após ação do Ministério Público de Goiás.
O próprio Mais Goiás já registrou a trajetória do parque e sua presença entre os espaços de lazer da capital desde os anos 1940. O que nem todos os frequentadores atuais sabem é que o trampolim preservado no meio do lago não nasceu como peça decorativa. Durante aproximadamente duas décadas, ele cumpriu exatamente a função sugerida por sua forma: servia para que moradores saltassem na água. Antes dos pedalinhos, das pistas de caminhada e dos edifícios que hoje cercam o Setor Oeste, Goiânia teve no Lago das Rosas a sua versão de um balneário público.