Terça-feira, 08 de Setembro de 2026
R$ 2,2 MILHÕES DESVIADOS

Caso Dannilo Proto: quem são os 10 condenados por desvios na educação de Rio Verde

Sentença detalha papel de delegado, servidores públicos, empresários e outras pessoas na organização criminosa

Rafael Oliveira
Por - Goiânia, GO
Publicado em: • Atualizado em:
Delegado Dannilo Proto

A sentença que condenou dez pessoas na Operação Regra Três também detalha como, segundo a Justiça de Goiás, funcionava a organização responsável por fraudar programas da Secretaria de Estado da Educação de Goiás em Rio Verde, que teria rendido ao grupo pelo menos R$ 2,2 milhões. A organização criminosa atuava principalmente por meio de empresas de fachada ou registradas em nome de terceiros para disputar contratações de obras, reformas, serviços e impressão de materiais. Entre os programas envolvidos estavam o Reformar, Equipar, Revisa Goiás e 1008 – Educação Que Queremos. 

Segundo a sentença, o delegado da Polícia Civil Dannilo Ribeiro Proto e a professora estadual concursada Karen de Souza Santos Proto, que são casados, ocupavam o topo da organização criminosa. A denúncia, recebida pela juíza Placidina Pires após a análise das provas, apontou os dois como “autores intelectuais” do esquema. Dannilo, segundo a decisão, utilizava a posição pública para favorecer os interesses do grupo. Karen ocupava função de coordenação na estrutura regional da Seduc em Rio Verde, utilizando a influência e informações obtidas em razão do cargo para direcionar contratações.  

Dannilo Proto está preso na Casa do Albergado, em Goiânia, desde agosto de 2025. Karen Proto, professora estadual concursada chegou a ser presa em janeiro de 2026, mas cerca de um mês depois, a Justiça concedeu liberdade provisória. Os demais respondem em liberdade.

Condenação dos réus

  • Dannilo Ribeiro Proto — organização criminosa, falsidade ideológica, ameaça e prevaricação. Pena: 11 anos e 2 meses;
  • Karen de Souza Santos Proto — organização criminosa, falsidade ideológica e violação de sigilo funcional. Pena: 11 anos e 1 mês;
  • Leonard Ferreira de Paulo — organização criminosa e falsidade ideológica. Pena: 8 anos e 3 meses;
  • Taisa Souza Santos6 anos, 2 meses e 15 dias de reclusão. Foi condenada por organização criminosa e falsidade ideológica.
  • Valdir Antônio Braga — organização criminosa e falsidade ideológica. Pena: 5 anos e 11 meses de reclusão;
  • Júlio Furquim Goulart Júnior7 anos e 11 meses de reclusão. Condenado por organização criminosa e falsidade ideológica.
  • Hádamо Ferreira de Souza — organização criminosa e falsidade ideológica. Pena: 7 anos e 11 meses de reclusão;
  • Marco Aurélio Barbosa Marquesorganização criminosa. Pena: 6 anos e 5 meses de reclusão;
  • Vitor Rodrigo Bentoorganização criminosa. Pena: 6 anos e 5 meses de reclusão;
  • Luana Morais dos Santosorganização criminosa. Pena: 5 anos e 8 meses de reclusão.

Leonard Ferreira de Paulo aparece na sentença como responsável pela gestão das empresas utilizadas no esquema. Ele era formalmente ligado à Gyn Investimentos e, conforme a decisão, coordenava a elaboração de orçamentos e a participação das empresas nas contratações. Uma funcionária ouvida no processo afirmou que, seguindo ordens de Leonard, preparava orçamentos para diferentes empresas do grupo. Para a magistrada, a prática servia para criar uma aparência de concorrência e fazer com que a empresa de interesse dos envolvidos fosse contratada.

Imagem do casal
O delegado Dannilo Proto e sua esposa, Karen Proto, são alvos de apuração do Gaeco por suspeitas de irregularidades envolvendo recursos públicos (foto: reprodução)

Taisa Souza Santos, esposa de Leonard, aparecia formalmente como proprietária da Barbosa Terraplenagem, antiga C3 Construtora. A sentença, porém, aponta que a empresa tinha participação oculta de Leonard, Dannilo e Marco Aurélio Barbosa Marques. Conversas analisadas no processo também indicaram a participação de Marco Aurélio na empresa, inclusive com aporte de R$ 1 milhão para aquisição de máquinas.

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Valdir Antônio Braga era o sócio formal da Braga Construtora Ltda. A Justiça considerou comprovado que ele funcionava como uma espécie de laranja de Leonard na empresa. A construtora participou de 17 dispensas de licitação do programa Reformar e, segundo a sentença, “ganhou” 16 delas, inclusive disputando procedimentos com a Gyn Investimentos, ligada a Leonard.

Imagem da operação em 2025
Mandados de prisão e busca e apreensão cumpridos em Rio Verde e Goiânia no caso do delegado Dannilo Proto sobre desvio de verbas da Educação (Divulgação/MPGO)

Júlio Furquim Goulart Júnior, contador, atuava na parte contábil da estrutura. A sentença afirma que ele era o contador comum de empresas envolvidas no esquema e participava da arquitetura fraudulenta, conferindo aparência de regularidade fiscal às empresas e legitimando contabilmente as operações. O relatório citado pela magistrada aponta atuação dele na criação, alteração e regularização documental de diversas empresas ligadas aos acusados.

Hádamо Ferreira de Souza aparece ligado às empresas utilizadas para apresentar orçamentos e participar das contratações. A sentença também descreve sua atuação em operações financeiras relacionadas ao grupo. Em um dos episódios analisados, Dannilo teria orientado Hádamо a pegar um cheque emitido pela Braga Construtora e depositá-lo na conta da Gyn Investimentos, de Leonard, com endosso de Valdir.

Marco Aurélio Barbosa Marques, empresário, era sócio formal do Grupo Casa Verdi, formado pela Casa Verdi Construtora e Casa Verdi Investimentos. Segundo a sentença, ele também mantinha participação oculta na Barbosa Terraplenagem. A decisão registra ainda pagamentos classificados como “gratificações” que saíram da empresa e foram parar em contas vinculadas a Marco Aurélio.

Delegado da Polícia Civil Dannilo Proto é condenado por desvio de dinheiro público da Educação de Rio Verde (Foto: redes sociais)
Delegado da Polícia Civil Dannilo Proto é condenado por desvio de dinheiro público da Educação de Rio Verde (Foto: redes sociais)

Vitor Rodrigo Bento, servidor da educação, ocupava função financeira na Coordenação Regional de Educação de Rio Verde durante a gestão de Karen. De acordo com a sentença, ele tinha controle e gestão sobre repasses, especialmente verbas emergenciais. A magistrada considerou que isso reforçava que Vitor tinha conhecimento das fraudes e permitia que elas ocorressem. A decisão também aponta que ele compartilhou sua senha de acesso a um sistema interno com Karen quando ela já não era mais coordenadora, permitindo que ela consultasse informações restritas sobre o número de alunos das escolas.

Por fim, Luana Morais dos Santos aparece como uma pessoa de confiança do casal Proto. A empresa Focus do Saber Educacional, que participou de procedimentos ligados ao Revisa Goiás, foi inicialmente registrada em nome de Hádamо e posteriormente transferida para Luana. Para a juíza Placidina Pires, Luana sabia que a transferência servia para ocultar os verdadeiros proprietários e viabilizar as fraudes. A sentença considera que sua atuação foi decisiva para as irregularidades, especialmente no Revisa Goiás.  

Imagem do casal
O delegado Dannilo Proto e sua esposa, Karen Proto, foram condenados (Foto: reprodução)

Como a engrenagem funcionava

A estrutura descrita na sentença da juíza combinava agentes públicos, empresários e empresas formalmente registradas em nomes de terceiros. Enquanto Dannilo e Karen comandariam a estratégia, Leonard coordenaria as empresas e os orçamentos; os empresários e servidores apareciam formalmente ou atuavam dentro da estrutura pública; e o contador dava aparência de regularidade às operações. A Justiça concluiu que os dez integravam uma organização voltada à apropriação indevida de recursos dos programas educacionais do Estado.

A sentença ainda resume a lógica do esquema ao afirmar que os envolvidos “subverteram programas estaduais voltados à melhoria da Educação Pública e transformaram tais programas em uma ferramenta de enriquecimento ilícito”, por meio do desvio de verbas públicas da educação de Rio Verde. 

Relembre a investigação

Na investigação do MPGO, Dannilo Proto e a esposa, Karen de Souza Santos Proto são suspeitos de liderar um esquema que desviou mais de R$ 2,2 milhões de dinheiro público da rede estadual de ensino.

Segundo a investigação, o delegado é sócio de um instituto favorecido em contratos de reforma de escolas, impressão de material didático e até na realização de concurso público da Câmara de Rio Verde. Desde 2020, ao menos 40 contratos sem licitação teriam sido fraudados para beneficiar a empresa. A Justiça bloqueou bens das empresas e do Instutito Delta Proto.

A juíza Placidina Pires determinou que os condenados paguem R$ 1,85 milhão à Secretaria de Estado da Educação como ressarcimento ao erário. O valor corresponde ao prejuízo causado pelos contratos considerados fraudulentos. Também foi fixado o pagamento de R$ 1 milhão por danos morais coletivos.

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